C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron

C S Lewis

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.  Filipenses 4:8

A vontade de Deus é central para o modo como os cristãos encaram o sentido último de todas as coisas. Na Oração, o Filho de Deus ensinou os homens a pedir ao Pai Celeste dizendo que “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”, não muito diferente do que pediria no seu sofrimento: “não seja como eu quero, mas como tu queres”. Com isso não convencemos Deus a fazer Sua vontade, como se de outro modo Ele não a fizesse — Ele a fará —, mas apenas nos colocamos diante do mistério que ela encerra e a aceitamos com resignação e com fé, seja qual for. Pois, seja qual for, a vontade de Deus será sempre boa, ainda que vivenciá-la como boa exija a renovação da nossa própria mente.  A oração cristã, por si mesma, exige fé na bondade absoluta da vontade de Deus.

A vontade de Deus é boa —  o que isso quer dizer? Quer dizer, talvez, que Deus decide livremente o que é bom e o que é mau, de maneira que Sua própria escolha não está restrita por nenhuma “lei” antecedente, fazendo com que Sua vontade seja boa por definição (ou por imposição)? Ou, pelo contrário, a vontade de Deus é boa porque Ele sempre escolhe aquilo que é inerentemente bom, não podendo fazer algo diferente disso? Deus quer a bondade porque é boa, ou ela é boa porque Deus quer? O critério último é um comando divino ou uma bondade inerente às coisas e independente do comando?

Esse é o problema colocado por Sócrates para Eutífron, e ficou conhecido como ‘dilema’ porque, no cristianismo, pode parecer que ambas as alternativas são inaceitáveis. Pois se dissermos que o bom é bom simplesmente porque Deus o quer, porque assim Ele comanda, não resta diferença entre Deus e o demônio, senão o fato de que Deus é mais poderoso —  dizer que Deus é bom ou que Sua vontade é boa expressa apenas medo causado pelo tirano. Se dissermos, ao contrário, que a bondade das coisas não depende da vontade de Deus, então que relevância Sua vontade pode ter? Isso não significaria que há um poder acima da vontade de Deus, ao qual essa vontade deve se submeter? Parece mesmo que o dilema é: ou um tirano arbitrário, ou sem poder, uma dupla blasfêmia.

João Calvino, como é dedutível do restante de sua teologia, adotou uma versão da posição voluntarista, do comando divino: a vontade de Deus é a regra suprema de justiça. Ele escreveu nas Institutas (III, XXIII, 2):

“Pois a vontade de Deus é a tal ponto a suprema regra de justiça, que tudo quanto queira, uma vez que o queira, tem de ser justo. Quando, pois, se pergunta por que o Senhor agiu assim, há de responder-se: Porque o quis. Porque, se prossigas além, indagando por que ele o quis, buscas algo maior e mais elevado que a vontade de Deus, o que não se pode achar.”

O argumento é simples: não pode haver nada acima da vontade de Deus, logo também nada que a questione. O fato de sua vontade ser a regra suprema implica na justiça de tudo o que Ele faz.

Essa tese aparece quando Calvino explica o ponto mais difícil de sua teologia: a predestinação dos réprobos. O argumento é: se Deus assim quis, não há o que se questionar, pois Sua vontade é o critério último entre o bom e mau. O argumento é análogo às palavras de Ef. 1:11, que nos diz que a predestinação dos salvos segue o propósito de Deus, “que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”. Que em tudo a vontade de Deus prevalece, não há como duvidar. Mas é coisa inteiramente diferente dizer que a vontade de Deus não é guiada por nada.

C. S. Lewis tem uma posição bem diferente: o bem não depende da vontade de Deus. No espírito da racionalidade abraçada pelo anglicanismo — e não a vendo nela uma contestação das prerrogativas divinas —, ele prefere uma posição distinta daquela de Calvino e de diversos puritanos. Em O Problema do Sofrimento (p. 113), ele escreveu:

“Vez por outra, o ser humano já se perguntou se Deus ordena que façamos determinadas coisas porque elas estão certas ou se elas estão certas porque Deus ordena que as façamos. Juntando-me a Hooker e contrariando o doutor Johnson, acolho enfaticamente a primeira alternativa. A segunda poderia levar à abominável conclusão (a que chegou, suponho, Paley) de que a caridade só é boa porque Deus arbitrariamente a ordenou — de que Ele poderia igualmente ter ordenado que odiássemos a Ele e uns aos outros e de que o ódio então teria sido correto. (…) A vontade de Deus é determinada por Sua sabedoria, a qual sempre percebe, e por Sua bondade, que sempre acolhe, o intrinsecamente bom.”

A vontade de Deus é determinada por Sua sabedoria, o que significa dizer que essa vontade não é “suprema regra”. Essa resposta foge à crítica fácil de que, se a vontade de Deus não fosse livre, seria determinado por algo superior a ela, uma negação da soberania divina. Não há qualquer negação: a sabedoria de Deus é soberana. Sua vontade está atrelada à sua bondade inerente.

Isso não significa, é claro, que as coisas tenham algum tipo de bondade própria e inerente independentemente de Deus. Elas sequer podem existir ou ser imaginadas independentemente de Deus! E, de fato, só há um bom, que é Deus (Mc. 10:18). Antes, todas as coisas têm, em graus diferentes, uma bondade que recebem de Deus, uma bondade que Deus lhes comunica. Mas essa bondade é parte daquilo que as coisas são, na medida em que são, e daquilo que inteligimos nelas. A doutrina do comando divino é um relativismo de partida — nada tem bondade inerente — e um absolutismo de chegada, em nada distante do ritmo da modernidade.

Existe um sentido em que é verdade que a vontade de Deus é a suprema regra de justiça. Pois dada a doutrina da simplicidade divina, explícita nas confissões reformadas, Deus não tem partes, o que significa dizer que tudo aquilo que Lhe atribuímos usando muitas palavras — bondade, poder, sabedoria, vontade, amor e tantas outras — na realidade designa uma mesma realidade indivisa e indivisível: sua divindade. Desse modo, dizer que a vontade de Deus é a regra suprema de justiça significa nada mais que Deus é a regra suprema de justiça, o que é inteiramente verdadeiro e certamente inegável. Mas assim abandonamos o voluntarismo, o comando divino, e o dilema de Eutífron deixa de ter qualquer relevância. Os dois lados da pergunta são a mesma coisa, pois vontade e bondade são a mesma coisa.

G. M. Brasilino

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4 comentários em “C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron

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