Apolinarismo, heresia nossa de cada dia

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Jesus é o principal. Embora muitas vezes e com acerto a pregação e a abordagem da Igreja sejam de resgatar o pecador e o perdido, esse é somente o primeiro degrau em uma escada que nos leva a descobrir que nós não somos o assunto principal. É Cristo. Tudo o que a Igreja tem, o que a humanidade redimida tem, tem-no não apenas emcompor Cristo, mas também para Cristo. “Tudo foi criado por ele e para ele.” (Cl. 1:16b).

Quando as Escrituras Sagradas e apostólicas nos falam desse Cristo, usam palavras que desde cedo deixariam perplexos todos os que nelas se aventuraram. Por um lado, elas nos contam de que ele é um ser humano (Rm. 5:15; 1Tm. 2:5) e, por outro, nos dizem ser ele o Verbo de Deus, Deus mesmo entre nós (Jo. 1:1,14), “Senhor meu e Deus meu”, na confissão rendida de Tomé (Jo. 20:28). Humano e divino, mortal e imortal, temporal e eterno, Deus encarnado.

A linguagem a ser adotada era a das duas naturezas em uma pessoa (ou hipóstase). Mas na antigüidade tardia, apareceu a heresia cristológica do Apolinarismo, também conhecida como Cristologia da Palavra-carne, em oposição à Cristologia da Palavra-homem. Essa heresia cristológica concordava com a afirmação nicena de que Jesus era da mesma natureza que o Pai, consubstancial com ele; o problema era a natureza humana. Ela era incompleta: Cristo não tinha uma alma humana, apenas corpo humano, que servia como uma carapaça para o Verbo.

Essa heresia cristológica, Palavra-carne, era moda em Alexandria, e não foi inventada por Apolinário; o próprio Atanásio a ensinava algo parecido em sua obra sobre a Encarnação do Verbo. Ela pode ser vista como um dos resultados da luta da Igreja para preservar sua mensagem no meio helenístico. Numa cultura predominantemente grega e originalmente pagã, o corpo era visto como essa carapaça (ou mesmo prisão) da alma. Esta era a parte mais elevada, quase divina ou mesmo divina. Não haveria sentido em atribuir duas almas a Cristo, o Logos já cumpria esse papel. O Apolinarismo impunha sobre a Cristologia uma coerência pagã e simples. Como quase sempre, a heresia é o erro tentador porque é o erro simples. A ortodoxia costuma ser a verdade transcendente, e quase sempre ela escapa nossa coerência mundana.

O Apolinarismo seria uma síntese dessa concepção grega do homem com as afirmações dogmáticas de Nicéia. Como típicos gregos, entendiam a “carne” em “o Verbo se fez carne” (Jo. 1:14) com referência ao corpo humano, e não com referência ao ser humano, como faziam os hebreus. A Igreja condenaria o Apolinarismo, atribuindo a Cristo duas mentes, uma humana, a outra divina.

 Não é fácil entender como Cristo pode ter duas naturezas, nem como explicá-las em uma só pessoa. As tendências naturais, ou tentações naturais, seriam as de separar demais as duas naturezas, como no Nestorianismo, e a de juntá-las demais, como fizeram várias heresias, entre as quais o Apolinarismo. Mesmo no mundo ortodoxo essas duas tendências cristológicas tinham seus reflexos mais moderados nas escolas de Antioquia e Alexandria.

O Nestorianismo é uma heresia mais facilmente refutável; afinal, ele nega tão frontalmente a unidade narrativa, cúltica e soteriológica da pessoa do Cristo, que é difícil não ver como ele é estranho e contra-intuitivo. Ao separar o Verbo e Jesus, o Nestorianismo nega que o Senhor da Glória tenha sido crucificado (1Co. 2:8) e que tenhamos tocado a Palavra da Vida (1Jo. 1:1-3). A relação entre a Encarnação, a Cruz, a Ressurreição e a Salvação ficam bastante complicadas. Todo o culto prestado pela Igreja a Cristo, com sua origem no próprio culto prestado a Cristo durante sua vida, é minado. Os Sacramentos não fazem mais nenhum sentido. O Nestorianismo bagunça tudo formidavelmente, de modo que até se pergunta, com razão, se Nestório era mesmo nestoriano. Afinal, como alguém pode ter pregado e crido em uma coisa não incrível?

A resposta ao Nestorianismo é a Transfiguração: “A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi. E, de relance, olhando ao redor, a ninguém mais viram com eles, senão Jesus.” (Mc. 9:7,8).

O Apolinarismo é diferente. Ele é errado, bastante errado, mas não é tão contra-intuitivo. Ele preserva a unidade da pessoa de Cristo de uma maneira bastante mais óbvia que a posição intermediária, clássica e ortodoxa. Não é a alternativa mais correta, mas é a mais óbvia. Se o Verbo já é espírito, não há necessidade de outro espírito na pessoa humana de Cristo. É um erro bem mais fácil, ao menos para nós, e penso que isso se dá porque somos ainda algo gregos. O Apolinarismo preserva, às ocultas e nas entrelinhas, o sentimento grego de que o problema todo está no corpo, e assim o redentor assume apenas o corpo humano para nos redimir. Nossos reflexos gregos (ou alexandrinos), entregues a si mesmos, nos levam a algum tipo de Apolinarismo mais facilmente.

O Apolinarismo não resiste a uma leitura atenta da evidência cristológica presente nas Sagradas Escrituras. O Verbo encarnado se desenvolveu como um ser humano normal e, inclusive, foi uma criança normal, ainda que sobrenaturalmente dotada. Como toda criança, ele “crescia em sabedoria” (Lc. 2:52). A escola alexandrina, na tentativa de defender a divindade de Cristo contra o assalto ariano, acabava por negar e alegorizar essa dimensão da cristologia neotestamentária. Nossos reflexos gregos aqui nos dizem que Cristo não poderia, ao mesmo tempo, crescer em sabedoria e ser onisciente desde sempre. Mas eles erram.

Essa heresia nos apresenta uma humanidade bastante diferente da humanidade real. Nosso corpo inclui nosso cérebro, e não é preciso ser nada materialista para reconhecer o modo como nosso corpo afeta nosso espírito, e vice versa. Se Jesus era um ser humano, ele tinha tudo isso, e ele seria simplesmente um monstro se nada disso funcionasse como funciona em nós. Jesus tinha uma consciência humana, inteiramente humana, além de sua consciência divina, ainda que em unidade pessoal perfeita com ela.

Não é difícil testar o reflexo grego de alguém. Veja como explica textos em que Jesus manifesta desconhecimento sobre alguma coisa, como quando pergunta “Quem tocou nas minhas vestes?” (Mc. 5:30) ou quando ora dizendo “Se possível…” (Mt. 26:39). O cripto-apolinarista se entrega fácil. A tendência é alegorizar o texto, ou fazer Jesus fingir ignorância. No fundo, confessa-se as duas natureza de Cristo com uma mão e se nega com a outra.

O Apolinarismo é importante porque mostra como é complicado o relacionamento entre a doutrina cristã e a cultura. Ao introduzir na cristologia expressões como “natureza”, “pessoa” e “hipóstase”, a Igreja colocou sua própria mensagem de maneira inteligível para a cultura, e inteligível tanto em sua revelação quanto em seu mistério. Mas a condenação do Apolinarismo é um testemunho perene de que a helenização do cristianismo não implicou na aceitação servil de paradigmas pagãos, mas na vitória, no triunfo e no reinado de Cristo sobre os inimigos deste mundo no seu próprio jogo. A Igreja não é filha da cultura.

G. M. Brasilino

NOTA: Eu preferi grafar “Apolinarismo”, ao invés de “Apolinarianismo”, porque me parece uma opção mais brasileira, além de ter a formação mais simples. A assimetria com o Nestorianismo, já consagrado, é o revés.

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6 comentários em “Apolinarismo, heresia nossa de cada dia

  1. No respeitante ao povo inculto da igreja primitiva tenho alguns pensamentos que procuram respostas;
    (A) – Como aquela gente de poucas letras poderia entender as teses (heréticas ou não) dos mestres em foco;
    (B) – Por qual motivo a crença em Deus e no seu messias demandava tanto conhecimento teórico?
    (C) – Será razoável pensar que tais pessoas (cristãos primitivos) dependiam profundamente de compêndios teológicos para compreenderem o evangelho de Deus que estava em Cristo?
    Olhando rapidamente para minha estante e os muitos livros de teologia que lá estão me pego pensando… Deus! Provavelmente estamos todos profundamente equivocados, fomos traídos por aquilo que chamamos de conhecimento.

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    1. 1. Não poderia. Por isso os apóstolos estavam entre eles, para transmitir a revelação espiritual (1Co. 2:13), e por isso também lhes ensinaram a estar sujeitos àqueles pastores (Hb. 13:17) que esses mesmos apóstolos instituíram, como guardiões da fé (Tt. 1:9-11). Passada essa primeira geração, os pastores (bispos) continuaram desempenhando essa função de guardiões da doutrina, inclusive pronunciando anátemas (com fundamento em Gl. 1:8) contra os ensinamentos heréticos. Eles eram os guardiões da verdade das Sagradas Escrituras, e foram eles que condenaram as heresias como o Apolinarismo.

      2. A crença em Deus e no seu Messias não demanda tanto “conhecimento teórico”. O que demanda conhecimento teórico é destrinchar as confusões endiabradas dos homens. Nem todas as pessoas estão obrigadas a se aventurar nessas questões; basta não opinar sobre nada, mas apenas receber o Evangelho com um coração simples, e nunca tentar ensinar ninguém sobre coisa alguma. Quem quer opinar, está obrigado, por isso mesmo, a estudar, se não quiser ser irresponsável e destruir o Evangelho com sua própria loucura. Alguns de nós, é claro, por conta da posição que ocupam, não podem deixar de falar, e por isso mesmo precisam de conhecimento (novamente Tt. 1:9-11).

      3. Eles dependiam dos apóstolos, que tinham mais compreensão sobre o Evangelho do que todos os nossos livros teológicos juntos. Nós não temos mais os apóstolos vivos entre nós, mas temos os cristãos de nossa própria época e das anteriores, que estão nas nossas estantes. Nossos livros são a sabedoria dos demais cristãos. É claro que dependemos deles.

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  2. Esta questão das duas naturezas de Cristo são a parte que me causaram mais dificuldades no estudo da Patrística. Ainda estou assimilando as coisas. É óbvio para mim que Cristo possuía duas naturezas em uma pessoa, e pelo que entendi, é correto afirmar que a pessoa única de Jesus Cristo é formada pela união indivisível das naturezas divina (Logos) e humana (constando de corpo e alma racional). Mas daí entram alguns fatores mais complicados, como a teoria (que agora eu não lembro o nome) de Leôncio de Bizâncio, alguns requintes a respeito da “communicatio idiomatum”. Você me recomendaria algum livro a respeito do assunto?. Agora, eu gostaria de uma dica prática: na igreja que frequento, tenho as vezes oportunidade de falar, e busco levar reflexões a respeito das grandes doutrinas do Cristianismo. Isso porque quase sempre o que se prega é no aspecto moral (isso é pecado, aquilo não é) e motivacional. Por incrível que pareça, muitas pessoas ficaram impressionadas(no bom sentido) ao me ouvirem falar da doutrina da Trindade nos termos do credo atanasiano. A questão é: como passar para os irmãos mais simples essa questão da união hipostática e outras dela derivadas? Até que ponto trata-se de uma doutrina importantíssima e onde começam, as minúcias teológicas não tão necessárias?

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    1. 1. Não entendi exatamente sobre qual tema você busca indicação. Cristologia? Communicatio Idiomatum? Leônico?

      2. Sobre a exposição da Cristologia calcedoniana para pessoas simples, é importante ter em mente que existem certos limites quanto ao que nós somos capazes de entender. Muitas pessoas ficam frustradas por não conseguirem “visualizar” duas mentes (a humana e a divina) em Cristo, já que em nós só há uma. No fim das contas, a pessoa pode se sentir burra por não entender algo que ela acha que o professor entende — só que na realidade o professor não entende, porque ninguém entende. Isso ocorre porque muitas pessoas, por conta de uma educação menos esmerada, têm dificuldade de tratar as coisas no nível puramente conceitual (pessoa, natureza, essência, hipóstase, alma, vontade, etc.).

      Então você transpõe a coisa do nível conceitual para o nível narrativo. Eu estou convencido de que a melhor forma de ensinar Cristologia é através da meditação na leitura dos Evangelhos, e de outros textos cristológicos fora dos Evangelhos (embora estes tendam a ser mais conceituais mesmo).

      Eu tentei fazer algo simples em dois textos que estão neste blog (basta clicar em “Cristologia” do lado direito): “Conte a história de Jesus direito!” e “A Tentação de Cristo”. Para isso, é importante conhecer bem as heresias cristológicas e saber por que elas são impossíveis — de que modo elas negam alguma verdade sobre Cristo.

      Além disso, faz muita diferença se você explica a conexão da Cristologia com outros campos da doutrina cristã. As pessoas aprendem aquilo que amam, e começam amar a Cristologia desse jeito, por associação com aquilo que elas já amam.

      3. A importância de ensinar a Cristologia depende do “público” com o qual lidamos. Não dá pra forçar a barra. Algum conhecimento cristológico todo mundo tem que ter, e esse é o conhecimento que já está explícito na Bíblia. As minúcias só se tornam necessárias quando: 1) lidamos com um público bastante intelectualizado, o que é raro; 2) lidamos com um público pouco intelectualizado, mas também pouco humilde em termos de opinião.

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