A Doutrina Anglicana da Predestinação

BCP

Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Filipenses 4:5a

A teologia anglicana recebeu diversas influências dos pais da Igreja, dos escolásticos e medievais, das reformas luterana e calvinista. O cultivo dessa teologia se deu como via média entre a pressão do radicalismo puritano e o tradicionalismo romano. Como via média, seu papel não foi o de produzir nenhuma nova doutrina — nenhuma doutrina é propriedade anglicana! —, mas reconciliar os extremos através de um culto comum, reconhecendo a intimidade entre nossa fé e nossa adoração. A batalha teológica anglicana sempre foi pela fé orada, não apenas pela fé professada.

Por isso, o anglicanismo não tem nada que poderíamos chamar de Confissão de Fé, nada comparável à Confissão de Augsburgo, dos luteranos, ou à Confissão de Fé de Westminster, dos reformados. Os 39 Artigos da Religião não têm o rigor sistemático nem a extensão de desenvolvimento das confissões. Expressam provisoriamente a fé cristã anglicana diante dos desafios impostos por romanos e puritanos. Por isso, alguns artigos se submetem com facilidade a interpretações diferentes, propostas por correntes interiores ao anglicanismo. A substância da teologia anglicana aparece com maior vigor em outros documentos, especialmente nos ritos, orações e práticas ensinados e chancelados no Livro de Oração Comum (LOC).

Por isso, o anglicanismo não têm fidelidade unilateral a nenhuma corrente da reforma protestante, e isso inclui o calvinismo. Seria de se supor que somente um calvinismo moderado (mais próximo do agostinianismo e do tomismo) seria compatível com a fé anglicana, e isso é inteiramente verdade. Se por calvinismo entendemos os Cinco Pontos, leitura simplificada dos Cânones de Dort (1618–1619), a doutrina anglicana da predestinação, assim como a luterana, não é nem calvinista nem arminiana. Se, por um lado, existe uma afirmação clara da predestinação para a vida eterna, refletindo de perto a linguagem das Sagradas Escrituras, penso que ao menos dois pontos do calvinismo contraditos, dando espaço para uma leitura mais complexa e dramática da eleição divina, menos racionalista que aquela que a corrente principal do calvinismo abraçou.

Os artigos IX a XVI expressam a base para a compreensão reformada acerca da condição humana sob o pecado, herdada de Agostinho. O Pecado Original, transmitido a todo o gênero humano (com exceção do próprio Cristo), leva os homens a cobiçarem o pecado, de maneira que, sem a graça de Deus, o livre-arbítrio não é capaz de dar um paço sequer na direção da salvação. Uma vez que nossas boas obras só são aceitáveis após a recepção da graça, elas não podem se constituir como base para a graça.

Então já as primeiras diferenças em relação ao calvinismo, antes mesmo de se falar em eleição ou predestinação. Diz respeito à operação da graça. Os 39 Artigos de Religião aludem à distinção escolástica entre graça preveniente e cooperante, no art. X, que nos diz:

“A condição do homem após a queda de Adão é tal que ele não pode se converter nem se preparar, por sua própria força natural e boas obras, para a fé e invocação a Deus. De maneira que não temos nenhum poder de fazer boas obras agradáveis e aceitáveis a Deus sem que a graça de Deus nos previna para que tenhamos boa vontade, e coopere conosco quando temos essa boa vontade.”

Em termos simples, essa distinção, cujas origens estão na teologia do próprio Sto. Agostinho, nos ensina que a graça divina — una em natureza e múltipla em suas operações no tempo — antecede e prepara qualquer passo que damos na direção da vontade divina, mas ela instaura também um modo de cooperação entre nós e Deus. Isso não é exatamente um problema para o calvinismo, pois certos calvinistas descrevem a santificação (não a conversão inicial!) nos termos do sinergismo. Mas certamente isso ataca algumas formas de calvinismo. Na teologia anglicana, santificação não é apenas recepção da graça, mas também vivência da graça.

Essa distinção é essencial para a teologia dos sacramentos, pois não é possível afirmar, ao mesmo tempo, que a graça (ao menos no que tange à santificação) é sempre irresistível e está sempre presente nos sacramentos. Algum tipo de cooperação deve haver, mesmo que nela Deus tenha o papel dominante, não apenas concedendo sua graça, mas também movendo nossa vontade na direção dela.

A noção de cooperação é reforçada pelo Art. XVI: “Depois de termos recebido o Espírito Santo, podemos nos afastar da graça dada e cair em pecado, e pela graça de Deus podemos novamente nos erguer e nos emendar.”

Assim, os 39 Artigos não concebem a graça como um dom recebido de uma vez por todas e para sempre. É possível decair da graça (“recedere”), afastar-se dela, na direção do pecado, assim como ser restaurado pela mesma. Tal concepção está em íntima conexão com o modo como a teologia medieval o relacionamento entre pecado e graça, à luz de certa leitura de Oséias 13:9: “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim, o teu socorro.”, a saber: o bem procede de Deus; o mal, do homem, como na Homilia Sobre a Miséria do Homem do Livro de Homilias da Igreja da Inglaterra.

Se é possível cair da graça, e se só podemos retornar à graça pela graça, todas as advertências bíblicas contra a apostasia e contra a recepção vã da graça se tornam válidas para os “cristãos verdadeiros”, um temor real. A eficácia da graça sacramental não é compatível com a idéia de que somente os eleitos (os quais perseverarão até o fim) têm acesso à graça salvífica. Ao contrário, se o Batismo é para a remissão de pecados — como ensina o Credo Niceno (aludindo a At. 2:38), que também é parte da doutrina anglicana —, todos aqueles que o receberam recebem também a graça do perdão, embora possam ser condenados por pecados posteriores, de maneira que se preserva tanto a eleição quanto a graça sacramental.

Que a teologia anglicana confirma a doutrina da eleição (sem a linguagem da dupla predestinação), o art. XVII confirma:

“A Predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus pelo qual, antes de lançados os fundamentos do mundo, Ele decretou firmemente, por Seu conselho a nós secreto, libertar da maldição e condenação aqueles que Ele escolheu em Cristo dentre a humanidade, e trazê-los por Cristo à salvação eterna como vasos feitos para honra. De modo que aqueles que são dotados de um benefício tão excelente de Deus são chamados de acordo com o propósito de Deus, por Seu Espírito operando no tempo oportuno; eles pela graça obedecem ao chamado; eles são justificados livremente; eles são feitos filhos de Deus por adoção; eles são feitos conforme a imagem de Seu unigênito filho Jesus Cristo; eles andam religiosamente em boas obras; e finalmente pela misericórdia de Deus eles alcançam a felicidade eterna.”

O artigo ecoa fortemente a linguagem de Efésios 1, e também Romanos 8 e 9, e deve-se notar nisso o modo como a eleição divina é expressa em termos cristocêntricos e pneumáticos: “em Cristo”, “por Cristo”, “imagem de Cristo”, “por Seu Espírito”. Fiel ao princípio de que todo o bem procede de Deus, e todo o nosso mal tem origem na própria humanidade, em nenhum momento o a tradição anglicana nos fala de uma predestinação para a condenação, mas apenas na eleição para a vida eterna. O conselho divino, que motiva a eleição, é secreto, oculto, não um mistério a ser desvendado.

Do Art. XVII se deduz, como em João 6, a perseverança dos eleitos, que alcançarão a vida eterna. Deus não apenas o fim — o destino eterno —, mas todos meios para o fim, todo o percurso que, pela graça, o eleito passará: obedecendo ao chamado, sendo justificado, adotado, conformado a Cristo, vivendo em boas obras. Isso implica na perseverança, que é condedida a tais eleitos, em uma linguagem análoga à de João 6:37ss. Entretanto, como se viu acima, nem todos os que foram alcançados pela graça irão perseverar; nem todos os convertidos, realmente convertidos, são eleitos. Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos.

A noção de eleição está profundamente atrelada ao modo como, na liturgia anglicana, intercede-se pela conversão e salvação de outras pessoas e nações, prática que só tem algum sentido se Deus é capaz de mover as vontades na direção da salvação, ou seja, se mesmo nossos pensamentos e desejos estão sob o controle da providência divina. Essa noção aparece na Coleta pela Graça, uma das orações feitas ao final do Ofício Matutino segundo o Livro de Oração Comum de 1662:

“Ó Senhor, nosso Pai celestial, Todo-Poderoso e eterno Deus, que nos trouxe em segurança até o começo deste dia; defende-nos hoje com teu grande poder; e concede hoje que não caiamos em pecado, nem incorramos em nenhum tipo de perigo; mas que nossas ações, ordenadas pelo teu governo, sejam retas em tua vista; por jesus Cristo nosso Senhor. Amém.”

Em outros momentos, o LOC nos diz que a providência de Deus “ordena todas as coisas tanto no céu quanto na terra” (Oitavo Domingo depois da Trindade), que “não temos em nós mesmos poder para nos socorrer” (Segundo Domingo da Quaresma), e pede-se que Deus, de quem procede todo o bem, conceda aos seus servos “santa inspiração, para que pensamentos naquilo que é bom, e por Tua direção misericordiosa as realizemos” (Quinto Domingo após a Páscoa). Nessas e em muitas outras orações, expressamos a fé de que o poder divino é capaz de vencer todos os nossos pecados e fraquezas, e que de fato só podemos suplicar pela renovação espiritual. Por isso mesmo, grande parte dessas orações invoca a Deus como “Deus Todo-poderoso” ou “Deus onipotente”.

Nada disso nega explicitamente a existência do livre-arbítrio, conceito acerca do qual os documentos de fé anglicanos nada dizem diretamente. O Art. X, intitulado “Do Livre Arbítrio”, não nos conta coisa alguma sobre sua natureza ou existência, mas apenas nega a capacidade natural de preparação da vontade para a graça. Ela é sempre preveniente, sempre antecede qualquer decisão humana; ao contrário, todo e qualquer passo que damos no sentido da salvação é feito sob o influxo da graça.

A expiação, por fim, é o ponto em que há maior divergência entre a linguagem doutrinal anglicana e o Calvinismo de Cinco Pontos. Pois o Art. 31 (§1) da Igreja Anglicana nos diz que:

“A oferta de Cristo, feita uma vez, é a perfeita redenção, propiciação e satisfação por todos os pecados do mundo todo, tanto originais quanto atuais; e, além dessa única, não há qualquer outra expiação pelos pecados.”

O texto não nos fala de nenhuma limitação na extensão da obra expiadora de Cristo; inclui todos os pecados do mundo todo. A obra sacrificial de Cristo não está limitada aos eleitos, e isso permite que os sacramentos sejam eficazes mesmo sobre aqueles que não alcançarão a vida eterna. O calvinismo atrela o dom da fé ao dom da perseverança e à extensão da expiação. Todo salvo é um eleito, e todo eleito é (ou será) um salvo. Não há como manter uma teologia sacramental consistente assim, pois significaria que os sacramentos só têm eficácia quando recebidos pelos eleitos.

Essa teologia aparece também na Oração de Consagração do Rito Eucarístico do LOC de 1662, que repete, com diferenças insignificantes, aquilo que já constava no LOC de 1549, bem mais próximo dos 39 Artigos:

“Deus Todo-poderoso, nosso Pai Celestial, que por tua doce misericórdia deste teu único Filho Jesus Cristo para sofrer a morte na Cruz por nossa redenção; que fez ali (pela oblação de si mesmo oferecida uma vez) um sacrifício, oblação e satisfação inteiros, perfeitos e suficientes, pelos pecados do mundo inteiro…”

No LOC da Diocese do Recife, essa oração aparece nos ritos eucarísticos IV e V. Igualmente, o Catecismo Anglicano, na resposta à 6ª pergunta, nos fala da fé cristã nestes termos:

“Primeiro, entendo que devo crer em Deus-Pai, que me criou e a todo o mundo; segundo, em Deus-Filho, que me remiu, e todo o gênero humano; terceiro, em Deus-Espírito Santo, que me santifica e a todo o povo de Deus.”

Assim, pode-se dizer que, na linguagem doutrinal anglicana, a expiação é ilimitada tanto em sua extensão quanto em sua eficácia. Não impõe-se nenhuma limitação àquilo que a Sagrada Escritura define como a extensão da expiação: “ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.” (1Jo. 2:2). Falo em “linguagem doutrinal” porque penso que o conflito entre “expiação limitada” e “expiação ilimitada” é, na maior parte do tempo, uma contenda inútil entre dois lados da mesma verdade.

Mas ao menos no que tange à teologia sacramental, existe uma diferença real entre expiação limitada e ilimitada, e nisso as Sagradas Escrituras são claras sobre a existência de pessoas condenadas que, em algum momento, tiveram seus pecados realmente perdoados (2Pe. 1:9; 2:1). Mesmo os Cânones de Dordt, essenciais para a definição do calvinismo histórico, falam tanto de uma suficiência universal quanto de uma eficácia particular da expiação. Não acho que seja possível avançar da distinção de Pedro Lombardo.

G. M. Brasilino

2 comentários em “A Doutrina Anglicana da Predestinação

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