33 Teses contra a Substituição Penal

Cristo Crucificado

No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! João 1:29

Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. Gálatas 6:14

A teoria da Substituição Penal ensina que o propósito da morte de Cristo foi o de ser a punição pelos pecados da humanidade ou dos eleitos, uma vez que, supostamente, a justiça de Deus exige que alguém seja punido para que haja perdão. Como fazem crer seus defensores, o Evangelho seria essencialmente a Justificação pela Fé através da Imputação da Justiça de Cristo para o cristão (isto é, aquele que tem fé) e a Imputação da culpa pelos pecados do cristão para Cristo, resultando na Punição Substitutiva de Cristo. A teoria diz respeito a essa transação “forense”. Às vezes, certas versões dessa teoria enfatizam a ira de Deus, que deve “cair” sobre alguém quando há pecado.

Essa teoria é uma caricatura dos modos nos quais a Sagrada Escritura representa a redenção humana através do sangue e morte do Filho de Deus, bem como de sua ressurreição. Ela é aqui chamada de teoria porque é apenas uma das formas — não necessariamente rivais — usadas pelos teólogos ao longo dos séculos para descrever a obra redentora realizada por Deus em Cristo.

Estas teses não resumem tudo o que se pode dizer contra ou acerca da Substituição Penal, mas tocam naquilo que considero o mais importante do debate em torno das teorias da expiação. Por amor à brevidade, estas teses não discutem em minúcias a distinção entre propiciação e expiação, ou entre a versão original (calvinista) e a versão arminiana da teoria. Essas distinções são importantes para o debate da Substituição Penal, mas penso que não afetam a essência das teses.

Essas teses criticam a Substituição Penal em diversos pontos, mas não explicam a expiação de maneira abrangente. Recomendo a leitura do texto sobre Rm. 4:25 neste blog (leia aqui), o qual apresenta os rudimentos de uma concepção positiva.

33 TESES

1. A expiação é retratada com diversas linguagens nas Escrituras, e pode-se argumentar em favor tanto de um modelo substitutivo quanto de um modelo penal, mas a Escritura nunca une essas duas linguagens em um só modelo.

2. A Substituição Penal não é o Evangelho, pois não se encontra em nenhum lugar dos quatro Evangelhos.

3. A premissa fundamental da Substituição Penal é a noção de que a justiça de Deus exige absolutamente a punição do pecador, impedindo qualquer tipo de misericórdia gratuita (alguém tem de pagar), fazendo Deus parecer essencialmente um legalista supremo.

4. A Escritura não declara que a ira de Deus caiu sobre Cristo. Ele nos livra, mas não se tornando alvo da ira de Deus em nosso lugar.

5. A salvação e o perdão não dependem de fazer com que essa ira caia sobre um inocente, pois Deus abomina a morte do inocente, e sua justiça exige que cada um morra por seu próprio pecado. Não obstante, Cristo era um inocente e sofreu por nós, para a nossa salvação.

6. Pelo contrário, Cristo nos livra dessa ira sendo alvo do amor do Pai e absorvendo-nos nesse amor.

7. O conceito de “satisfação da ira de Deus” não é bíblico, portanto nunca é empregado com respeito à salvação.

8. Onde há satisfação da ira, não há propiciação. Onde há propiciação, não há ira. Fazer depender a propiciação de uma satisfação da ira é negar a propiciação.

9. Aliás, a Sagrada Escritura jamais trata a propiciação em Cristo como propiciação de Deus ou propiciação da ira de Deus, mas apenas como propiciação pelos pecados (Hb. 2:17; 1Jo. 2:2; 4:10). Também por isso, há mais razão para traduzir como “expiação” e “expiar”, em vez de “propiciação” e “propiciar”.

10. A Escritura não declara que os pecados foram imputados ou atributos a Cristo.

11. A Escritura não declara que Cristo foi condenado ou punido pelos pecados, mas sim que foi “moído” pelos pecados e que, nele, o pecado na carne foi condenado.

12. Cristo foi de fato condenado e punido, mas não por Deus: foi punido injustamente pelos oficiais romanos sob incitação das autoridades religiosas de Jerusalém. A aceitação dessa condenação injusta é parte central do plano divino para a redenção humana.

13. A Escritura não declara que Cristo morreu em vez ou no lugar dos pecadores, mas sim que morreu para que possamos morrer através dele — não em nosso lugar, mas conosco.

14. O sacrifício de Jesus não é compreensível sem a doutrina da união mística (soteriológica, sacramental, eclesiológica), através da qual há um compartilhamento espiritual (comunhão) entre Cristo e o cristão. As melhores versões da Substituição Penal reconhecem esse fato.

15. A Escritura não declara que os crentes estão “automaticamente perdoados”, o que seria mais natural se a teoria da Substituição Penal fosse verdadeira. Suplicamos pelo perdão dos pecados um a um, seguindo a instrução da Sagrada Escritura; nosso perdão resulta do sacrifício de Cristo, mas ainda assim precisamos ser perdoados.

16. Somente alguns sacrifícios da Lei de Moisés têm caráter expiatório.

17. Nenhum sacrifício da Lei de Moisés tem caráter penal.

18. O propósito dos sacrifícios de natureza expiatória é pureza espiritual. Neles existe transferência do pecado, mas o propósito da morte do animal (quando o sacrifício é um animal) não é puni-lo pelo pecado, mas simplesmente levar o pecado embora com sua morte ou com seu banimento. Trata-se de uma transferência ritual, não punitiva.

19. Nos sacrifícios, o valor do sangue não estava relacionado à morte do animal. A morte fatalmente ocorria, já que o animal não sobrevive se seu sangue é retirado. Mas a vida, e não a morte, é oferecida através do sangue.

20. Os sacrifícios da Lei de Moisés incluem a possibilidade de fazer expiação com farinha, que não pode ser punida por nada, assim como incluem expiação por lugares, que não cometem pecados.

21. Tentativas de mostrar a teoria da Substituição Penal na Escritura são culpadas de petição de princípio.

22. A teoria da Substituição Penal ignora a assimetria entre as penas. De um lado, nossa pena eterna no inferno; de outro lado, o sofrimento de Cristo na cruz.

23. Diante da assimetria entre a pena eterna do pecador e o sofrimento de Cristo, o defensor da Substituição Penal necessariamente recorrerá a uma alternativa que explícita ou veladamente nega alguns dos princípios da própria Substituição Penal: a aniquilação ou alguma teoria de “equiparação”.

24. A aniquilação não resolve o problema da assimetria, pois Cristo não foi aniquilado, assim como não recebeu o castigo eterno pelos pecados.

25. A teoria da equiparação — Cristo não recebeu exatamente a punição devida pelo pecado, mas recebeu algo “equivalente”, pois a morte de Cristo tem valor infinito, suficiente para todos os pecadores — resolve o problema da assimetria, mas resolve porque transforma a teoria em outra coisa, pois admite que Cristo não recebeu exatamente aquilo que era devido ao pecador, implicando em dizer que a justiça de Deus admite o perdão sem que a reparação seja idêntica à punição.

26. Essa teoria da equiparação é essencialmente um abandono da Substituição Penal (pena por pena) e um retorno à teoria anterior da satisfação, de Anselmo de Cantuária (reparação por pena, aut poena aut satisfactio). Trata-se de uma expiação substitutiva, mas não penal em sentido estrito.

27. A teoria da Substituição Penal não explica por que Jesus morreu do modo como morreu. Se tomarmos em consideração essa teoria, ele poderia ter morrido de qualquer outro modo.

28. Sem nenhuma razão, na Substituição Penal, o “tribunal” de Pôncio Pilatos torna-se o tribunal de Deus, no qual o pecador é condenado na pessoa sem pecado de Jesus de Nazaré. Sem recurso a certas ficções, a Substituição Penal não explica por que a morte de Jesus, do modo como ocorreu, não foi simplesmente uma injustiça humana cometida contra o Filho encarnado, isto é, não explica, nos eventos como nos narram os evangelhos, o que faz com que aquele acontecimento específico se torne uma “expiação” pelos pecados, ao invés de apenas mais um pecado.

29. A teoria da Substituição Penal supõe (sem garantia na Escritura) que Deus não poderia perdoar sem punir, desligando o perdão divino do perdão que o cristão deve mostrar pelos que pecam contra ele (o perdão contra os seus devedores, que com justiça lhe devem), que deveria ser divino.

30. A teoria da Substituição Penal, se forçada em Isaías 53, dá razão à doutrina neopentecostal e herética de que, assim como temos direito ao perdão dos nossos pecados, temos direito à cura de todas as nossas doenças.

31. Quando a Escritura ensina que Jesus morreu “por nós”, isso significa “em nosso favor”, não “em nosso lugar”.

32. A Substituição Penal torna a Ressurreição e a Ascensão inúteis para a essência (“mecânica”) da expiação.

33. A Substituição Penal cria dois padrões de perdão — o modo como Deus exige que perdoemos (livremente) e o modo como o próprio Deus perdoa (severamente) —, de maneira que o padrão divino deixa de ser um exemplo.

G. M. Brasilino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s