Ressuscitou para nossa justificação (Rm. 4:25)

Rembrandt Ressurreição de Cristo

ὃς παρεδόθη διὰ τὰ παραπτώματα ἡμῶν
καὶ ἠγέρθη διὰ τὴν δικαίωσιν ἡμῶν.
“Ele foi entregue à morte por nossos pecados
e ressuscitado para nossa justificação.”

(Romanos 4:25)

Que relação existe entre a Justificação e a Ressurreição? Se se fizer essa pergunta a um defensor da Substituição Penal e da Justiça Imputada, talvez não se obtenha nenhuma resposta satisfatória. Nessa teologia, a Ressurreição de Cristo não tem nenhum papel salvífico a desempenhar, mas somente a Cruz, por meio da qual a justiça de Cristo é atribuída (imputada) a nós, e nossos pecados atribuídos (imputados) a ele. Justificação seria apenas o projeto divino de matar alguém para que possa perdoar os “verdadeiros” culpados. Não resta nada para a Ressurreição, que assume função apologética: mostrar que realmente Jesus era o filho de Deus, e que seu sacrifício no Calvário foi aceito pelo Pai. É esse o ensino da Sagrada Escritura? Continue lendo “Ressuscitou para nossa justificação (Rm. 4:25)”

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Trapo de Imundícia ou Linho Fino?

Judas

“Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam.” (Isaías 64:6)

“Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos.” (Apocalipse 19:7-8)

Na interpretação evangélica popular de Is. 64:6, ocorre um erro bastante comum, que é o de atribuir a esse texto uma abrangência universal: o “nossas” de Isaías se torna o “nossas” do leitor e do restante da humanidade, de modo que toda as nossas boas obras (“justiças”) passam a ser vistas como más, sujas, imundas, pecaminosas. Trapo de imundícia são os panos sujos que cobrem coisas que, pela lei mosaica, são julgadas como imundas, como a pele dos leprosos. Continue lendo “Trapo de Imundícia ou Linho Fino?”

Esmolas e Tesouros

Mendigo

“Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe?
Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.”
(Jó 41:11)

“Quem se compadece do pobre ao SENHOR empresta,
e este lhe paga o seu benefício.”
(Provérbios 19:17)

Um dos motivos pelos quais as traduções bíblicas mudam é que a própria língua muda. Às vezes palavras poderosas perdem sua força relativa. A sonoridade muda, a ligação com outras se dissipa na consciência das gerações mais recentes. O uso reiterado em algumas situações, o desuso paulatino em outras, as freqüentes metonímias e analogias, tudo pode obrigar o sentido a migrar. Continue lendo “Esmolas e Tesouros”

Conte a história de Jesus direito!

Noli Me Tangere

“Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos.” (1João 4:9)

O Evangelho é, em grande parte, a história de como o Verbo Divino, eternamente gerado e enviado pelo Pai, se encarnou no ventre de Maria, tornando-se homem, manifestou sua divindade aos seus discípulos, morreu crucificado pelos nossos pecados, ressuscitou para nossa justificação, ascendeu aos céus e agora intercede pela humanidade ao lado do Pai, de onde virá para julgar os vivos e os mortos e restaurar a Criação — tudo isso para a salvação da humanidade. Continue lendo “Conte a história de Jesus direito!”

A Tentação de Cristo

Jesus no deserto

“Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados.” (Hebreus 2:17-18)

“Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.” (Hebreus 4:15)

Assim como o ferro se une ao fogo sem mudar sua natureza, a humanidade de Cristo é unida à sua divindade, preservando-se distintas ambas naturezas na mesma subsistência. Mas o metal torna-se incandescente por sua união com o fogo, ele brilha e queima, sem deixar de ser o que é. Essa analogia é uma das mais belas imagens da patrística, usada por João Damasceno no livro III do De Fide Orthodoxa. Continue lendo “A Tentação de Cristo”

Teologia do Amor em Agostinho

agostinho-de-hipona

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.” (João 14:21)

A teologia do amor de Agostinho é como que o crescimento das preciosas sementes das Sagradas Escrituras, que nos ensinam que do amor dependem todos os mandamentos, que todas as coisas devem ser feitas com amor, sem o qual nada tem valor, que quem ama cumpriu a lei, que não pode dizer que ama a Deus quem não ama ao irmão, que Deus permanece naqueles que permanecem em seu amor, que o amor procede de Deus e é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo e, sobretudo, que Deus é amor. Por um lado, o amor é a máxima exigência e, por outro, o maior dom. Continue lendo “Teologia do Amor em Agostinho”

Sobre a palavra “penitência”

Profeta Jeremias

“Quando o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse “Arrependei-vos [Penitentiam agite] etc.”, quis que toda a vida dos crentes fosse penitência. (Martinho Lutero, 95 Teses)

“Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.” (2Coríntios 7:10)

A vida cristã é uma vida entre dois mundos. Somos atacados pelo pecado e pela tentação, pelos cuidados deste mundo e pelo engano do diabo, pela fraqueza e pela ignorância, pela dor e pela morte, pela desesperança e descrença, pelo esfriamento do amor. Ainda assim, somos alvos do chamado celestial, participantes da natureza divina, filhos de Deus Pai, formados à imagem do seu Filho, habitados pelo Espírito Santo, receptáculos da misericórdia excelsa e herdeiros eternidade. Herdeiros da alegria eterna só herdada através da tristeza. Continue lendo “Sobre a palavra “penitência””