1Co. 12:13 e o “Batismo no Espírito Santo”

Pentecostes El Greco

“Um só Senhor, uma só fé, um só batismo;” (Efésios 4:5)

“Pois por aquele Espírito, que nós recebemos no batismo, somos todos unidos em um só corpo.” (John Wesley, Notas Explicativas)

A primeira carta de São Paulo aos Coríntios é um dos escritos mais explosivos das Sagradas Escrituras. Para uma Igreja local adoecida pelo pecado obstinado e maculada pela divisão, o Apóstolo apresenta uma poderosa visão de unidade e santidade. Ela é, ao mesmo tempo, a carta mais carismática, a mais sacramental e a mais eclesiológica do Novo Testamento. Ainda que certamente não tenha sido a primeira carta de Paulo dirigida àquela Igreja (1Co. 5:9), ela mereceu a sobrevivência, e por si mesma justifica as quatro marcas da Igreja conforme o Credo Niceno: Una, Santa, Católica e Apostólica.

Se a Carta aos Romanos apresenta gloriosamente a esperança do Evangelho como a salvação para todos os povos mediamente a fé — primeiro para o judeu, depois para o grego —, a Primeira Carta aos Coríntios é uma grande expressão do realismo do Evangelho, com toda a dificuldade de viver uma identidade cristã que abarca e transcende todas as outras, em uma comunidade redimida de santos e pecadores — quer judeus, quer gregos, quer servos,  quer livres.

Já se disse que o erro coríntio foi uma pneumatologia deficiente, uma compreensão equivocada sobre o propósito das operações genuínas do Espírito Santo, e isso é verdade. Mas é curioso como as respostas para esses diversos problemas, ao longo da carta, envolvem ora a centralidade ética do amor, ora a centralidade mística dos sacramentos, e aliás um mesmo problema, o dos alimentos dedicados aos ídolos, recebe duas respostas diferentes, à luz do amor (c.. 8) e à luz da Comunhão (c. 10). Isso é incompreensível se não se nota a premissa fundamental para o Apóstolo, tanto o amor quanto os sacramentos são operações do Espírito Santo (cf. Rm. 5:5; 1Co. 12:13; Gl. 3:27ss).

Um texto chave da carta é 12:13. Todos os comentaristas, desde o início da Igreja até os Reformadores — inclusive os Reformadores (Lutero e Calvino) —, interpretaram esse texto bíblico como uma indicação de que, através do sacramento do Batismo, os crentes no Evangelho (o que inclui as crianças) são inseridos no corpo de Cristo, a Igreja, por uma ação do Espírito Santo. Espírito, Sacramento e Igreja, três temas fundamentais da carta, se unem no texto.

Entretanto, com o aparecimento de um protestantismo anti-sacramental, formulou-se uma compreensão distinta desse texto, através do conceito de “Batismo no Espírito”, diferente e independente do sacramento do Batismo, por uma interpretação equivocada de Mc. 1:8, At. 1:5 e outros textos. Desde Zuínglio até o Pentecostalismo, passando pelo Puritanismo e pelo Metodismo, essa teologia passou por diversas mudanças, conservando sempre a idéia da independência entre o Batismo no Espírito Santo e o Sacramento do Batismo, sendo este “meramente simbólico”, meramente um teatro. Essa nova teologia procurou separar aquilo que a teologia anterior teve o cuidado de  distingüir sem separar — entre a água e a graça, entre a ministração do Sacramento e a recepção em fé.

As diferenças nas versões evangélicas de 1Co. 12:13, em língua portuguesa, trazem as seqüelas dessas propostas teológicas. Elas traduzem a primeira parte do texto de maneiras diferentes, com sentidos diferentes, e algumas delas bastante desajeitadas:

NA27: kai gar en heni pneumati hēmeis pantes eis hen sōma ebaptisthēmen

ARA: Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo

ARC/ACF: Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo

NTLH: Assim, também, todos nós… fomos batizados pelo mesmo Espírito para formar um só corpo.

NVI: Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito

As versões ARC, ACF e NVI dão suporte à noção de “batismo no Espírito Santo”; diferem entre si no modo como traduzem eis hen sōma: para ARC/ACF, aparentemente o “ser um só corpo” resulta do “batismo no Espírito Santo” (e por isso se introduz o verbo “formar”, ausente no texto grego mas talvez implícito na preposição eis), enquanto na NVI parece ser uma premissa desse batismo. A ARA parece dizer exatamente o contrário da NVI, em uma mudança na ordem das palavras que implica em uma mudança de sentido, sendo que aqui a ARA segue mais de perto o texto grego. De todas, a versão mais clara é a NTLH, que une o melhor da ARA e da ARC/ACF, indicando corretamente uma distinção entre as preposições en e eis, dando a elas o melhor sentido contextual.

O que ocorre é que a expressão en heni pneumati — que ARC, ACF e NVI querem traduzir como “em um [só/mesmo] Espírito” —, aparece em um contexto que indica claramente o seu sentido. É certo que a expressão en pode, em certas condições, indicar aquilo em que se é batizado, o instrumento do batismo, como em Mt. 3:11: en hydati, “com água”. No entanto, o contexto de 1Co. 12 não deixa nenhuma dúvida sobre o sentido da preposição en:

1Co. 12:7 A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso.
8 Porque a um é dada, mediante o Espírito [dia tou pneumatos], a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito [kata to auto pneuma], a palavra do conhecimento;
9 a outro, no mesmo Espírito [en tō autō pneumati], a fé; e a outro, no mesmo Espírito [en tō heni pneumati], dons de curar;
10 a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las.
11 Mas um só e o mesmo Espírito [to hen kai to auto pneuma] realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente.
12 Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo.
13 Pois, em um só Espírito [en heni pneumati], todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.

Como se pode ver, trata-se de uma seqüência de afirmações em que o Espírito Santo tem iniciativa agente. Conquanto o fraseado varie, se preserva a noção básica de que o Espírito Santo é agente que concede uma variedade de dons a pessoas diferentes, preservando sempre a unidade, porque é sempre o mesmo Espírito agindo. De fato, a segunda metade do v. 9 constitui até paralelo sintático em relação o v. 13. Não caberia, portanto, entender o papel do Espírito como instrumento ou “lugar” — batizados no mesmo Espírito —, mas sim como agente: batizados por um mesmo Espírito, ou “pelo mesmo Espírito” (NTLH).

Um paralelo teológico claro é Cl. 2:11-12, em que atribui-se a Cristo o papel agente na circuncisão espiritual batismal. Mas, muito mais próximo do texto em questão, está 1Co. 6:11, que também diz respeito ao Batismo: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus [en tō pneumati tou theou hēmon].”

Batizados por um mesmo Espírito, mas que Batismo é esse? Como mostrei em um texto anterior (leia aqui), essa pergunta é sem sentido, pois a teologia paulina só reconhece “um batismo” (Ef. 4:5), texto que também trata da unidade da Igreja. Assim, através do Sacramento do Batismo, todos nós somos incorporados pelo mesmo Espírito à Igreja.

A epístola fornece duas confirmações importantes de que esse é o sentido de 1Co. 12:13. A primeira aparece justamente na questão introdutória da carta, que é a da dissensão entre os coríntios, apegados a certos ministros do Evangelho, como Paulo, Apolo e Cefas. A resposta do Apóstolo é sacramental: ninguém pode se dizer “de Paulo”, porque ninguém foi batizado em nome de Paulo.

1Co. 1:11-17: Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo? Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro. Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que se não anule a cruz de Cristo.

A pergunta “Acaso, Cristo está dividido?” (v. 13) encontra plena resposta em 12:12, texto em que a Igreja, indivisa, é chamada de “Cristo”. O pressuposto fundamental do texto é de que não há qualquer justificativa para dividir a Igreja a partir de nomes distintos, divisões na Igreja, se todos foram batizados no mesmo nome. O Batismo marca, portanto, a unidade da Igreja. Que se trata do Sacramento do Batismo, vê-se pelo fato de que o Apóstolo Paulo declara ter, ele mesmo, batizado pessoas, inclusive ironiza o fato de não ter batizado poucos dentre os coríntios (embora, como garante At. 18:8, todos tenham sido batizados).

O texto não faria absolutamente nenhum sentido se Paulo e os coríntios não acreditassem na eficácia sacramental do Batismo. Por que Paulo apresentaria uma resposta que só faz sentido se o Batismo for eficaz, uma vez que a dissensão dos coríntios não diz respeito ao Batismo especificamente? Inclusive ao dizer que Cristo não o enviou para batizar (1:17), Paulo não tenta reduzir o papel do Batismo, mas reduzir a si mesmo diante do partidarismo, como o faz também com a pregação do Evangelho “não com sabedoria de palavra”, tirando toda razão para que alguém possa se dizer “de Paulo”, uma vez que todos os apóstolos receberam a missão de evangelizar e batizar. Essa estratégia prossegue nos capítulos seguintes (cf. 3:4-5).

A segunda confirmação de que 1Co. 12:13 fala do Sacramento do Batismo procede do paralelo textual em 1Co. 10:1-4, texto que trata do Batismo e da Eucaristia como prefigurados (typoi, 10:6) no Êxodo:

1Co. 10:1-4: Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo.

1Co. 12:13: Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.

A nuvem que os seguia e travessia do Mar Vermelho são vistos como o Batismo prefigurado de todos os hebreus, inclusive as crianças. Não se trata, óbvio, de uma imersão, porque, como esse e outros textos provam, Batismo não significa imersão, embora certamente implique na introdução a uma nova realidade, seja mosaica (eis ton Mōusēn), seja cristã (eis hen sōma). Em ambos os textos, existe um beber posterior às águas: o manjar espiritual e a fonte espiritual, procedente da pedra que é Cristo, corresponde ao “beber de um só Espírito”.

G. M. Brasilino

24 comentários em “1Co. 12:13 e o “Batismo no Espírito Santo”

  1. Falar em “línguas estranhas” é evidência do batismo no/com Espírito Santo? Essas “línguas estranhas” na bíblia é outro idioma ou realmente manifestações da parte de deus, porque cada dia é mais frequente essas.

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    1. O dom de línguas é um dom concedido apenas a algumas pessoas, como aprendemos em 1Co. 12. É possível que esse falar em línguas não seja entendido por ninguém, motivo pelo qual o apóstolo Paulo ensina que se ore para que Deus capacite a interpretar (no cap. 14).

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  2. Gyordano, e pra qual finalidade era e é hoje em dia esse dom, e conforme você disse é possível que não seja entendido, então como saber se alguém está falando essas línguas?

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  3. Se possível, gostaria que me explicasse esses versículos de 1 Cor., porque já ouvi muita bobagem e não consigo entender, 14 no verso 3 qual o significado da exortação e consolação. Verso 5,6 essa língua estranha. Verso 18 Paulo falava essas línguas estranhas ou línguas em outro idioma?. Versos 24,25 se falar línguas estranhas é profetizar convence o incrédulo?

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    1. Exortar é encorajar, dar ânimo, fortalecer.
      Consolar é trazer paz, confortar.

      O texto não fala sobre “línguas estranhas”, mas línguas que não são entendidas por quem ouve.

      O dom de línguas não é a mesma coisa que profetizar.

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  4. Certa vez eu conversando com um cooperador da igreja para aprender mais sobre esse batismo das línguas estranhas esse cooperador disse que ele tinha medo de blasfemar contra o Espírito Santo e não ter perdão mas ele não acredita também nesse línguas estranhas. Quem fala diz que nós não tivemos ainda uma experiência com Deus e estamos perdendo intimidade com Ele. Isso seria blasfêmia Gyordano? Qual seria essa blasfêmia o sangue de Cristo purifica esse pecado?

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      1. Então como eu não acredito nessas línguas estranhas assim como em muitas profecias ditas nas igrejas, ou fora delas, isso não é blasfêmia né, eu até falo que é bobeira, tolices etc?

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    1. Para aquele que se confessa e anda na luz, o sangue de Cristo purifica de qualquer pecado (1Jo. 1:7-9). A Escritura não explica como isso se enquadra na afirmação de Cristo de que a blasfêmia contra o Espírito Santo é imperdoável.

      Minha posição é de que ali Cristo se refere a pecados que são perdoados quando cometidos de maneira “inconsciente”; eles são perdoados, especialmente quando outras pessoas intercedem por nós. Mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não é perdoada assim, exigindo sempre arrependimento.

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  5. Gyordano, o versículo que diz que o espírito dos profetas está sujeito aos profetas, foi falado no culto que quando a pessoa está falando em línguas estranhas, essa pessoa tem o controle e pode parar no momento que quiser. Esse versículo quer dizer o que pelo contexto na sua interpretação.

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  6. Gyordano o texto de 1 Pedro diz que Jesus pregou aos espíritos em prisão. Qual seria a melhor interpretação de quem são esses espíritos, e qual seria essa pregação.

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    1. A melhor interpretação é combinar 1 Pedro 3:19-20 e 4:6. A Escritura ensina em outros lugares que Cristo, antes de ascender aos céus, Cristo visitou a região dos mortos (Ef. 4:9).

      Os espíritos em prisão são aqueles que viveram em tempos anteriores, sendo rebeldes na época de Noé. O conteúdo da pregação é o Evangelho.

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  7. Gyordano dizem que o apóstolo Pedro foi crucificado de cabeça pra baixo, isso aconteceu realmente, tem algum texto histórico ou é só boatos?

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    1. Todos os registros históricos antigos indicam que Pedro morreu crucificado, e isso parece estar indicado indiretamente em João 21:18.

      Quanto a ter sido crucificado de cabeça para baixo, os documentos que apontam para isso são do final do século II d.C, ou seja, mais de cem anos após a morte de Pedro.

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  8. E esses documentos são de credibilidade? Sobre Pedro ainda, ele era filho de Jonas ou João, não lembro os versículos que o pregador comentou que tem esse relato mas, quem era o pai dele, é porque a Bíblia trás essa diferença?

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  9. Olá Gyordano

    Segundo essa doutrina sacramentologista, quem não é batizado não é salvo ?
    Só podem ser salvos que é batizado?

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    1. Olá, Matheus. Tudo bem?

      Através do Batismo nós nos unimos à morte de Cristo (Rm. 6:4; Cl. 2:12). Nós só podemos ser salvos através da morte de Cristo. Portanto, a graça que recebemos através do Batismo é necessária para a salvação, e ninguém jamais será salvo sem ela. Mas Deus é livre para conceder essa mesma graça sem o Batismo, a pessoas que não tiveram tempo ou condições de serem batizadas.

      Uma pessoa que rejeita o Batismo rejeita a Cristo. Portanto, essa pessoa está condenada. Uma pessoa que não teve tempo ou condições de ser batizada pode ser salva.

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