Jesus aboliu a distinção entre santo e profano?

Dez Leprosos

“A meu povo ensinarão a distinguir entre o santo e o profano
e o farão discernir entre o imundo e o limpo.”
(Ezequiel 44:23)

“Não deis aos cães as coisas santas,
nem deiteis aos porcos as vossas pérolas,
não aconteça que as pisem com os pés
e, voltando-se, vos despedacem.”
(Mateus 7:6)

A doutrina da separação entre o sagrado e o profano, entre o puro e o impuro, entre o limpo e o imundo, é um dos elementos mais importantes da disciplina da Torá. Ela regulava todo o relacionamento do homem com Deus, o único santo em si mesmo, fonte de toda santidade. Várias vezes, nos livros dos profetas, o povo israelita é repreendido por não ser fiel na observância dessas leis.

Tudo aquilo em que Deus habitou e agiu se tornaria santo, participando de sua santidade — os hebreus, a terra santa, Jerusalém, o Templo e seus objetos. Profano (comum) era todo o resto, o campo da ação “livre” do homem. As coisas santas não poderiam entrar em contato com o resto do mundo, ser “profanadas” — tratadas como comuns ou profanas. A santidade dos objetos se comunica pelo toque (Êx. 29:37), mas nem tudo pode tocá-los, o que os profanaria. Entre as coisas profanas/mundanas, várias eram impuras e transmitiam sua impureza também pelo toque (Lv. 5:2).

Para adentrar a esfera sagrada, o homem e as coisas deveriam ser santificados (consagrados), assim como purificadas de qualquer imundície contraída por toque. Limpo é aquilo que pode entrar em contato com o santo; imundo é aquilo que não pode. Às vezes chama-se abominação fazer algo que torna imundo. Era papel dos levitas ensinar todo o povo de Deus a preservar essas diferenças e separações, assim como realizar os rituais que corrigiam as falhas humanas (Lv. 10:10; Ez. 22:26; 42:20; 44:23).

Nós cristãos não vivemos mais diretamente sob essa legislação de pureza — graças a Deus, porque nessa legislação seria uma abominação comer camarão. Mas a relação que o Novo Testamento tem com ela não é tão simples assim; não se trata simplesmente de um texto caduco que não nos diz mais nada; tudo na Bíblia serve para nossa instrução moral (2Tm. 3:16-17). Já vi este tipo de afirmação diversas vezes, em graus variados, na letra de fundamentalistas e de liberais: Jesus aboliu a distinção entre o santo ou sagrado e o profano. Eu nunca vi uma tentativa de demonstração disso, mas ela é muito difícil de reconciliar com aquilo que Jesus diz sobre o assunto.

Quanto à legislação alimentar, sim, Jesus nega sua validade. Entretanto, ao fazê-lo, ele não rejeita o conceito de pureza em si, antes o insere em uma nova realidade.

Marcos 7:18-23: Então, lhes disse: Assim vós também não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? E, assim, considerou ele puros todos os alimentos. E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.

A pureza de que Jesus fala é a pureza do coração: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;” (Mt. 5:8). Esse tipo de pureza tem antecedentes no Antigo Testamento (cf. Sl. 73:1; Pv. 15:26; 16:2), e lá mesmo ela aparece como um requisito para adentrar os lugares santos (Sl. 24:3-5). Jesus o assume de maneira radical. É a impureza do coração humano, em tudo o que ela é capaz de gerar, que contamina o homem, não os alimentos. É ela que impede a entrada do homem na santidade divina.

Assim, dessa recusa dos “odres velhos” não se pode deduzir que Jesus tenha simplesmente abandonado a distinção entre o sagrado e o profano. Ele deu a ela um novo sentido, mais profundo. Ele a alegorizou.

É claro que, nessa matéria, a própria Torá não conhece uma distinção rígida entre normas de santidade/pureza e normas de justiça/moral, as leis morais e leis cerimoniais que os teólogos cristãos posteriores. Não é incomum que mandamentos ditos “morais” sejam apresentados na linguagem do sagrado: o perjúrio (Lv. 19:12), o homicídio (Nm. 35:33) e a fornicação (Am. 2:7) são formas de profanação. A pregação de Jesus encontra aí, na revelação prévia, suas raízes. Ele reordena as prioridades da Torá. O mundo do homem — no seu coração, mas também nas suas relações (Mt. 5:23-24) — é novo palco do conflito entre pureza e impureza.

Essa mesma linguagem de santidade aparece outras vezes nas palavras de Jesus. Em Mt. 18:15-17, no ensinamento sobre a reconciliação no seio da Igreja, Jesus utiliza novamente a linguagem da pureza: oss que recusam se reconciliar são “gentios e publicanos”, são impuros. Do mesmo modo, a hipocrisia é chamada de fermento (Lc. 12:1), o elemento com os qual os pães santos não poderiam ser misturados (Lv. 2:11). Jesus lê a linguagem de pureza da Torá em uma direção distinta; ele a alegoriza, mas alegoriza na direção já indicada no Antigo Testamento. Essa mesma alegorização é aproveitada por Paulo no contexto da excomunhão (1Co. 5:6-13).

Quando Jesus diz que os seus seguidores não deveriam dar as coisas santas aos cães, ou as pérolas aos porcos, os seus ouvintes receberiam essas coisas como coisa óbvia e patente. A Torá já não ensinava que o santo e o impuro não devem se encontrar? O imundo não pode comer coisas santas, o que as profanaria (cf. Lv. 22:10). Todos sabiam que as coisas santas não podiam ser profanadas (Nm 18:32; Ez. 22:26), e que os cães comem as coisas imundas que os santos não comem (Êx. 22:31).

Não é difícil perceber que essas palavras de Jesus só são úteis se forem, mais uma vez, uma leitura alegórica da linguagem da Torá, enfatizando a pureza de coração. Os cães e porcos não são animais, mas pessoas (cf. Fp. 3:2) — e o que eles têm em comum é sua imundícia. Pela Torá, o estrangeiro e o imundo não podiam comer das coisas santas (Êx. 29:33; Lv. 22:6,10). Como em Mt. 15:26, os cães são aqueles que estão fora do povo de Deus. Essa compreensão ainda estava viva quando a Didaquê foi escrita, a qual proíbe a entrega da Eucaristia aos não batizados, sob o argumento de que não se deve dar as coisas santas aos cães (c. 9).

O Novo Testamento abunda em linguagem de santidade com referência a pessoas, mas ainda trata eventualmente lugares como santos. Jerusalém é chamada cidade santa (Mt. 4:5; 27:54; Ap. 11:2), assim como o monte da transfiguração é chamado monte santo (2Pe. 1:18). Como nas palavras de Jesus, ainda se pode falar em coisas santas. Que a linguagem antiga de santidade ainda está em jogo vê-se em se falar da purificação pelos pecados  através do sangue de Cristo (1Jo. 1:9; cf. Lv. 16:30), e não apenas perdão.

Essa ênfase dada pela nova compreensão de pureza aparece também no caso do Batismo em 1Pe. 3:21. O tipo de pureza vinculada a ele não é mais aquela dos banhos da Torá, a limpeza ritual do corpo, mas a purificação da consciência (cf. 1Co. 6:9-11). Mas ela aparece também em rituais mais simples e corriqueiros, como a ação de graças que se faz pelo alimento. Ela pressupõe que todo alimento que não é recebido com gratidão é comida impura (1Tm. 4:4-5; cf. Êx. 23:25; 1Co. 10:30-31).

A linguagem da pureza moral reaparece também nos textos paulinos, e chega a ser surpreendente: “purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus.” (2Co. 7:1). Tivesse esse texto sido escrito por qualquer rabino da época, a referência óbvia seria a pureza conforme a Torá. Mas Paulo relativiza a imundícia alimentar (Rm. 14:14); ele tem em vista a pureza moral do corpo (1Co. 6:13). Ainda assim, permanece a linguagem empregada, na direção nova dada por Jesus.

Por fim, os dois últimos capítulos do livro do Apocalipse descrevem a redenção final em contínua referência à Criação no contexto da Torá. A árvore da vida é a “coisa santa” da qual o pecado do homem impede de participar, sendo então expulso do Templo/Jardim. Mas aqueles que lavam as suas vestes tem direito à árvore da vida e podem entrar na cidade pelas portas (22:14). Os cães ficarão de fora. A renovação da Criação é a vitória do santo sobre o profano, a purificação do mundo.

Nisso, a árvore da vida é um símbolo perfeito da Eucaristia. Também ela implica em um espaço de santidade do qual não podem participar os que estão de fora da pureza divina (Hb. 13:10), aqueles que estão em comunhão com os demônios (1Co. 10:21). Também ela não pode ser dada aos cães.

G. M. Brasilino

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