A Tentação de Cristo

Jesus no deserto

“Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados.” (Hebreus 2:17-18)

“Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.” (Hebreus 4:15)

Assim como o ferro se une ao fogo sem mudar sua natureza, a humanidade de Cristo é unida à sua divindade, preservando-se distintas ambas naturezas na mesma subsistência. Mas o metal torna-se incandescente por sua união com o fogo, ele brilha e queima, sem deixar de ser o que é. Essa analogia é uma das mais belas imagens da patrística, usada por João Damasceno no livro III do De Fide Orthodoxa.

Podemos até mesmo expandir essa analogia para explicar nossa união com Cristo: ele é o ferro puríssimo, sem qualquer mistura, mas nós somos sujos, impuros, e somente quando unidos a esse metal — quando nos tornamos “um mesmo espírito” com o Senhor (1Co. 6:17) — e aquecidos com seu fogo divino, nossa própria impureza é ex-posta: colocada para fora.

A cena é conhecida: Jesus é levado pelo Espírito ao deserto. Jejuando por quarenta dias, aparece-lhe o Tentador oferecendo satisfação, liberdade e poder. A despeito de quão tentadoras possam ser para nós, os Evangelhos sinóticos não fazem parecer que Cristo tenha se sentido abalado com as ofertas. Parece mesmo que a cena tem algo de cômico; o demônio sai humilhado, e parece que ele não entendeu mesmo a situação. “Estende, porém, a mão, toca-lhe nos ossos e na carne e verás se não blasfema contra ti na tua face.” (Jó 2:5). A Tentação no deserto parece com o que esperaríamos da natureza divina de Cristo, uma vitória esperada.

A real Tentação dos Evangelhos é aquela em que o demônio está invisível, mas se move em faces humanas como as de Judas, Caifás e Pilatos, na traição, na conspiração, e na covardia. Antes de ser levado, Jesus “começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia” (Mc. 14:33). Tal é a Tentação que dá sentido às palavras de Hb. 5:7: “Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte…” Isso é sofrimento real. As lágrimas e a oração por socorro não são apenas exemplos do que deveríamos fazer; expressam sentimentos genuínos de Cristo.

Jesus não poderia pecar. Ele não apenas não pecou, como as Sagradas Escrituras indicam (2Co. 5:21; Hb. 4;15; 7:26; 9:14; 1Pe. 2:22; 1Jo. 3:5), mas não poderia pecar. Sendo ele mesmo Deus, sua natureza divina não pode ser tentada (Tg. 1:13); sendo ele uma só pessoa, qualquer pecado de sua humanidade seria também uma ação de sua divindade, o que seria absurdo. Ele não poderia pecar porque não poderia querer pecar. Como João Damasceno disse na mesma obra (III, 18), a vontade humana de Cristo estava subordinada à sua vontade divina, perfeitamente obediente. Ademais, diferente de nós, Cristo não tinha em si uma concupiscência caída que o enganasse e gerasse nele o pecado (Tg. 1:14-15).

Não obstante, são fortes as palavras com que Hb. 2:17-18; 4:15 descrevem as tentações pelas quais Cristo passou. Ele foi tentado; ele sofreu, e por isso compadece-se de nossas fraquezas. Como Cristo pode ser tentado se o pecado não era uma possibilidade?

É óbvio que a tentação de Cristo não tem o propósito de testar se ele agiria como justo ou ímpio, se pecaria ou não, mas apenas de mostrar quem ele é, sua fidelidade extrema à vontade do Pai com respeito à salvação humana. Quase como na tentação de Jó, muito mais um desafio a Satanás do que ao próprio Jó. Ao permitir que Jó fosse testado, Deus exibia a Satanás o seu servo Jó; ao permitir que Cristo fosse tentado, Deus exibe a nós a humanidade remida na carne do nosso Salvador.

No entanto, seu sofrimento com a tentação foi real, e é esse sofrimento que dá ainda mais relevo à grandeza de seu amor divino. Mesmo não podendo pecar, ele sofreu todas as conseqüências que nós sofremos quando não pecamos, e passou por todas as experiências que nos induzem a considerar o pecado: o abandono, a traição, o medo, a dor, a rejeição. Embora a ela nunca o pudesse conduzir ao pecado, Cristo teve uma experiência real e contínua da fraqueza humana, a passibilidade diante do absurdo deste mundo.

Como todo ser humano, Cristo tinha uma aversão natural todas essas experiências de fraqueza e sofrimento, um justo amor a si mesmo que eventualmente ele mesmo teve que negar. Sua escolha só poderia ser que “não seja como eu quero” (Mt. 26:39), mas Cristo passou por tudo o que passamos quando fazemos a mesma escolha. Cristo teve experiência real de conflito interior, ainda que não na direção do pecado. Longe de mostrar um Cristo inumano, sua impecabilidade mostra o humano que queremos ser, não o Primeiro Adão que poderia pecar e pecou, mas o Segundo Adão que não poderia. Cristo não é a imagem da humanidade perdida, mas da redimida. Ele não é o metal impuro e frio que nós somos, mas o puro e incandescente que queremos ser.

G. M. Brasilino

Um comentário em “A Tentação de Cristo

  1. “Ele é o ferro puríssimo, sem qualquer mistura, mas nós somos sujos, impuros, e somente quando unidos a esse metal — quando nos tornamos “um mesmo espírito” com o Senhor (1Co. 6:17) — e aquecidos com seu fogo divino, nossa própria impureza é ex-posta: colocada para fora.”

    Perfeita essa analogia!

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