A União Mística em Cristo

Cristo

Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele. I Coríntios 6:17

O Cristianismo é uma religião mística. Enquanto outras religiões têm maior ou menor preocupação com a presença divina aqui e agora, relegada à elite espiritual, à casta dos perfeitos, a mística, a comunhão na vida divina, é o centro do Cristianismo. Mesmo que nem sempre isso não envolva o que possa ser facilmente reconhecido como experiência mística — êxtases, raptos, visões, revelações —, o trilho é aberto a todos os cristãos e exigido de todos eles.  Quem não come a carne e não bebe o sangue não tem a vida. Quem não tem o Espírito de Cristo não lhe pertence.

É essa presença contínua de Deus que nos torna comungantes da natureza divina, theias koinōnoi physeōs (2Pe. 1:4). Essa conjunção espiritual, essa habitação interior do Eterno, mais íntima do que qualquer outra que possamos experimentar, conquanto não abole nossa própria humanidade, a inunda de sua luminosidade e poder, e, como o ferro encandeado pelo fogo, move-nos acima e além da transitoriedade e fragilidade da ‘carne’. Pois, nas palavras de Atanásio, Deus se fez homem para que fôssemos deificados. Sua pobreza é nossa riqueza, e assim nos unimos “misticamente mas verdadeiramente, invisivelmente mas realmente” (Hooker).

Mas a comunhão divina que o Cristianismo propõe e que a Igreja vive é uma comunhão em Cristocom Cristo, cristocêntrica. Como tal, ela não é apenas glória, mas também cruz, inevitavelmente cruz. Antes de comungantes da glória, somos comungantes da cruz, participantes das aflições e sofrimentos do Deus encarnado (II Co. 1:7; Fp. 3:10; I Pe. 4:13). A cruz de Cristo significa nossa crucificação para todo o mundo, matando em nós mesmos o que precisa morrer, tudo o que nos prende à parte mais vulgar de nossa existência (Gl. 6:14). A vida que Cristo vive em nós, e que de fato encerra nossa própria vida, é a vida do Crucificado, que torna o nosso corpo sagrado e que nos leva mesma a carregar na carne as chagas do Senhor. Ser batizado em Cristo é ser batizado na sua morte (Rm. 6:3).

Nossa união com Cristo é a base de nossa própria salvação, na medida em que nela a pessoa do Redentor se torna parte de nossa própria identidade, ou, melhor dito, nós nos recebemos nele nossa verdadeira identidade. Como esposa miserável é enriquecida pela união com o marido rico, nós recebemos a riqueza espiritual de Cristo unidos a ele, ensinou-nos Lutero. É em Cristo que somos justificados, de modo que não há condenação para os que estão em Cristo (Gl. 2:17; Rm. 8:1). Nossa união é um córrego pelo qual a corrente viva de Cristo desagua em nós. Calvino vai direto ao ponto:

Inst. III, 1,1: E, primeiramente, deve ter-se em conta que, por quanto tempo Cristo estiver fora de nós e dele estivermos separados, tudo quanto ele sofreu e fez para a salvação do gênero humano nos é improfícuo e de nenhuma relevância. Portanto, para que compartilhe conosco aquilo que recebeu do Pai, ele precisa tornar-se nosso e habitar em nós.

Inst. III, 11, 10. Portanto, essa conjunção da Cabeça e dos membros, essa morada de Cristo em nosso coração, enfim, essa união mística de Cristo conosco é por nós estatuída como da mais alta importância, de modo que, feito nosso, Cristo nos faça participantes dos dons de que foi dotado.

Tal é nossa união mística em Cristo, nossa união espiritual: sermos um só espírito com ele, assim como seu corpo, e não apenas membros do Senhor, mas membros uns dos outros (Rm. 12:5). Essa união nos coloca em comunhão com todos aqueles que também estão nele. Aqui os apóstolos e discípulos do Senhor — Paulo, Pedro, João — nos levam muito além do que qualquer dos profetas antigos podeira pensar em dizer. O Antigo Testamento conhece a vida comunitária e a unidade (cf. Es. 3:1), mas a união mística é um de uma profundidade incomparável. De fato, a comunhão com Cristo se sobrepõe a qualquer laço anterior, desligando-nos dos rudimentos do mundo, apo tōn stoicheiōn tou kosmou (Cl. 2:20), fazendo-nos nova criação (II Co. 5:17) e concedendo-nos a plenitude (Cl. 2:9-10).

Como na tradição joanina, na teologia paulina essa unidade espiritual é eminentemente sacramental, no “pão místico” de que nos fala Calvino: somos um só corpo porque participamos em Cristo do mesmo pão, do mesmo cálice de bênção (1Co. 10:16-17), e nele temos acesso aos mistérios do Lugar do Santíssimo, tendo sido lavados os nossos corpos na água pura em que nus unimos à morte do Senhor (Hb. 10:19-22). Essa união se transpõe vivamente, se encarna, no perdão contínuo, no carregar dos fardos, no lavar das feridas dos pés sujos cujas alparcas freqüentemente não somos dignos de desatar. Eis a cruz, incompreensível para os poderosos deste mundo.

G. M. Brasilino

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