Sola Ecclesia: Fora da Igreja não há salvação

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“Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador.” (João 10:1)

Cristo é o único caminho de salvação, e ele constituiu a Igreja como seu corpo para levar essa salvação à humanidade. Quando afirmo que fora da Igreja não há salvação, não quero dizer simplesmente que todo salvo é parte da Igreja e, por isso, como que oferecendo a esperança de que aqueles que hoje ainda não são parte da Igreja possam ser após a morte. Mais do que isso, quero dizer que a Igreja é o meio empregado por Cristo para que sua salvação seja conhecida e recebida, e de que ele não nos garantiu nenhum outro meio.

O plano divino é salvar as pessoas através da “loucura da pregação” (1Co. 1:21). Por isso, através da pregação apostólica primitiva, a Escritura nos diz que “todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (At. 2:47). Cornélio era um homem cujas orações e sacrifícios eram aceitáveis a Deus através de sua fé imperfeita, independentemente de sua nação; o próprio Deus, no entanto, julgou necessário que ele ouvisse ao Evangelho (At. 10). Isso fizeram todos os apóstolos, pois sua mensagem não é apenas indicar e apontar para Cristo; é preciso apontar também para a Igreja. O chamado à salvação tem também como objetivo estar em comunhão com outros cristãos.

I João 1:1-3: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.”

O resultado de andar na luz é estar em comunhão com os outros cristãos (1Jo. 1:7). A Igreja não é apenas acessório ou resultado da salvação; ela é instrumento da salvação realizada por Cristo. Não se pode fazer separação entre Cristo e a Igreja, ou entre o Reino e a Igreja. A Igreja é o instrumento do Reino de Cristo, é o Reino de Cristo entre nós. Não é sem motivo que a própria Igreja seja chamada de “Cristo” em 1Co. 12:12, capítulo no qual a unidade espiritual entre Cristo e os seus membros é explorada (cf. 1Co. 6:17). A Igreja é a plenitude de Cristo (Ef. 1:23). Sola ecclesia é solo Christo. Crer em Cristo é necessariamente crer na Igreja. Ao contrário do que as cristologias liberais nos querem fazer pensar, ser eclesiocêntrico é ser cristocêntrico.

A unidade entre Cristo e a Igreja se manifesta especialmente nos sacramentos e na autoridade pastoral, constitutivos da Igreja. Não apenas somos simultaneamente unidos a Cristo e à Igreja através do Batismo (1Co. 1:12-13; 12:13); essa união é preservada e fortalecida pela Eucaristia, através da qual nós “somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1Co. 10:17), celebrada pelos cristãos reunidos (At. 20:7). A mesma Escritura nos ensina também a estarmos sujeitos às autoridades instituídas por Cristo (Hb. 13:7,17). Aqueles que querem viver longe da Igreja de Cristo estão permanentemente em desobediência a esses princípios. Esse é um dos pontos onde a teologia da “Igreja invisível”, na versão congregacional/batista (leia aqui), causa mais confusão do que ajuda, porque tudo isso é perfeitamente visível.

A vida cristã inclui vida comunitária. Os apóstolos exortam os cristãos das igrejas para as quais escrevem a se dedicarem uns aos outros (Rm. 12:10, honrarem uns aos outros (Rm. 12:10), viverem em harmonia uns com os outros (Rm. 12:16; 1Pe. 3:8), amarem uns aos outros (Rm. 13:8; 1Ts. 3:12; 4:9; 1Pe. 3:8; 4:8; 1Jo. 3:11,23; 4:7,11-12; 2Jo. 5), não julgarem uns aos outros (Rm. 14:13), aceitarem uns aos outros (Rm. 15:7), admostarem uns aos outros (Rm. 15:14; Cl. 3:16), saudarem uns aos outros (Rm. 16:16; 1Co. 16:20; 2Co. 13:12; 1Pe. 5:14), esperarem uns pelos outros (1Co. 11:33), se preocuparem uns pelos outros (1Co. 12:25), servirem uns aos outros (Gl. 5:13; 1Pe. 4:10), não irritarem ou invejarem uns aos outros (Gl. 5:26), suportarem as cargas uns dos outros (Gl. 6:2), suportarem uns aos outros (Ef. 4:2; Cl. 3:13), serem bondosos, compassivos e perdoadores uns para com os outros (Ef. 4:32; Cl. 3:13), se sujeitarem uns aos outros (Ef. 5:21), não mentirem uns para os outros (Cl. 3:9), ensinarem uns aos outros (Cl. 3:16), encorajarem uns aos outros (1Ts. 4:18; 5:11; Hb. 3:13; 10:24-25), não insultarem uns aos outros (Tg. 4:11), não se queixarem uns dos outros (Tg. 5:9), confessarem os pecados e orarem uns pelos outros (Tg. 5:16), serem hospitaleiros uns com os outros (1Pe. 4:9), serem humildes uns com os outros (1Pe. 5:5). Achar que alguém pode trilhar o caminho de Cristo sem tudo isso é, no mínimo, soberba.

É claro que, com respeito à salvação, as Escrituras trazem diversos mistérios. Penso que um dos maiores é o de que ela garante haver salvos “de toda a tribo, e língua, e povo, e nação” (Ap. 5:9; 7:9). Isso não se encaixa facilmente na noção de sola ecclesia, mesmo porque diversos povos e línguas até desapareceram, aparentemente sem nunca receber o Evangelho. Talvez hipérbole? Talvez. Ademais, a Escritura também promete vide eterna a todos os que “perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade” (Rm. 2:7); não se pode esperar nenhuma injustiça no juízo divino final, mas somente a aplicação plena e total de sua justiça, que é misericordiosa e bondosa. As Escrituras ainda conhecem o caso daqueles que até fazem milagres em nome de Cristo, mas sem seguir aos seus discípulos, e de que eles não deveriam ser impedidos (Mc. 9:38-40); ainda assim, elas não lhes prometem salvação.

As Escrituras jamais garantem a salvação daqueles que estão para além da Igreja; é teoricamente possível, porque para Deus tudo é possível, mas não há uma promessa de Deus a esse respeito. Aquele que traz a doutrina de Cristo tem a Cristo (2Jo. 9), mas aquele que não tem a Cristo, não tem a vida eterna  (1Jo. 5:12). Sem dúvida devemos amar a todos os perdidos e não desejar a perdição de nenhum deles, mas amá-los incluir não oferecer falsas esperanças, mas apenas a esperança firme e certa que é Cristo, a única que Deus nos deu.

É claro que excepcionalmente a graça chega antes da Igreja, como no caso de Cornélio, ou do ladrão arrependido no Gólgota. Extra ecclesiam nulla salus — fora da Igreja não há salvação — é primeira e principalmente uma mensagem dirigida àqueles que não querem a comunhão da Igreja, que acham que podem caminhar com Cristo sem ela, mesmo a conhecendo. Nesse sentido, rejeitar a Igreja é rejeitar o plano de Cristo, e, portanto, rejeitar ao próprio Cristo. Cristo é a porta, mas não só isso. É a porta para o rebanho.

G. M. Brasilino

 

4 comentários em “Sola Ecclesia: Fora da Igreja não há salvação

  1. Gyordano, como deve ser no seu entender biblicamente a questão dizimar? Muitos lideres dizem que a igreja não tem como se sustentar e fornecer conforto aos membros, sem os dízimos pois só com ofertas é improvável. Qual tem que ser essa relação dízimo igreja?

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      1. Nem todas as igrejas, versões de congregação, precisam da noção veterotestamentaria de dízimos. Há muitas que vivem muito bem sem o conceito de dízimos.

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