Sobre a palavra “penitência”

Profeta Jeremias

“Quando o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse “Arrependei-vos [Penitentiam agite] etc.”, quis que toda a vida dos crentes fosse penitência. (Martinho Lutero, 95 Teses)

“Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.” (2Coríntios 7:10)

A vida cristã é uma vida entre dois mundos. Somos atacados pelo pecado e pela tentação, pelos cuidados deste mundo e pelo engano do diabo, pela fraqueza e pela ignorância, pela dor e pela morte, pela desesperança e descrença, pelo esfriamento do amor. Ainda assim, somos alvos do chamado celestial, participantes da natureza divina, filhos de Deus Pai, formados à imagem do seu Filho, habitados pelo Espírito Santo, receptáculos da misericórdia excelsa e herdeiros eternidade. Herdeiros da alegria eterna só herdada através da tristeza.

Tg. 4:8-10: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração. Afligi-vos, lamentai e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria, em tristeza. Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará.”

A conversão e o arrependimento nesse texto tem um nome: penitência. Essa é a palavra de origem latina escolhida pelos primeiros cristãos para traduzir o “arrependimento” de que nos fala o Novo Testamento. Aqui não se chama “penitência” à autoridade concedida por Cristo aos apóstolos para perdoar pecados (Jo. 20:23).

Penitência é a purificação das mãos e do coração, a aflição da alma, o lamento pelo pecado, o choro pela fraqueza, o riso feito em pranto, a alegria feita em tristeza. É muito pobre um cristianismo que vive apenas de alegrias, glória  e triunfo, sem cruz, sem lamento, sem penitência evangélica. Todos nós desejamos antecipar o momento em que nossa vida será apenas sentido, realização, plenitude, felicidade e, no entanto, esse momento ainda não chegou. Vivemos entre dois mundos.

O chamado de Tiago a uma conversão pela tristeza, a reconciliação através do lamento, ecoa o chamado ao Yom Kippur na Lei, o dia em que era realizado o sacrifício pelos pecados da nação israelita. Era um dia de repouso de todas as outras coisas, um dia de retiro de todas as outras atividades, mas também um dia de aflição:

Lv. 16:29: “E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós.”

Ao longo do Antigo Testamento, o arrependimento, a confissão e conversão são sempre acompanhados de sinais exteriores da “tristeza segundo Deus”: oração, choro, jejum, cinzas, pano de saco, como lemos em Jonas 3. Isso acontecia não apenas por pecados individuais, mas talvez muito mais pelos pecados alheios (Sl. 35:13) e pelos pecados da nação (Dn. 9:2ss). Penitência é o nome para esse arrependimento, não apenas como tristeza interior pelo pecado, mas como exteriorização dessa tristeza, como um grito audível e visível pela mudança humana, pela graça divina. Aquele que se humilha é exaltado.

Nosso Senhor alude a isso quando diz das cidades impenitentes: “se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza.” (Mt. 11:21). Essa exteriorização da confissão, essa sinceridade simbolizada, essa humilhação visível, tem o propósito de não trivializar o perdão e a reconciliação, em não diminuir o agravo e a ofensa feitos a Deus, ainda que seja ele misericordioso e perdoador, e tenha provido em Cristo o sacrifício que “nos purifica de todo pecado” (1Jo. 1:7). Como disse certa vez Lutero, o que torna nosso pecado mortal é o fato de o tratarmos como venial, como de menor importância. (Obviamente Lutero usa essas palavras em sentido diferente do da tradição romana.)

Assim como as celebrações de alegria de todas as nações, a penitência de Israel era uma festa da tristeza, do lamento, mas também da conversão e da graça. Por isso, desde cedo o calendário cristão antepôs à alegria da Ressurreição na Páscoa um período de lamentação e penitência, que veio a se tornar a Quaresma. Ela é o nosso Yom Kippur.

G. M. Brasilino

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