Oração e santificação

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“De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2:12,13)

A famosa oração de Agostinho, “Domine, da quod iubes et iube quod vis” (Senhor, dá o que ordenas e ordena o que quiseres), captura a essência da súplica por santidade conforme ensinada nas Escrituras. Se ele nos dá o que exige, não há limites para o que possa exigir. Suas exigências são satisfeitas por aquilo que ele nos concede; desde que nos dê, estará satisfeito. Nossas próprias limitações se tornam como que irrelevantes, já que Deus é poderoso para fazer ainda mais do que o que pedimos ou imaginamos. Ainda assim, somos inteiramente dependente deles; se não nos conceder sua graça santificante, não iremos a parte alguma. Só podemos suplicar.

A santidade de vida é formada por Deus em nós. A essência da oração é de que a nossa santidade depende, na sua origem, de Deus, e não de nós. Essa oração é precedida pelas palavras: “E toda a minha esperança não está senão na tua grandíssima misericórdia.” (Confissões, X).

Isso certamente contraria muitas de nossas sensibilidades modernas. Em muitas situações, gostamos de nos sentir como pessoas autônomas, independentes, que tomam suas próprias decisões e agem conforme elas. Não quero dizer, com isso, que não exista o que se chama de livre-arbítrio, mas certamente nosso arbítrio não é livre para nos levar a agir como quisermos. Nossa oração só tem sentido se Deus é o nosso provedor.

Mas quando negamos a onipotência divina sobre nossas próprias ações e virtude, nossa vida de santificação se torna um moralismo vazio. Quando oramos, dizemos a Deus o que queremos, ou até o que deveríamos querer, na esperança de que seja ele quem faça em nós. Orar é reconhecer nossa incapacidade e o poder soberano de Deus — cremos, não que ele simplesmente poderia fazer, mas que fará.

Assim são feitas as orações nas Escrituras. Os Salmos são, como em todas as situações, uma grande escola de oração, se lidos com a mente de Cristo. A petição por santidade está em alguns dos salmos mais famosos: o orante pede que Deus o guarde da soberba (Sl. 19:13), crie nele um coração puro e um espírito inabalável e voluntário (51:10,12), que não permita que fuja dos mandamentos (119:10), que incline o seu coração para os mandamentos, e não para a cobiça (119:36), que nenhuma iniqüidade o domine (119:133), que o coração não se incline para o mal (Sl. 141:4). Essas não são esperanças vazias. O Salmista sabe que Deus domina até sobre o seu próprio coração.

As cartas paulinas, nas quais o amor de um pastor por suas ovelhas se revela em oração, Paulo pede e espera que Deus lhes conceda unanimidade (Rm. 15:5,6), que não façam o mal, mas sim o bem (2Co. 13:7), que os corações e pensamentos sejam guardados em Cristo (Fp. 4:7), que cresça o amor mútuo, confirmando os corações e tornando-os irrepreensíveis em santidade (1Ts. 3:12), que se tornem dignos da vocação (2Ts. 1:11), que sejam fortalecidos em toda boa palavra e obra (2Ts. 2:16,17) e que os corações sejam encaminhados no amor e na paciência (2Ts. 3:5).

Por outro lado, despida do tipo de cooperação que as Escrituras exigem, essa noção pode se tornar uma desculpa para o relaxamento. Cristo nos torna irrepreensíveis (1Co. 1:8) segundo sua eleição (Ef. 1:4) e, não obstante, exige que nos empenhemos em ser irrepreensíveis (2Pe. 3:14). Em uma bela imagem, Tomás de Aquino descreve essa cooperação como a que há entre um martelo e o ferreiro. Nossa oração só tem sentido se Deus é o nosso provedor e, não obstante, trabalhamos pelo pão diário.

Embora não seja fácil entender que papel o ser humano realiza em tudo, nossa cooperação não é algo que acrescentamos, mas algo que Deus nos acrescenta. Como o apóstolo Paulo escreve em Fp. 2:12,13, devemos operar nossa salvação com temor e tremor, mas mesmo isso algo que Deus realiza em nós: “sem mim nada podeis fazer.” (Jo. 15:5).

G. M. Brasilino

5 comentários em “Oração e santificação

  1. Seria aceitável para mim para repost este no meu blog em Inglês? Desculpe se meu português traduzido não é muito bom, mas este post é excelente.

    Here is what I am trying to say in English:

    Would it be acceptable for me to repost this on my blog in English? Sorry if my translated Portuguese is not too good, but this post is excellent. Thank you.

    Curtido por 1 pessoa

      1. I actually have what I think is a good rendition of it in English via Google Translate. If you would like to see that text, I can send it to you. Thanks for allowing me to repost your post.

        Curtido por 1 pessoa

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