Sobre o Inferno

La Barca di Caronte

Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom, se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido, assentadas em pano de saco e cinza. Contudo, no Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno.” (Lucas 10:13-15)

“Assim como o coração do animal está no meio, assim também o inferno considera-se estar no meio da terra.” (Isidoro de Sevilha, Etimologias, XIV, 9, 11)

Em Teologia, grande é a tentação é de querer que as coisas sejam simples demais. Nós ficamos mais tranqüilos quando aquilo em que cremos cede, de algum modo, à nossa compreensão, e não é fácil vencer a inqüietação causada pelo que a excede.  Se isso é mais ou menos verdade sobre cada doutrina cristã, agrava-se quando o tema é a mais terrível delas, a doutrina do Inferno. Quando não podem esquecê-la, as pessoas abraçam mais facilmente as interpretações que de algum modo facilitam as coisas.

As Sagradas Escrituras não cedem a simplificações. A variedade de situações e linguagens nas quais elas foram feitas, a transcendência própria àquilo de que tratam, tudo faz que resistam a fórmulas fáceis. Há duas modas comuns no tratamento da doutrina. A primeira é a de que o Inferno é “apenas futuro”, a segunda é de que ele é apenas um “distanciamento” em relação a Deus, provocado exclusivamente pelo perdido, talvez até desejado por ele. Ambas encontram apoio em certos textos das Escrituras, mas nenhuma das duas diz toda a verdade sobre o aspecto que enfoca.

O Inferno é apenas futuro? É comum que tratamentos populares dessa questão, visando a Teologia Sistemática — velha amiga de quem quer respostas prontas e simples —, façam uma distinção entre duas gregas palavras principalmente, Hadēs Geenna, acompanhadas de seus correspondentes semíticos. Diz-se que Hadēs, desde a origem grega, é o mundo dos mortos, sua morada presente (ou apenas dos condenados, o que não faz nenhum sentido nos textos), enquanto Geenna é uma realidade futura, o destino derradeiro dos perdidos no Dia do Juízo. Segundo essa moda, Inferno mesmo seria Geenna.

É bem fácil ver as coisas desse modo, dado que enquanto as Sagradas Escrituras quase sempre ligam o Hadēs à morte e Geenna à condenação e juízo eterno. O texto de Ap. 20:14 parece mesmo contar com essa distinção, pois nele o próprio Hadēs é lançado no Geenna.

Mas quase sempre não é sempre. Dois textos desafiam e desestabilizam essa teologia ‘infernal’ simplista — três textos, mas contam como dois —, e eles ajudam a entender por que a doutrina cristã, na língua latina, adotou a palavra ‘Inferno’ (Inferus ou Infernum): quanto ao Hadēs, é Mt. 11:23 (= Lc. 10:15 [Q]); quanto a Geenna, é Tg. 3:6. O que esses textos têm em comum é inverter o uso comum das duas palavras gregas.

Mateus 11:23: Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno [heōs hadou katabēsē]; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje.

Aqui, as palavras de Jesus tratam da condenação da cidade de Cafarnaum por rejeitar o arrependimento a despeito dos milagres que lhe foram concedidos. Como se lê no v. 22, o contexto é o “dia do juízo”. Jesus fala também contra duas outras cidades galiléias impenitentes (Corazim e Betsaida), e ele compara as três a cidades pagãs condenadas no Antigo Testamento: Tiro, Sidom e Sodoma. De fato, a condenação de Cafarnaum, ainda que textualmente em paralelo com Sodoma, ecoa a linguagem da condenação de Tiro:

Ezequiel 26:20: Então te farei descer com os que descem à cova, ao povo antigo, e te farei habitar nas mais baixas partes da terra, em lugares desertos antigos, com os que descem à cova, para que não sejas habitada; e estabelecerei a glória na terra dos viventes.

O texto ecoa também também a condenação do imperador babilônico em Isaías 14, ou do faraó em Ezequiel 31, ambas mencionando o Še’ôl como um lugar inferior que serve de punição. Cristo se coloca então na tradição profética de denúncia, voltando-se não apenas para os pecados do povo da Cidade Santa, mas também para as cidades pagãs. Mas agora a pecha do pagão se lança sobre os próprios compatriotas judeus, que não acolheram o Evangelho do Reino em contrição.

Também é inesperado o texto colocar o Hadēs no Dia do Juízo, quando se esperaria ver Geenna ou semelhante (cf. Mt. 5:22). O contraste de Jesus entre o elevar-se ao Céu e o descer ao Hadēs pressupõe a mesma cosmologia semítica implícita em Ez. 26:20, na qual terra (plana) sustenta-se acima das águas e do Abismo (= Hadēs/Še’ôl, em Is. 14:15; Cf. Sl. 28:1; 30:3; Jó 26:5), e abaixo do firmamento, que a protege das águas superiores — um mundo principalmente tríplice: os céus, a terra e a região sob terra (Fp. 2:10). Leia mais aqui.

A morte é uma descida ao “coração da terra” (Mt. 12:40). O Hadēs tem claramente uma localização tanto quanto o céu, e é um extremo de profundidade (cf. Jó 11:8 [LXX]; Am. 9:2 [LXX]) — isso mesmo que hoje não tomemos essa cosmologia como uma indicação espacial literal. Por essa localização inferior, em latim se deu a esse lugar o nome ‘Inferus’. Também por isso, o Credo Apostólico contrapõe descendit ad inferosascendit ad caelos. Originalmente, ‘Inferno’ seria a tradução exata para a realidade do Hadēs enquanto mundo dos mortos, nas “regiões inferiores da terra” (Ef. 4:9), antes de tal palavra tomar a condenação final por referência mais comum. Na Vulgata, se diz “in infernum descendes” em Mt. 11:23. Coisa semelhante se deu em outras línguas não latinas.

Tiago 3:6: Ora, a língua é fogo; é mundo de iniqüidade; a língua está situada entre os membros de nosso corpo, e contamina o corpo inteiro, e não só põe em chamas toda a carreira da existência humana, como também é posta ela mesma em chamas pelo inferno [hypo tēs geennēs].

Enquanto Mt. 11:23 usa Hadēs (gen. hadou) onde esperaríamos Geenna, Tg. 3:6 segue a direção oposta. Aqui o “Inferno”, Geenna (gen. geennēs), aparece como um poder presente; conforme compreendamos o texto, seria como uma força “quase” diabólica, que é justamente o que se espera do Hadēs enquanto poder opressor (Sl. 18:5 [LXX]; Pv. 5:5 [LXX]; 1Co. 15:55), ou apenas o destino (presente?) da língua.

Há outras semelhanças de uso ao longo das Escrituras. Como na parábola do Rico e Lázaro, em Ap. 9:2 há fogo no Abismo ou Hadēs, que é o que se esperaria do Geenna. Nem sempre a distinção entre Hadēs e Geenna é firmemente preservada pelas Escrituras Sagradas. Por isso, a Vulgata preferiu verter Hadēs como Infernus e Geenna como Gehenna, guardando algo do sentido cosmológico original: Hadēs ou Infernus é o mundo dos mortos, a parte inferior da terra; Geenna ou Gehenna é o castigo final. Dizendo assim, não se reafirma a interpretação simplista mostrada acima, pois pode-se bem conceber que as duas coisas, o mundo inferior e o castigo final, estejam ligados. Distinção não implica em separação. Por isso, não é de estranhar que o uso posterior da Igreja latina haja unido as duas tendências em um só nome, ainda que qualificado.

Descensus ad inferos

Mais semelhanças se notam quando pensamos na segunda questão: o Inferno é essencialmente um distanciamento voluntário em relação a Deus?

A noção de justiça retributiva é um dos nortes da teologia clássica do Inferno. O Inferno é concebido e realizado por Deus para punir os impenitentes, em uma resposta direta aos pecados. Por isso mesmo, o Inferno é ligado ao Juízo. Mas a idéia de que Deus inflige ou infligirá sofrimento sem fim (ainda que não seja fogo literal) nos pecadores pode parecer perturbadora.

Diante dessa dificuldade, não necessariamente insolúvel, uma outra concepção de Inferno cresceu: a de que o Inferno é uma separação em relação a Deus, uma ausência de comunhão e luz tão severa que só resta a infelicidade eterna e insolúvel, um sofrimento puramente espiritual, mas ainda — eis a peripécia! — uma decisão particular do ser humano, que prefere rejeitar eternamente o amor divino. A porta do Inferno fechada pelo lado de dentro. Assim, o sofrimento não é ativamente provocado por Deus, sendo apenas uma ausência eterna daquilo que pode fazer o homem feliz, mera privatio boni. A condenação é totalmente realizada pelo pecador, que preferiu o sofrimento a Deus. Como evidenciado em um texto anterior (leia aqui), um erro de tradução pode induzir os leitores a pensarem que 2Ts. 1:9 ensina exatamente isso.

Uma versão dessa segunda posição, defendida por teólogos orientais, nos diz que a Presença de Deus é o único destino eterno da humanidade, tanto de salvos como de condenados. Mas como os salvos amam tal Presença e os condenados a odeiam, a felicidade e o sofrimento eterno são diferentes perspectivas da mesma realidade; o “distanciamento” seria puramente interior. Há uma certa continuidade entre tal noção e o modo como o profeta Isaías e outros profetas descrevem a Presença Divina:

Isaías 33:14-16: Os pecadores em Sião se assombram, o tremor se apodera dos ímpios; e eles perguntam: Quem dentre nós habitará com o fogo devorador? Quem dentre nós habitará com chamas eternas? O que anda em justiça e fala o que é reto; o que despreza o ganho de opressão; o que, com um gesto de mãos, recusa aceitar suborno; o que tapa os ouvidos, para não ouvir falar de homicídios, e fecha os olhos, para não ver o mal, este habitará nas alturas; as fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio, o seu pão lhe será dado, as suas águas serão certas.

Ainda que o lugar dos justos seja o fogo devorador e as chamas eternas, o texto faz clara distinção entre os pecadores e os santos, e somente os santos habitam com o fogo devorador, mais ou menos na mesma linguagem dos Salmos 15 e 24. Mais fácil seria ver em Apocalipse 14:10 a condenação eterna “diante dos santos anjos e diante do Cordeiro”.

Embora o resultado seja o mesmo, a diferença entre essas duas posições parece ser principalmente o modo como a segunda tende a alegorizar o modo como a Escritura descreve o Inferno em alguns textos, pois nelas os condenados são lançados no Inferno por ordem divina e pelas mãos dos anjos:

Mateus 10:28: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno [geennē] tanto a alma como o corpo.

Mateus 13:41-42: Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes.

Mateus 25:41: Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.

É difícil ver nesses textos um Inferno fechado por dentro, resultante da decisão livre do pecador de permanecer eternamente longe de Deus. Estando preparado para o diabo e seus anjos, esse fogo eterno não poderia corresponder àquele que em Isaías 33 representa a Presença Divina. Essas descrições evangélicas do Inferno dão certo suporte à noção de “distância” em relação a Deus: chamam a condenação de “trevas exteriores” (Mt. 8:12; 22:13; 25:30), o que certamente indica uma distância em relação a Deus, mas isso não é o mesmo que dizer que o Inferno seja apenas essa distância. Se levarmos em conta que o “lançar fora” se dá sob o mando divino, e que nada pode lhe resistir, não há como separar tormento retributivo e separação eterna. A linguagem da separação eterna apenas afasta da consciência aquilo que sabemos estar lá: o fogo é um sinal da ira divina.

Deuteronômio 32:22: Porque um fogo se acendeu no meu furor e arderá até ao mais profundo do inferno [MT še’ôl; LXX hadou], consumirá a terra e suas messes e abrasará os fundamentos dos montes.

O contexto de Dt. 32 não é ‘escatológico’ no sentido mais usual da palavra, mas mais ou menos une as duas imagens de Hadēs e Geenna.

O que os usos nas Escrituras nos dizem sobre a natureza do Inferno? Penso que as “origens” de cada palavra nos dizem bastante. O Še’ôl é a “terra do esquecimento”, o Abismo da cosmologia semítica, uma região de trevas e de uma existência fragmentária, uma prisão sem retorno (cf. Sl. 88:10-12; Jó 10:20-22). Hadēs se origina na mitologia grega, também como um mundo inferior, oculto, onde os mortos habitam. Geenna, originalmente Ge’ Bęn-Hinnom ou Ge’ Bny-Hinnom (Vale do(s) Filho(s) de Hinom; cf. Jr. 7:31; 2Rs. 23:10), vale próximo a Jerusalém onde originalmente os israelitas idólatras sacrificam seus filhos no fogo, tornou-se depois o vale amaldiçoado de fogo perpétuo.

Isaías 66:24: Eles sairão e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne.

Além dessas imagens associadas a certos lugares específicos reais ou míticos, noutras o Inferno é descrito como fornalha, fogo eterno, trevas exteriores, choro e ranger de dentes, lago de fogo e enxofre, tormento, castigo eterno, perdição, destruição, segunda morte. É muito fácil construir uma imagem simplista da condenação ignorando todas essas figuras. Juntas elas mostram distanciamento e perecimento, mas também ação divina e continuidade. Embora seja difícil atribuir a todas elas literalidade gráfica — implicando talvez em contradição entre elas — todas elas expressam de maneira poderosa a realidade mais terrível de todas, jamais pensadas como desejadas por alguém. Mas talvez alguém haja amado mais as trevas do que a luz.

G. M. Brasilino

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8 comentários em “Sobre o Inferno

  1. Gyordano, um pregador me perguntou se eu achava que todos somos filhos de Deus, eu disse que sim, ele então citou 3 versículos um que dizia que somos feitos criaturas de Deus os outros que se fizermos a vontade de Deus somos filhos e quem não faz já está condenado. Mas todos as pessoas não são filhos de Deus?

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