Justiça e Misericórdia

juízo final trono vazio
A ti também, Senhor, pertence a misericórdia;
pois retribuirás a cada um segundo a sua obra.
Salmos 62:12

Deus é absolutamente simples, sem corpo, partes ou paixões. A essência divina é o que é, nada podendo se lhe acrescentar ou subtrair. Deus nada recebe de suas próprias criaturas; antes, ele mesmo é o Princípio Absoluto de tudo o que há e é — não um ser entre outros, mas o Ser em si mesmo, e, portanto, absolutamente imutável. Enquanto nós, seres humanos, juntamente com todas as criaturas, somos compostos, uma mistura em contínuo fluxo, em integração e desintegração, em presença e ausência, em necessidade e contingência, em ato e potência, Deus é absolutamente puro, absolutamente intocável na Luz Inacessível. Enquanto nós somos nós mesmos e nossas circunstâncias, em Deus não há circunstância: Deus é o que é.

Essa simplicidade absoluta é incompreensível para as criaturas, pois nossa apreensão do real sempre é marcada pela multiplicidade. Se é verdade que a ordem das criaturas, a hierarquia das essências, nos permite ascender das formas mais miseráveis e, como numa assíntota, de relance e sob o influxo da graça, por entre as rochas e no Monte de Deus, avistar de longe o Fundamento Inabarcável de tudo o que é, é igualmente verdade que esse conhecimento só revela uma ignorância incalculável e transfinita acerca do escapa às garras do conceito, o Deus que se oculta. Cabe às inteligências inferiores — nós — a honra de ver Deus nas suas ações, como por um prisma, transpondo-se a Luz Eterna numa multiplicidade de atributos e atribuições.

Mas se os atributos divinos são sempre verbalizações parciais da uma mesma essência, da mesma natureza divina, e se Deus não tem partes, a linguagem se vê diante do maior dos seus constrangimentos diante do Limite Último. Conquanto dizem a Verdade, eles não nos mostram além do véu do Lugar Santíssimo, o qual nos vemos obrigados a cruzar em silêncio. O Senhor está no seu santo templo; cale-se diante d’Ele toda a terra.

Assim, sempre que tentamos pensar em Deus a partir de seus atributos, somos obrigados a usar uma linguagem que é inevitavelmente analógica. Alimentados pela Revelação, dizemos de Deus algo de verdadeiro, mas a linguagem que colocamos é sempre conformada ao nosso próprio mundo, mesmo que não escrava dele. A Revelação é, ela mesma, um modo de Encarnação, que não elimina o divino, mas que nos permite fazer sangrar o humano ao qual se une. Nosso falar acerca de Deus exige, portanto, um contínuo retorno à Fonte, à Luz Original, dada por Deus aos homens através dos Oráculos hebreus e do Santo Evangelho.

O problema toma vulto quando os atributos divinos parecem se anular. É o caso da Providência, Bondade e Poder divinos no Problema do Mal. Mas outro caso me interessa: a Justiça e a Misericórdia. Parece-nos que a Misericórdia é como que uma eliminação da Justiça, agindo enquanto a Justiça descansa. De fato é assim que agimos como seres humanos, às vezes justos, dando a cada um conforme os seus méritos, às vezes misericordiosos, dando mais do que podem merecer.

Mas se Deus é absolutamente simples, todos os seus atributos são um mesmo atributo, sua natureza divina, e, por isso mesmo, não podem se contradizer. Afinal, Deus é o Sentido Último, o Ômega, a Esperança, a única coisa que nos garante haver uma ordem em e sob todas as coisas. Tal ordem última no real não tolera a mínima contradição entre os atributos divinos. Qualquer tensão está do lado de cá do prisma, onde as cores se separam, não na própria Luz. Eliminada a simplicidade divina do nosso pensamento, todos os atributos são levados à contradição.

Assim, não pode haver contradição entre a Justiça e a Misericórdia de Deus, pois é sempre o mesmo Deus em ação, sempre justo e misericordioso, sempre a fonte mesma da justiça e da misericórdia. Mas como não ver ma contradição entre justiça e misericórdia, falando de Deus ou a suas criaturas? Pois se definimos a justiça como a retribuição conforme o mérito ou demérito, e a misericórdia como a não retribuição do demérito, como não ver nelas uma grande contradição? Penso que aqui reside o mérito da teoria da Substituição Penal, procurando ver uma harmonia fundamental entre a justiça e a misericórdia — entre o desejo inevitável de punir (a “ira justa”) e o plano de perdoar —, ainda que de maneira inteiramente errada.

As Sagradas Escrituras nos dão uma linguagem bastante diferente. Naturalmente associamos “retribuir a cada um segundo a sua obra” (Sl. 62:12) à justiça, mas então somos surpreendidos pelo Salmo, que lhe dá o nome de misericórdia ou bondade (ḥesed). Dentre os preceitos do direito romano, sobre os quais se erigiu nossa cultura ocidental, está o de dar a cada um o que lhe é devido, suum cuique tribuere. Mas a justiça divina opera diferentemente. A justiça e a misericórdia de Deus são uma só coisa, porque Deus é um só. Deus é sempre misericordioso quando é justo, sempre justo quando é misericordioso. Deus resiste a qualquer corte; a lança que fere o lado do Deus Homem não fere o Verbo Divino.

A justiça de Deus é sempre seu misericordioso resgate dos necessitados. A justiça de Deus é sua bondade salvífica, compassiva. A justiça é o oposto da iniquidade (Ec. 3:16). Isso se observa nos textos abaixo, que apresentam tanto a justiça de Deus quanto a justiça que Deus exige do homem:

Sl. 82:3 – Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai o aflito e o necessitado.

Sl. 103:6 – O Senhor faz justiça e juízo a todos os oprimidos.

Sl. 146:7 – O que faz justiça aos oprimidos, o que dá pão aos famintos. O Senhor solta os encarcerados.

Pv. 31:9 – Abre a tua boca; julga retamente; e faze justiça aos pobres e aos necessitados.

Is. 1:17,23 – Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva.

Jr. 22:3 – Assim diz o Senhor: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o espoliado da mão do opressor; e não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar.

Dn. 4:27 – Portanto, ó rei, aceita o meu conselho, e põe fim aos teus pecados, praticando a justiça, e às tuas iniqüidades, usando de misericórdia com os pobres, pois, talvez se prolongue a tua tranqüilidade.

Freqüentemente, a justiça de Deus e sua salvação ou misericórdia são postas  em paralelismo:

Sl. 98:2 – O Senhor fez notória a sua salvação, manifestou a sua justiça perante os olhos dos gentios.

Sl. 103:17 – Mas a misericórdia do Senhor é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos;

Sl. 119:123 – Os meus olhos desfaleceram pela tua salvação e pela promessa da tua justiça.

Sl. 145:7 – Proferirão abundantemente a memória da tua grande bondade, e cantarão a tua justiça.

Pv. 21:21  O que segue a justiça e a beneficência achará a vida, a justiça e a honra.

Is. 51:5,8 – Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação, e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão, e no meu braço esperarão. Porque a traça os roerá como a roupa, e o bicho os comerá como a lã; mas a minha justiça durará para sempre, e a minha salvação de geração em geração.

Is. 56:1 – Assim diz o Senhor: Guardai o juízo, e fazei justiça, porque a minha salvação está prestes a vir, e a minha justiça, para se manifestar.

Is. 58:8 – Então romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda.

Os. 2:19 – E desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias.

Os. 10:12 – Semeai para vós em justiça, ceifai segundo a misericórdia; lavrai o campo de lavoura; porque é tempo de buscar ao Senhor, até que venha e chova a justiça sobre vós.

A punição é um instrumento da justiça de Deus, não o seu fim; a justiça de Deus administra tanto bondade e perdão quanto punição e castigo (“juízo”). Se é verdade que a misericórdia triunfa do juízo (Tg. 2:13), é verdade que tanto a misericórdia quanto o juízo fazem parte da justiça e da lei divinas, como diferentes luzes da mesma luz, diferentes dispensações de uma mesma Providência. Assim, não é difícil ver por que a bondade para com os pobres e pequenos é chamada “justiça” nas Escrituras. O que está em vista não é um tribunal em que somos acusados e obrigados a nos defender diante da Lei abstrata; é o tribunal em que o miserável e o malfeitor são colocados sob a mesma justiça, e Deus pronuncia misericórdia sobre um e juízo sobre o outro. Por isso também os misericordiosos alcançam misericórdia, porque a misericórdia é justa (Mt. 5:7; Tg. 2:13).

Evidentemente o pecado necessita de uma punição. Não punir é permitir toda a maldade humana. Mas a contradição entre justiça (“punir conforme a lei”) e misericórdia (“não punir conforme a lei”) não aparece nas Escrituras, exatamente porque não há essa tal lei que obrigue Deus a punir; sua justiça pode ser plenamente satisfeita sem a punição estrita. Como escreve o profeta: “Assim falou o Senhor dos Exércitos, dizendo: Executai juízo verdadeiro, mostrai piedade e misericórdia cada um para com seu irmão.” (Zc. 7:9). Por isso mesmo o perdão está diretamente ligado ao juízo e à justiça, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo (cf. II Cr. 6:39; 1 Jo. 1:9)

Deus é amor, um amor eterno que não depende da criação e redenção, antes as provoca. O amor de Deus por nós não é causado pelo sacrifício de Cristo, que é temporal; antes o sacrifício temporal é causado pelo amor eterno (Rm. 5:8; Gl. 2:20; Ef. 5:2,25; I Jo. 4:10). Esse amor não contradiz a punição e a ira, pois todo amor implica necessariamente em um ódio ao seu contrário. Quem ama as crianças odeia a violência contra elas, assim como quem ama a santidade detesta ao pecado. A recíproca não é necessariamente verdadeira, pois há ódios sem um amor correspondente. Mas não em Deus. Nesse sentido, a ira de Deus contra o pecador é justa e boa. Diz o profeta: “Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra ele” (Mq. 7:9).

O Salmo 62 nos diz mais sobre a justiça divina: “todos os ímpios serão destruídos” (v. 20). São palavras duras, mas é uma grande notícia em um mundo bárbaro e violento. Significa o fim do império do engano e da maldade. Significa que está quebrado o cetro do opressor. Significa que Deus trará ordem ao mundo. Trará justiça ao mundo. Essa é a justiça de Deus. A justiça de Deus é bela e fonte de esperança. É nesse sentido que o apóstolo Paulo trata da “vossa justiça” (II Co. 9:6-10), referindo-se à caridade dos coríntios para com os irmãos pobres em Jerusalém, fazendo uso do sentido semítico da palavra “justiça” no Sl. 112:9. Esse sentido está também em Mt. 5:20; 6:1. Deus é justo, e deseja que sua justiça preencha sua criação.

Existe tanto justiça quanto misericórdia no fato de que Deus trata pessoas diferentes com severidades diferentes, com rigor diferente, e não todos com o mesmo rigor (cf. Mt. 10:15; 11:22; 23:14; Tg. 3:1). Devemos entender a forma como Deus trata os pecadores pela forma como Jesus os tratou. Essa é a coerência cristológica da teologia cristã.

G. M. Brasilino

 

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