A terra não é a terra: duas alegorias paulinas

 

Paulo1

“Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra.” (II Timóteo 3:16)

“E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.” (Lucas 24:27)

Um dos traços da exegese bíblica crítica é a rejeição dos antigos métodos alegóricos de interpretação das Sagradas Escrituras. Quando se deparam com os numerosos exemplos de interpretação do Antigo Testamento registrados por autores do Novo Testamento, especialmente os evangelistas sinóticos e o apóstolo Paulo, os inimigos da alegoria reagem sempre do mesmo jeito, alegando que nós não somos Jesus nem os apóstolos, e, por isso, não temos autoridade para interpretar como eles interpretavam.

Não é essa a direção que as Escrituras nos apontam, pois Jesus e os apóstolos esperavam que os judeus usassem a mesma interpretação alegórica — porque eles usavam, ainda que se recusassem a usar a alegoria cristológica. Quando Jesus ensina os seus discípulos sobre o que “todos os profetas” disseram sobre o Messias, não é possível encontrar no profeta Jonas nada além de alegoria, como aquela que a tradição sinótica registra na boca do próprio Jesus (Mt. 12:39-41; 16:4; Lc. 11:29-30).

O “segundo as Escrituras” de 1Co. 15:4 fica vazio sem alegoria cristológica, um verdadeiro embaraço teológico levando em conta o modo como outros textos do Novo Testamento buscam provar a ressurreição de Cristo pelo Antigo Testamento. 2Tm. 3:16 se torna mentira em seções inteiras da Lei Mosaica se elas não forem lidas à luz da alegoria moral, como o próprio Novo Testamento às vezes faz (leia aqui). Afinal, “todo escriba versado no reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas.” (Mt. 13:52).

Embora a exegese moderna seja programaticamente contra alegoria, na realidade ela só é contra certos tipos de alegoria. A desmitologização de Bultmann é um exemplo de alegoria moderna, uma releitura do Novo Testamento a partir das categorias do existencialismo, exatamente a mesma coisa que Filo de Alexandria fez com o Antigo Testamento, a partir das categorias da filosofia antiga. Mas há muitos outros. Das tentativas ingênuas do primeiro liberalismo de “explicar” os milagres de Jesus até as interpretações obcecadas por certas narrativas de poder (justificação ou crítica), nunca se fugiu da alegoria. O cristianismo de Kant é apenas uma aplicação sistemática (e errada) da alegoria moral. O que essas alegorias tem de erro não é serem alegorias, mas apenas não serem cristãs, não buscarem na pessoa, na obra e doutrina de Cristo o oriente e a inspiração suprema.

Não há leitura propriamente teológica e integrada das narrativas bíblicas sem a alegoria. O marcionismo, o ódio ao Antigo Testamento, é o que acontece quando essa realidade é encontrada e recusada. Não há diferença espiritual substancial entre a divisão da Lei Mosaica proposta pelo gnóstico Ptolomeu na Carta a Flora e a hipótese documental de Wellhausen, a despeito dos méritos intelectuais desta.

Em um texto anterior, eu mostrei algumas ocorrências da interpretação alegórica no Novo Testamento, com atenção especial às alegorias paulinas (leia aqui). Uma interpretação alegórica interessante, não mostrada naquele texto, diz respeito ao Quinto Mandamento das tábuas da Lei.

Êx. 20:12: Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá.

Ef. 6:2-3: Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra.

O mandamento, no seu contexto original, diz respeito à posse da terra de Israel, que Deus havia jurado dar ao povo hebreu. Viveria muito aquele que honrasse os pais, essa é a promessa, como muitas outras, na realidade. O apóstolo Paulo observa que trata-se do “primeiro mandamento com promessa”, o que ressalta o lugar importante que os pais devem ter na sociedade humana. Nas tábuas, trata-se não apenas do primeiro mandamento com promessa, mas do primeiro mandamento referente à sociedade humana, aparecendo antes de uma coisa tão importante como “Não matarás” (Êx. 20:13), além de ser, dentre os dez, o único inteiramente positivo, sem um “não”.

O apóstolo amplia a promessa: não se trata mais da “terra que o SENHOR, teu Deus, te dá”, a Canaã da aos hebreus, mas simplesmente sobre a terra, uma promessa válida para os cristãos vivendo muito longe da Terra Santa. Dizendo ser o primeiro mandamento com promessa, fica claro que o apóstolo Paulo não está trazendo nenhum novo mandamento, mas apenas reinterpretando o antigo, inserindo-o em uma nova situação, inteiramente cristã.

Ocorre o mesmo tipo de expansão em Rm. 4:11-13, também sobre a promessa da terra:

Gn. 12:7: Apareceu o SENHOR a Abrão e lhe disse: Darei à tua descendência esta terra. Ali edificou Abrão um altar ao SENHOR, que lhe aparecera.

Gn. 17:8: Dar-te-ei e à tua descendência a terra das tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua, e serei o seu Deus.

Rm. 4:11-13: E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça, e pai da circuncisão, isto é, daqueles que não são apenas circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai, antes de ser circuncidado. Não foi por intermédio da lei que a Abraão ou a sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim mediante a justiça da fé.

Aqui, a promessa da terra é novamente expandida, dizendo respeito a todo o mundo, não apenas a terra de Canaã. O que surpreende é essas duas expansões seguirem direções aparentemente distintas. Enquanto a promessa da terra em Ef. 6:2-3 diz respeito à presente vida, em Rm. 4:11-13 ela é escatológica — ou anagógica, na linguagem posterior.

Ambas alegorias tem em comum o fato de reconhecerem como herdeiros das promessas os filhos da fé de Abraão, nós, não os filhos biológicos (um argumento que Paulo trata cristologicamente em Gl. 3). O texto antigo diz respeito a nós, eis a premissa de toda a alegoria cristológica. O Antigo Testamento aparece como texto inteiramente cristão, mesmo porque para os judeus não há um “Antigo” Testamento.

G. M. Brasilino

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