Esmolas e Tesouros

Mendigo

“Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe?
Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.”
(Jó 41:11)

“Quem se compadece do pobre ao SENHOR empresta,
e este lhe paga o seu benefício.”
(Provérbios 19:17)

Um dos motivos pelos quais as traduções bíblicas mudam é que a própria língua muda. Às vezes palavras poderosas perdem sua força relativa. A sonoridade muda, a ligação com outras se dissipa na consciência das gerações mais recentes. O uso reiterado em algumas situações, o desuso paulatino em outras, as freqüentes metonímias e analogias, tudo pode obrigar o sentido a migrar.

Eventualmente o tradutor precisa adaptar a linguagem antiga a uma situação nova, a menos que haja uma comunidade viva que conheça e insista no uso anterior, podendo ela mesma, no entanto, tornar-se menos inteligível (ou imediatamente inteligível) para um mundo mais amplo.

A palavra “esmola” é um bom exemplo de uma palavra que, ironicamente, se empobreceu no uso e, depois, no sentido. Afinal, na fala comum, esmola é um trocado que se dá a um pedinte na rua. Quando o sujeito vê Jesus ensinar a dar esmolas, entenderá ter cumprido sua obrigação dando um trocado. Esse uso não está errado, mas esmola significa muito mais do que isso. Na Sagrada Escritura, “esmola” — eleēmosynē em grego, de eleos, “misericórdia” — designa antes os atos e obras de misericórdia, o cuidado e atenção para com o que precisa, a compaixão para com o que sofre, a bondade para com o desvalido.

As esmolas têm um papel espiritual muito grande no ensino e na doutrina de Jesus, especialmente no Evangelho de Lucas. Jesus promete tesouros espirituais, guardados e protegidos nos céus, em resposta a essas obras de misericórdia. Por exemplo:

Lucas 11:41: “Antes, dai esmola do que tiverdes, e tudo vos será limpo.”

12:33-34: “Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.”

18:22: “Ouvindo-o Jesus, disse-lhe: Uma coisa ainda te falta: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-me.”

Na boca de Jesus, esse é o exemplo mais nu e cru de como uma prática cristã pode ser vista à luz do conceito de recompensa. Nesse ponto, o ensino de Jesus está solidamente fundado no modo como o Antigo Testamento via a misericórdia para com os necessitados. Em Pv. 19:17, Deus se coloca em dívida com aquele que empresta. Embora Jesus possa falar de recompensa em outras situações, como a recompensa do que suporta a perseguição (Mt. 5:12 par.), o socorro ao necessitado se destaca.

Isso naturalmente levanta um problema, e até mesmo um escândalo. Afinal, tudo o que temos recebemos de Deus (1Co. 4:7). No livro de Jó, o próprio Deus questiona quem poderia requerer dele alguma coisa como dívida, já que tudo lhe pertence (Jó 41:11). Pior ainda, o tipo de recompensa de que falam as Escrituras segue uma justiça retributiva bastante clara: não pode esperar recompensa celestial aquele que já procurou recompensa humana por sua boa obra (Mt. 6:1). Como Deus pode estar em dívida, se tudo que lhe damos pertence primeiramente a ele?

Estritamente falando, Deus não tem como estar em dívida com alguém, pois possui a tudo e não precisa de nada. É absurdo dizer que Deus está literalmente em dívida com alguém. Mas reconhecer isso só aumenta a força das palavras de Pv. 19:17: Deus nunca está em dívida e, não obstante, aquele que se compadece do necessitado empresta a Deus, sendo-lhe prometido retorno, o “tesouro nos céus” dos Evangelhos sinóticos: “E serás bem-aventurado; porque eles não têm com que to recompensar; mas recompensado te será na ressurreição dos justos.” (Lc. 14:14).

O apóstolo Paulo, cujo ministério incluía, sob encorajamento dos apóstolos (Gl. 2:10), levar as ofertas da igrejas gentílicas para Jerusalém, não fala em “tesouro no céu”, usando uma expressão ainda mais clara: “conta” ou “crédito” (Fp. 4:15-17). Em textos como At. 24:17 ou Rm. 15:16, fica clara a seriedade com que ele encara essa parte do seu ministério. O necessitado é como que um altar através do qual servimos a Deus, o que permite ver uma meta clara no modo como os cristãos deveriam tratar o fruto do trabalho:

Efésios 4:28: “Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado.” 

Em outras palavras: o cristão deveria trabalhar não apenas para adquirir o seu próprio sustento — com o qual deve estar satisfeito (1Tm. 6:8), mas para ajudar os que precisam. Fazer o bem aos que precisam é semear no Espírito Santo (Gl. 6:7-10). Semelhantemente, o autor paulino da Carta aos Hebreus trata a solidariedade e o compartilhamento como sacrifícios que agradam a Deus:

Hebreus 13:16: “Não negligencieis, igualmente, a prática do bem [eupoiia] e a mútua cooperação [koinōnia]; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz [euaresteō].”

Hebreus 11:6: “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus [euaresteō]…”

Aquilo que no texto se traduz como “mútua cooperação” ou “comunicação” é, em grego, koinōnia. Ela indica, no Novo Testamento, a fraternidade entre os cristãos (At. 2:42; Fp. 1:5; cf. 2Co. 6:14; Gl. 2:9), a coleta paulina pelos pobres (Rm. 15:26; 2Co. 8:4; 9:13), a união com Deus no mistério da salvação (1Co. 1:9; 2Co. 13:14; Ef. 3:9; Fp. 2:1; 1Jo. 1:3,6-7), a recepção do sacrifício de Cristo na Eucaristia (1Co. 10:16-17), o compartilhamento dos sofrimentos de Cristo (Fp. 3:10), o compartilhamento da fé cristã (Fm. 6).

De todo modo, o autor coloca uma limitação: são sacrifícios proveitosos havendo fé. O mesmo se diz sobre o amor: aquele que ama não pode fechar o coração para a necessidade do próximo e, inversamente, sem amor o ato não tem proveito espiritual:

1João 3:17: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?”

1Coríntios 13:3: “E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.”

Assim, a intenção é fundamental na prática cristã das esmolas. Se feita sem fé e sem amor, com o desejo de ser visto e louvado por outras pessoas, a prática é vazia.

Além de todas essas designações, a esmolas são tratadas também como um memorial diante de Deus (At. 10:2-4,31; cf 9:36); juntamente com as orações, as esmolas suplicam a misericórdia divina, sendo instrumentais no plano divino para a conversão de Cornélio; a explicação está claramente dada também em Pv. 19:17.

Embora se fale em recompensa, tesouro, conta, crédito, sacrifício ou memorial, tudo isso só faz sentido como analogia, e um ótimo exemplo disso é a Parábola dos Talentos (Mt. 25:14-30) ou das Minas (Lc. 19:12-27). Cada servo é recompensado de acordo com o modo como administrou aquilo que recebeu. Na parábola, o senhor é ao mesmo tempo justo, porque observa o trabalho de cada um, e bondoso, porque concede aos seus servos, porque os premia além do que merecem.

Penso, no entanto, que a melhor comparação é aquela a que os Atos dos Apóstolos nos levam: as esmolas são como as orações. Nelas estamos sempre suplicando a misericórdia de Deus — às vezes de maneira bastante “livre”, como em vários Salmos — e, no entanto, não se pode apontar vida mais recompensadora que a vida de oração. Por isso mesmo, no ensino do Senhor (Mt. 6), as esmolas, assim como o jejum, cercam a oração. Por isso também o profeta repreende os israelitas que praticavam um jejum sem a misericórdia para com o próximo (Is. 58). “O que tapa o ouvido ao clamor do pobre também clamará e não será ouvido.” (Pv. 21:13).

 

G. M. Brasilino

2 comentários em “Esmolas e Tesouros

  1. Sou um dos que quando liam “dar esmolas” no Evangelho, entendia como dar alguma coisa a algum necessitado. Não sabia que era mais profundo conforme você escreveu.
    Quanto a Deus ficar em dívida com alguém ou não, acredito que talvez possamos encaixar aquilo que Calvino disse: apesar de nossas boas obras (e aqui engloba-se esmolas) não serem perfeitas, como são feitas em Cristo, o próprio Deus decide livremente galardoá-las. Também creio que, como o ser humano é aquilo que na terra é a imagem de Deus – toda ação de verdadeira misericórdia para com um humano é como se fosse ao próprio Deus, de onde os homens “derivam”.

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