Sacerdócio universal — o que ele não significa

oração

“Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.” (Romanos 15:4)

A doutrina do sacerdócio universal é ao mesmo tempo uma doutrina cheia de gozo e alegria espirituais, e cheia de riscos, se mal entendida — como qualquer outra doutrina. Bem entendida, ela nos diz que todos nós somos servos uns dos outros, que devemos ser a presença de Cristo para outras pessoas, intercedendo por elas, assim apresentando sacrifícios a Deus, uma extensão da missão apostólica para toda a Igreja. Mal entendida, ela é a rejeição da autoridade instituída por Deus, um tipo de igualitarismo espiritual pueril, como a rebelião de Corá, pois “toda a congregação é santa, cada um deles é santo” (Nm. 16:3).

Como acontece em muitas outras doutrinas, o erro revela certo sentimento marcionita, que quer atribuir ao Antigo Testamento, e confinar nele, tudo aquilo que se considera ruim, ultrapassado, descontinuado, pouco espiritual. Isso acontece com os conceitos de santo e profano (assim como puro e impuro), uma distinção que muitas vezes se quer ver abolida no Novo Testamento, deixando muitas palavras de Jesus sem sentido (veja aqui).

É óbvio que o Novo Testamento é superior ao Antigo, pois está fundado sobre melhores promessas (Hb. 8:6), assim como é óbvio que os cristãos não estão sob a Lei de Moisés, mas sim sob a de Cristo (1Co. 9:19-22). Como em Agostinho e Tomás, tradicionalmente se vê o Antigo Testamento como o império do temor, e o Novo, o do amor, e nisso há muita razão. Mas o temor é o primeiro passo do amor divino. Isso não deve ser entendido como uma rejeição do Antigo Testamento como ensino espiritual e moral (2Tm. 3:16-17); a Antiga Aliança está abolida, mas Deus é o mesmo sob ambas alianças, e aquilo em que cremos como cristãos depende do Antigo Testamento enquanto revelação. O mosaico do Novo Testamento é feito com as peças do Antigo.

O próprio conceito de sacerdócio universal vem do Antigo Testamento, em, quando mencionado de passagem no Novo, é em alusão ao Antigo. Ele aparece pela primeira vez quando, pouco antes da entrega dos Dez Mandamentos, Deus estabelece o povo israelita como povo consagrado a ele:

Êxodo 19:5-6: Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel.

Não obstante, o mesmo capítulo explica que esse povo israelita, essa nação de sacerdotes, tinha ministros especialmente consagrados para exercer o sacerdócio (19:22), os quais realizavam algumas funções não abertas a todos os demais, proibidas para todos os demais. Eles seriam ministros de perdão, purificação e consagração do restante dos povo; através deles, as ofertas do povo chegariam a Deus e a bênção de Deus chegaria ao povo.

A existência de um ministério ordenado não desfazia o sacerdócio universal dos israelitas. Pelo contrário, o Antigo Testamento reconhece o valor sacrificial daquilo que os israelitas faziam no seu sacerdócio particular. Cada membro da Antiga Aliança era também sacerdote. Por exemplo:

Salmo 51:15-17
15 Abre, Senhor, os meus lábios,
e a minha boca manifestará os teus louvores.
16 Pois não te comprazes em sacrifícios;
do contrário, eu tos daria;
e não te agradas de holocaustos.
17 Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado;
coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus.

O Salmo 51 é especial porque apresenta uma mudança de foco na história espiritual do povo israelita. Foi escrito no Exílio ou Pós-Exílio, quando o Templo estava destruído, e por isso não se podia apresentar a Deus sacrifícios, de modo que o próprio salmista intercede pela reconstrução de Jerusalém e do Templo (51:18-19; leia aqui). O Salmo se vale do conceito da oblação interior, o espírito quebrantado, que seria um sacrifício apresentado a Deus nesse momento em que os sacrifícios e holocaustos não eram possíveis.

Salmos 119:108
Aceita, SENHOR, a espontânea oferenda dos meus lábios
e ensina-me os teus juízos.

Salmos 141:2
Suba à tua presença a minha oração, como incenso,
e seja o erguer de minhas mãos como oferenda vespertina.

Oséias 14:2: Tende convosco palavras de arrependimento e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Perdoa toda iniqüidade, aceita o que é bom e, em vez de novilhos, os sacrifícios dos nossos lábios.

Essa transição já estava implícita na legislação levítica. No Dia da Expiação (Yom Kippur), o sacrifício apresentado pelos pecados de todo o povo israelita deveria ser acompanhado pela contrição.

Levítico 16:29-31: Isso vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez dias do mês, afligireis a vossa alma e nenhuma obra fareis, nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós. Porque, naquele dia, se fará expiação por vós, para purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados, perante o SENHOR. É sábado de descanso solene para vós outros, e afligireis a vossa alma; é estatuto perpétuo.

Essa aflição da alma nada mais é do que o espírito quebrantado do Salmo 51, que depois seria reconhecido como um sacrifício em si mesmo, e oferecido a Deus por cada israelita, como parte do ministério sacerdotal. Aquilo que em Hb. 5:1 se diz dos sacerdotes levitas em relação ao povo israelita, se poderia dizer também da nação israelita em relação ao restante do mundo, no seu ministério de trazer a Deus ofertas e sacrifícios pelos pecados.

Na conhecida rebelião de Corá (Nm. 16), contra o ministério instituído por Deus através de Moisés, o argumento desse levita é de que todo o povo era santo (consagrado). Para ele, o sacerdócio de todos os israelitas enquanto nação santa eliminava a existência de uma casta sacerdotal, um poder sagrado com função litúrgica, que injustamente se elevaria acima de toda a congregação. Esse argumento foi rejeitado por Deus e por Moisés.

Esse exemplo de Corá é retomado no Novo Testamento como um revolta contra a autoridade que também deveria ser condenada pela Igreja. Também no Novo Testamento o sacerdócio universal pode ser encarado de maneira errada, como se o povo fosse independente em relação à autoridade constituída por Deus.

Judas 11: Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Corá.

Quando o Novo Testamento retoma a doutrina do sacerdócio universal, açude principalmente a Êxodo 19:6:

1 Pedro 2:4-5,9: Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;

Apocalipse 1:5b-6: Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!

1Pe. 2:9 usa as mesmas palavras de Êxodo 19:6 na versão grega (LXX), na mesma ordem: basileion hierateuma, ethnos hagion. A Igreja, enquanto Israel de Deus, constituí-se de um povo consagrado para o serviço espiritual. Isso não em uma rejeição de um ministério especialmente consagrado por Deus — como não significava no Antigo Testamento, mesmo o sacerdócio sendo universal —, e a condenação de Corá, presente tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, nos confirma isso. Rejeitar o ministério ordenado, desculpando-se no sacerdócio universal, é considerar que o pecado de Corá não mais existe, de que aquilo que ele fez é hoje o correto. Mas não é.

O Novo Testamento repete o conceito dos sacrifícios espirituais do Antigo Testamento (1Pe. 2:5), e isso constitui grande parte do ministério sacerdotal universal.

Romanos 12:1: Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

Hebreus 13:15-16: Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz.

Como eu apontei em um texto anterior (veja aqui), diversas instruções de Jesus foram dadas especificamente aos apóstolos enquanto apóstolos, e não a outras pessoas: evangelizar e representar a Cristo com autoridade (Mt. 10:1,40; 28:16-20), ligar na terra (Mt. 16;19; 18:18), celebrar a Ceia do Senhor (Lc. 22:19). Essa autoridade doutrinal e sacramental, com todas as suas implicações, é a responsabilidade apostólica mínima e inabdicável (At. 6:4). Por isso também, é papel desses ministros do evangelho consagrar a oferta da Igreja:

Romanos 15:15-16: Entretanto, vos escrevi em parte mais ousadamente, como para vos trazer isto de novo à memória, por causa da graça que me foi outorgada por Deus, para que eu seja ministro de Cristo Jesus entre os gentios, no sagrado encargo de anunciar o evangelho de Deus, de modo que a oferta deles seja aceitável, uma vez santificada pelo Espírito Santo.

Filipenses 2:17: Entretanto, mesmo que seja eu oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, alegro-me e, com todos vós, me congratulo.

Parte dessa autoridade foi concedida pelos apóstolos aos presbíteros enquanto pastores de rebanhos locais (At. 14:23; Tito 1:5; cf. At. 15:22). Por isso, o Novo Testamento atribui aos presbíteros um papel especial de cura e perdão (Tg. 5:14-15).

G. M. Brasilino

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