O platonismo do Novo Testamento

Platão

Desde Harnack, uma tese tem sido bastante comum entre teólogos protestantes, conscientemente ou não. Trata-se da noção de que a teologia cristã se desenvolveu por helenização do pensamento hebreu de Jesus e dos apóstolos, e de que isso seria um crime contra as origens. Essa concepção de Harnack expressa um tipo de narrativa puritana preocupada com a “origem imaculada” e a posterior “degeneração” da fé cristã, uma visão trágica do desenvolvimento histórico do Cristianismo inteiramente diferente daquela que Jesus pensou na Parábola do Grão de Mostarda. A helenização às vezes recebe o nome de (neo)platonismo, o grande vilão.

A acusação principal é de impor à doutrina de Jesus uma visão de mundo dualista, uma separação radical entre o corpo mau e o espírito bom, a semente do gnosticismo, radicalmente diferente da concepção hebréia do mundo como criação inteiramente boa de Deus. É verdade que essa semente está em Platão, embora não se origine nele. Mas também é verdade que a semente do platonismo aparece já no Novo Testamento, tomando uma direção que é suficientemente diferente da pregação gnóstica para preservar a fé na Criação e na Ressurreição da Carne, mas também próxima o suficiente para ser manipulada pelos gnósticos. Como não seria de surpreender, ela aparece com grande força no grande missionário do Novo Testamento, o apóstolo Paulo. Mas que doutrina seria essa?

O diálogo Fédon treata do fim da vida de Sócrates, aprisionado e prestes a morrer. Diante das preocupações dos seus discípulos, Sócrates expressa sua convicção na imortalidade da alma. Enquanto o corpo é visível, tangível e mortal, a alma é invisível, intangível e imortal. Uma vez que a verdade é invisível, intangível e imortal, somente a alma pode chegar à verdade, enquanto o corpo é um obstáculo. Nesse ponto se mostra a peripécia intelectual do diálogo: Sócrates está preso, mas sua morte será sua libertação, pois a verdadeira prisão é a do corpo: “E enquanto vivemos, penso que estaremos mais próximos do conhecimento apenas quando evitarmos, o quanto pudermos, a familiaridade com o corpo e a comunhão com ele, exceto no que for absolutamente necessário, e não nos levarmos por sua natureza, mantendo-nos puros até que Deus nos liberte.” (Fédon 67a), sendo a libertação final o destino dos iniciados e filósofos.

Essa associação negativa com o corpo não é original de Platão, pois este atesta conscientemente esse relacionamento — sōma sēma ,“o corpo é uma sepultura” — nos mistérios órficos (Crátilo 400c). Mas ele lhe confere um sentido filosófico. Para Platão, enquanto estamos no corpo, contemplamos a verdade como que através das grades de uma prisão (Fédon 82e). O filósofo é capaz de elevar-se à contemplação das coisas superiores, elevando sua alma até a região inteligível (República 517b).

Algo muito próximo dessas duas doutrinas platônicas aparece nos Escritos Sagrados. Muito se pode dizer dos escritos joaninos. As cartas paulinas nos dizem:

Rm. 7:5: Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte.

2Co. 4:16-5:8: Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas. Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E, por isso, neste tabernáculo, gememos, aspirando por sermos revestidos da nossa habitação celestial; se, todavia, formos encontrados vestidos e não nus. Pois, na verdade, os que estamos neste tabernáculo gememos angustiados, não por querermos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, foi o próprio Deus quem nos preparou para isto, outorgando-nos o penhor do Espírito. Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor; visto que andamos por fé e não pelo que vemos. Entretanto, estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor.

Cl. 3:1-3: Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.

Se esses textos paulinos certamente não representam um tipo de rejeição ao corpo e à matéria, eles sem dúvida expressam uma cosmologia hierarquizada, que nada mais é do que a antiga cosmologia do Oriente Médio posta em linguagem grega. Se não há um ódio ao corpo, há certamente um desejo de que o corpo seja revestido, revitalizado, redimido, porque está, como em Platão, sujeito à morte e ao perecimento (Rm. 7:24; 8:23). Pois “convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade” (1Co. 15:53). Não existe, nas Escrituras, a noção de que o corpo é uma prisão da alma, mas não deixa de dar razão existencial à preocupação platônica e gnóstica com as limitações do corpo. Errada está apenas a origem dessa limitação, como o seu fim.

É verdade que por vezes os cristãos foram além dos limites de sua própria doutrina e se fizeram verdadeiros órficos, platônicos, gnósticos, ao menos na linguagem. Desde o Apologeticum de Tertuliano (17, 4) até a Imitação de Cristo de Tomás de Kempis (IV, 11, 4), os cristãos aprenderam a falar do corpo como uma prisão: in carcere corporis hujus detentus. Mas Tertuliano foi um grande defensor da resurrectio carnis, e Tomás o faz precisamente quando fala do Altar e da Eucaristia, o horror dos gnósticos. São excessos que só comete quem está tentando manter um equilíbrio muito difícil.

Essa helenização é fato, ela aconteceu, mas ela não começou com os pais da Igreja. Começou com os próprios apóstolos de Jesus — as únicas testemunhas do ensino original do nazareno —, e não é difícil notar seus traços maiores quando lemos o próprio Novo Testamento. Mas não há crime algum. O platonismo, com todos os defeitos, foi a linguagem intelectual que os primeiros cristãos se utilizaram quando penetraram no mundo pagão helênico, e precisavam falar essa linguagem se quisessem ser entendidos. A teologia cristã resultou de uma helenização necessária e benéfica, porque sem os instrumentos do dogma a mensagem original estava ameaçada. É impossível que uma mensagem, a mensagem cristã, penetre uma cultura sem se se aculturar, assim como é impossível que, nesse processo, a própria mensagem acabe carregando consigo tudo aquilo que encontra de verdadeiro, bom e belo no percurso. Toda verdade é verdade de Deus.

G. M. Brasilino

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