O fim da salvação não é ir para o Céu

Nova Jerusalém Doré

“Os céus são os céus do Senhor;
mas a terra a deu aos filhos dos homens.”
(Salmos 115:16)

O fim da salvação não é ir para o Céu. Melhor do que isso, o fim da salvação não é tocar harpa (ou cítara) pelo resto da eternidade, vestindo branco e montado em alguma nuvem. O destino final dos justos é descrito como novos céus e nova terra, e a nossa condição, a da ressurreição do corpo, na qual recebemos a vida eterna.

João 5:29: “Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo.”

2 Pedro 3:10-13: “Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas. Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça.”

Os dois últimos capítulos do Apocalipse descrevem gloriosamente essa realidade final. Deus renova toda a criação (21:4-5). A cidade de Deus, a Nova Jerusalém, desce dos céus para estar entre os homens “pois com eles habitará” (21:2,10; 3:12), e “os reis da terra trarão para ela a sua glória e honra” (21:24). Toda imundícia é deixada de fora (21:27), enquanto aqueles que lavaram as suas vestes podem entrar (22:14).

Certamente, nosso destino final está no Céu (Fp. 3:20; cf. Jo. 14:2-3), mas os últimos acontecimentos da história como a conhecemos são justamente a decida da morada celeste à terra, o reino de Deus entre nós. É certo que no meio tempo entre nossa morte e nossa ressurreição, experimentamos um tempo com Cristo fora da terra (Lc. 23:43; Fp. 1:20-24; cf. 2Tm. 4:6). Mas a salvação só está completa com a ressurreição do corpo e a renovação de toda a criação (Rm. 8:19-23). Se é verdade que carne e sangue não podem herdar o reino, é igualmente verdade que o reino só é herdado quando a carne e o sangue são revestidos de imortalidade e incorruptibilidade, para poderem herdar o reino (1Co. 15:50-54).

Embora os cristãos de todas as épocas tenham preservado em essência a verdade da ressurreição da carne, conforme os credos e contra o gnosticismo, o fundamento dessa verdade geralmente é esquecido: Deus se importa com tudo aquilo que ele criou, e a redenção de sua criação não passa pela rejeição de parte dela. A salvação da alma não é salvação em relação ao corpo, uma fuga em relação ao corpo. Se é verdade que nosso corpo é um corpo mortal no qual sofremos, é igualmente verdade que não estamos completos sem que ele mesmo seja redimido da chaga da mortalidade.

Esse é, aliás, um dos motivos pelos quais nós cristãos tradicionalmente sepultamos os mortos, ao invés de cremá-los como os pagãos. Não porque o corpo precise estar intacto no momento da ressurreição — uma forma bastante ingênua e bastante correta de errar — , mas porque Deus se importa com nossos corpos (1Co. 6:13), especialmente aqueles corpos que são templo do Espírito Santo e, por isso, sagrados (1Co. 3:16-17; 6:19-20), e, por isso, devemos nos importar com eles também, não destruí-los como bonecos. A mesma fé no amor de Deus pela criação sustenta tanto a doutrina da ressurreição quanto a prática do sepultamento.

É claro que Jesus promete o reino dos céus várias vezes, no Evangelho de Mateus: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt. 5:3). Mas “o reino dos céus” não é o Céu — embora desde muito cedo, já entre os pais da Igreja, a expressão tenha sido usada para designá-lo, ainda que sem unanimidade. O reino dos céus é o mesmo que o reino de Deus, um modo judaico usado por São Mateus, o evangelista, para traduzir discursos de Jesus. Assim:

Mt. 13:11: “Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido.”

Lc. 8:10: “Respondeu-lhes Jesus: A vós outros é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; aos demais, fala-se por parábolas, para que, vendo, não vejam; e, ouvindo, não entendam.”

Mt. 18:3: “E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.”

Lc. 18:17: “Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira alguma entrará nele.”

Esse é o mesmo reino pelo qual Jesus nos ensinou a orar dizendo “Venha o teu reino” (Mt. 6:10; Lc. 11:2). Embora se fale bastante sobre “receber”, “herdar” e “entrar” no reino de Deus, isso não significa sair da terra. Esse reino vem a nós (Lc. 17:20-21; cf. Ap. 12:10) e por isso, a pregação de João Batista, Jesus e dos apóstolos é o anúncio da chegada do reino de Deus (Mt. 3:2; 4:17; 10:7). O poder de Jesus sobre os demônios era um sinal da chegada desse reino (Mt. 12:28 // Lc. 11:20). Ele aparece primeiro como uma pequena semente e depois como uma grande árvore (Mt. 13:31-32), isso é, uma dimensão presente e outra futura, aguardada, pela qual pedimos que venha.

No presente, o reino de Deus é “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm. 14:17). Em comunhão com essa noção básica, a própria Igreja é esse reino (Ap. 1:6; 5:9-10). Ainda assim, aguarda-se o momento em que os reinos deste mundo passem a ser “de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre” (Ap. 11:15), como cantado no Aleluia de Händel.

G. M. Brasilino

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