Pecados mais graves

Ecce Homo (Jesus e Pilatos)

Quem desconhece o passado está fadado não apenas a repetir os erros antigos, mas também a ignorar a sabedoria antiga e cometer erros novos. Por algum motivo incrível que me escapa, tornou-se comum entre os evangélicos a crença de que todos os pecados são iguais, de que nenhum é mais grave que outro, como um tipo de mantra óbvio que dispensa qualquer justificativa — e normalmente não é acompanhado por nenhuma. Pois não se encontrará nenhum texto da Sagrada Escritura que nos diga que todos os pecados são iguais em gravidade.

Eu consigo até mesmo imaginar que motivo alguém teria para adotar uma tese assim. Atribuir o mesmo peso a todos os pecados seria uma forma de evitar tratá-los como banais, deixando claro que nenhum deles tem direito a fazer parte da nossa vida, e que todos eles prejudicam nossa comunhão com Deus. Seria uma forma fácil de dizer que todo pecado é sério. Verdadeira ou fingida, é uma preocupação legítima e um cuidado legítimo o de para não incentivar ‘pecados menores’ como se irrelevantes, não totalmente alheios ao espírito do Novo Testamento, no qual aprendemos que também adultera aquele que o faz apenas no coração (Mt. 5:28), e que também é homicida aquele que apenas odeia (1Jo. 3:15).

O que eu não entendo é como e quando isso acabou se tornando moeda comum entre evangélicos. Pois não encontramos na Escritura essa tese, mas o contrário dela, e isso deveria bastar para uma doutrina que se fundamente exclusivamente na revelação. Mas isso também não é parte da tradição protestante. É verdade que em geral os primeiros reformadores rejeitaram o uso escolástico da distinção entre pecados mortais e veniais em seu contexto dogmático (penitência, purgatório, perdão, etc.). Mas eles não pregavam que todo pecado é a mesma coisa ou tem a mesma gravidade. Lutero ensinou, pelo contrário, que o que torna um pecado mortal é considerá-lo venial, tratá-lo como bobagem, e vice versa — o que é bem diferente de dizer que todo pecado é a mesma coisa. De fato, o Catecismo Maior de Westminster, reformado, ensina claramente que os pecados têm gravidades diferentes (Q150), e quais critérios servem para medi-los (Q151): o ofensor, o ofendido, a natureza da ofensa e circunstâncias de tempo e lugar. Mesmo antes dele, os 39 Artigos já usavam o conceito de ‘pecado mortal’.

Tudo isso se fundamenta nas Escrituras, que não apenas nos advertem contra o “pecado para morte” (1Jo. 5:16) — conceito que por si mesmo já assume que nem todos os pecados são iguais (leia aqui) —, mas nos falam várias vezes sobre “grande/maior pecado” ouo “grande/maior iniqüidade”.

Êx. 32:30-31: E aconteceu que no dia seguinte Moisés disse ao povo: Vós cometestes grande pecado. Agora, porém, subirei ao Senhor; porventura farei propiciação por vosso pecado. Assim tornou-se Moisés ao Senhor, e disse: Ora, este povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro.

1Sm. 2:17: Era, pois, muito grande o pecado destes moços perante o Senhor, porquanto os homens desprezavam a oferta do Senhor.

2Rs. 17:21a: E Jeroboão apartou a Israel de seguir ao Senhor, e os fez cometer um grande pecado.

Sl. 25:11: Por amor do teu nome, Senhor, perdoa a minha iniqüidade, pois é grande.

Lm. 4:6: Porque maior é a iniqüidade da filha do meu povo do que o pecado de Sodoma, a qual foi subvertida como num momento, sem que mãos lhe tocassem.

Jo. 19:11: Respondeu Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem.

A diferença de gravidade dos pecados é exigida tanto pela proporcionalidade da razão e da justiça quanto pela Lei divina revelada. Pois de fato Jesus nos ensina que há mandamentos (Marcos 12:29-31) e princípios (Mateus 23:23) mais importantes que outros na Lei, e se há mandamentos e princípios mais importantes, as violações desses mandamentos e princípios são mais sérias do que outras, havendo condições iguais. É presunçoso pensar que um pecado contra Deus tem o mesmo peso de um pecado contra mim. Diferentes ofensas implicam em diferentes gravames contra a nossa comunhão com Deus.

Embora fale de grandes pecados, a Escritura não perde tempo em tratar de “pequenos” pecados, pois todos eles devem ser abandonados. Não importa se alguém cometeu pecados pequenos ou grandes, quem vive pela carne herdará a condenação, e quem vive pelo Espírito receberá a vida eterna (Rm. 8:13; Gl. 6:8). Grandes ou pequenos, todo pecado é uma violação dos mandamentos de Deus, e quem viola um só mandamento torna-se culpado de todos (Tg. 2:10).

G. M. Brasilino

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16 comentários em “Pecados mais graves

  1. Gyordano, mulher pode ser pastora? E o caso do véu é vaLido usar? Poderia me esclarecer pela graça que deus tem te dado por favor

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    1. Deus concede a certas mulheres dons específicos como o de aconselhar, ensinar, pregar, servir, que estão ligados ao ofício pastoral. Mas saber se uma mulher pode ser ordenada é uma questão que está além da minha capacidade.

      Nada proíbe o uso do véu.

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  2. Pôxa, Deus é contigo Gyordano, suas respostas são claras e sem enrolação como é costume de muitos que só causa mais perguntas. O que você acha ou o que diz a bíblia quando as pessoas não tem respostas as questões ou quando tem respostas que não convence e aí dizem isso não interfere em nada na salvação. Todas dúvidas não interferem na salvação? Não sei se me entendeu

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  3. Gyordano, sempre na igreja quando tem alguma polêmica em textos bíblicos é costume falarem que não interfere na salvação. Exemplo se a igreja vai pesar ou não pela tribulação, se uns acham que sim é outros que não tudo bem isso não interfere na salvação, o importante é que a pessoa é salva. Mas isso quase que em tudo que se fala na bíblia que causa polêmica se diz isso. Entendeu?

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  4. Gyordano como posso saber qual são esses erros graves(heresias) que dizem não interferir na salvação. Você poderia dar alguns exemplos que interferem na salvação?

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    1. Toda a doutrina cristã está contida naquilo que os apóstolos ensinaram (Gl. 1:8). Afastar-se desse ensino é cair em heresia, e os hereges não herdarão o reino de Deus. Somente erros menores (não heresias!) “não interferem” na salvação.

      Um exemplo de heresia é negar a encarnação de Cristo:

      “E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo.” (1 João 4:3)

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  5. Entendi mas ainda estou com duvida, digo em relação da doutrina qual chega ser herética, guardar o sábado não sendo judeu? Dizimar? Pregar que a igreja vai ou não passar a tributação? Porque nas igrejas acho ser impossível alguém dizer que Jesus não veio em carne.

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    1. Você acha impossível alguém dizer que Jesus não veio em carne. Mas na prática as pessoas negam isso, sim. Se alguém nega que Jesus era um ser humano completo, com tudo o que é humano (exceto o pecado, que não é parte da natureza humana original), nega que Jesus veio em carne. Se alguém nega que Jesus tinha uma alma humana, nega que Jesus veio em carne. Se alguém nega que Jesus é filho de Maria, nega que Jesus veio em carne. Talvez ninguém negue a encarnação explicitamente, mas alguém pode negar indiretamente.

      Existem outras heresias condenadas na Bíblia, além dessa. Por exemplo, justificar pelas obras da Lei (Gl. 5:4).

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  6. Gyordano verdade tem doido pra tudo. Eu li quase todos os seus textos mesmo muitos sem entender muita coisa e surgem mais dúvidas porque na igreja onde participo e até de outras formas não esclarecem de forma clara com seus textos. O problema é que cada texto seu tenho mais duvidas pra te perguntar. Deus criou o mal

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  7. No culto o preleitor disse que Deus criou o mal mostrou o versículo de Isaias mas disse que não é o mal que conhecemos. Não entendi isso, mas o versículo diz que Deus criou o mal

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    1. O texto é Isaías 45:7, que diz:

      “Eu formo a luz e crio as trevas;
      faço a paz e crio o mal;
      eu, o SENHOR, faço todas estas coisas.”

      Outro texto importante é Amós 3:6:

      “Tocar-se-á a trombeta na cidade, sem que o povo se estremeça?
      Sucederá algum mal à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito?”

      Para compreender o texto, é preciso ter em mente que a palavra “mal” tem vários sentidos. Uma coisa é a maldade (o mal do pecado), outra coisa é um mal que nos acontece (o mal do castigo).

      Deus não quer que o ímpio cometa a maldade (Ez. 18:23), e dele não procede a concupiscência, o desejo do pecado (1Jo. 2:16). “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim, o teu socorro.” (Os. 13:9). Portanto, o mal do pecado não foi criador por Deus. Esse mal não é uma criatura, mas um defeito das criaturas.

      O outro mal, o mal do castigo, é uma resposta de Deus ao pecado do homem. Esse mal é criado por Deus. A palavra hebraica para “mal” em Isaías 45:7 é usada constantemente na Bíblia para se referir ao castigo trazido por Deus em razão do pecado humano.

      “E dirão: Porque deixaram ao Senhor seu Deus, que tirou da terra do Egito a seus pais, e se apegaram a deuses alheios, e se encurvaram perante eles, e os serviram; por isso trouxe o Senhor sobre eles todo este mal.” (1 Reis 9:9)

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