Eucaristia e Pericorese na Tradição Joanina

triscel

“Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim.” (João 17:20-23)

Na teologia trinitária, pericorese é a mútua imanência e habitação entre Pai, Filho e Espírito Santo, a co-inerência e co-atividade entre as subsistências divinas. A doutrina da pericorese repercute as reflexões patrísticas sobre as Escrituras da tradição joanina e, particularmente, sobre o Evangelho de João. É no Quarto Evangelho, especialmente nos Discursos de Despedida (14–17), que essa vida trinitária mais aparece. Quando Filipe pede para ver o Pai, Cristo lhe responde que eles já viam ao Pai no Filho: “Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim” (Jo. 14:11a).

A pericorese também fora desses discursos: “Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis; mas, se faço, e não me credes, crede nas obras; para que possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu estou no Pai.” (Jo. 10:38)

Quanto ao Consolador, a pericorese geralmente está implícita; isso não impediu, é claro, que a teologia patrística aplicasse também à Terceira Pessoa a mesma linguagem, muito natural, dada a correspondência entre a habitação do Espírito (Jo. 14:17) e a do Pai e do Filho (Jo. 14:23). Mas essa não é apenas uma conseqüência não do papel do Consolador no Evangelho. Afinal, até mesmo os discípulos são chamados a adentrar essa vida divina — quanto mais o Espírito da verdade!

Embora não se desenvolva uma linguagem de participação na natureza divina, como em 2Pe. 1:4, o Cristo do Quarto Evangelho vê também a comunidade como habitando no Pai e no Filho, e sendo habitada por eles, como na Oração Sacerdotal.

Uma conseqüência que a literatura joanina obviamente extrai é a de que não existe imersão na vida divina do Pai em exclusão do Cristo. A graça divina, que na literatura joanina muitas vezes se indica, por metonímia, como “vida” (Jo. 5:26; 1Jo. 5:11) e “glória” (Jo. 17:22), é entregue do Pai ao Filho (consubstancialmente, como dirá depois o dogma trinitário), e do Filho àqueles que lhe foram dados pelo Pai, suas ovelhas que ouvem sua voz. Assim também, na tradição joanina, os discípulos chamam à comunhão com o Pai e o Filho através daqueles que vivenciaram a palavra da vida originalmente:

1 Jo. 1:1-3: O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.

Embora haja certa razão na observação de Albert Schweitzer de que na literatura joanina a comunhão com Deus é explícita, diferentemente da literatura paulina (que só conhece o estar em Cristo), mesmo na literatura joanina essa comunhão com o Pai se dá através do Filho, a qual, por sua vez, se dá também por meio da comunidade. Confessar e honrar ao Pai exige confessar e honrar o Filho:

Jo. 5:23b: Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou.

1Jo. 2:23: Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai.

Essa habitação pericorética do Pai e do Filho na comunidade, que Cristo pediu ao Pai para que houvesse entre aqueles que creriam no Evangelho, se manifesta sumamente no amor e na fé (1Jo. 4:15). Por isso, a tradição joanina chama os discípulos a permanecer nesse amor (Jo. 15:4; 1Jo. 2:28). De fato, a participação pericorética aparece uma uma resposta à obediência amorosa e fiel aos mandamentos de Cristo, que lhe foram dados pelo Pai:

Jo. 14:23-24: Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; e a palavra que estais ouvindo não é minha, mas do Pai, que me enviou.

Jo. 15:9-10: Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço.

1Jo. 3:23-24: Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou. E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus, nele. E nisto conhecemos que ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu.

Essa comunhão de amor e obediência tem seu exemplo máximo na auto-entrega obediente de Cristo, dando sua própria carne pela salvação do mundo. É no Discurso Eucarístico de Jo. 6 que Cristo relaciona a pericorese a esse amor sacrificial:

Jo. 6:51-58: Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne. Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como pode [pōs dynatai] este dar-nos a comer a sua própria carne? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente.

É importante notar que, apesar do desejo de que haja a habitação do Pai na comunidade, aqui Cristo assinala especificamente, na Eucaristia, a habitação do Filho na comunidade. Essa concentração cristológica é a porta para a imersão na vida trinitária. Cristo é a porta de entrada na vida divina. A vida comunicada pelo Pai ao Filho (Jo. 5:26) é aqui novamente comunicada pelo Filho à comunidade (Jo. 6:57).

A pergunta dos judeus no v. 52 — como pode…? — é relevante. Ela tem dois paralelos dramáticos no Evangelho de João. A primeira, e a mais próxima, é a de Jo. 3:3-5, na qual Jesus exige de Nicodemos o “nascimento do alto”, provocando a pergunta: “como pode…?” (pōs dynatai). A resposta, assim como em Jo. 6:53, reitera a exigência: quem não nascer “da água e do Espírito” não pode ver o reino de Deus. Água e Espírito em um texto, carne e sangue no outro. Ver o Reino e receber a vida eterna. A resposta de Jesus, nos dois casos, não é um esclarecimento alegórico do que já havia dito, mas sim uma reafirmação da verdade escandalosa.

O segundo paralelo importante, em Jo. 9:16, indica o milagre da cura de um cego de nascença, realizado por Jesus no sábado. Por um lado, Jesus era considerado pecador pelos judeus, violando o sábado; por outro, realizava milagres assombrosos. Esses sinais tinham propósito de testemunhar em favor da fé anunciada por Cristo (leia aqui). Mas o escândalo de Jesus colocava em crise aqueles que os viam; alguns creriam nele, outros se escandalizariam dele: “houve dissensão entre eles”. O narrador e o próprio Jesus nada fazem para reduzir esse escândalo, assim como nos casos de Jo. 3 e Jo. 6.

O paralelo se fortalece em que a conversa com Nicodemos responde, até nisso, uma tomada de postura em relação à crise dos sinais: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.” (Jo. 3:2). Na dissensão, Nicodemos estava entre aqueles que acreditaram em Cristo; mas Jesus exigiu dele algo mais: nascer da água e do Espírito.

Assim como, na conversa de Jesus com a mulher samaritana, ele oferece uma água que nunca deixa sede (4:13-14), aqui ele nos mostra um pão que jamais deixará fome (6:58).

No Discurso Eucarístico, é a multidão que pede a Jesus um milagre, “para que o vejamos e creiamos em ti” (Jo. 6:30), um milagre como o maná. Jesus oferece um novo maná, que só podem receber aqueles que foram trazidos a ele pelo Pai. Isso porque seu próprio sacrifício é um sinal: na cruz, o lado ferido de Jesus verte “sangue e água” (Jo. 2:18-22; 19:34-35; 20:30-31). Por isso, depois a tradição joanina vê nesses elementos o testemunho permanente do Espírito acerca da verdade da fé em Cristo na comunidade:

1Jo. 5:5-6: “Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus? Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo; não somente com água, mas também com a água e com o sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade.”

Esse é o modo pelo qual os sacramentos são introduzidos literariamente como sinais de Cristo realizados pelo Espírito, como milagres permanentes do seio da comunidade, mas também como participações na glória divina, como habitação do Pai no Filho e do Filho em nós, que não apenas nos apontam a direção da realidade divina, mas nos conduzem nela.

G. M Brasilino

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