Justificação pela fé e Juízo Final segundo as obras

Autun, Kath. Saint Lazare, Tympanon - Autun, Cath. Saint Lazare, tympanum -

“Igualmente, acerca da justificação, ensinamos que, falando propriamente, ela significa o perdão dos pecados e nossa aceitação ou reconciliação para a graça e favor de Deus, isto é, a verdadeira renovação em Cristo, e que os pecadores não podem obter essa justificação sem arrependimento e o movimento correto e próprio do coração para Deus e o próximo, que é obra do Espírito Santo.” — Abp. Thomas Cranmer, Treze Artigos de 1538

Que farei para herdar a vida eterna? Essa pergunta é feita algumas vezes nas Sagradas Escrituras, e duas resposta são dadas. Ao seu carcereiro, o apóstolo Paulo respondeu: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo” (At. 16:31) — palavras semelhantes às do próprio Jesus no Quarto Evangelho: “quem crê em mim tem a vida eterna” (Jo. 6:47). Mas ao jovem rico, Jesus respondeu: “Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.” (Mt. 19:17). Ao intérprete da lei que lhe fez a mesma questão, e que propôs o amor a Deus e ao próximo como resposta, Jesus lhe disse: “faze isto e viverás” (Lc. 10:28).

Surpreende ainda mais que as duas respostas apareçam no mesmo contexto: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida. Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo.” (Jo. 5:24,28-29).

A unidade espiritual do cânon bíblico depende de que essas duas respostas sejam não apenas compatíveis entre si, mas expressões diferentes da mesma verdade. Embora cada autor bíblico seja uma testemunha particular de certos mistérios divinos revelados aos homens em Cristo, todos testemunham o mesmo Evangelho (ICo. 15:11) — fora do qual não há comunhão (Gl. 1:8).

As Escrituras não nos dizem que nossas obras “contribuem” para a salvação, como se fosse necessário acrescentar algo à obra de Cristo, e tampouco nos indicam que somos salvos por nossas obras. Cristo é nossa justiça, santificação e redenção (1Co. 1:30), e somente ele é o caminho para nossa salvação — nós não somos! Nossa salvação e nossa justificação procedem da graça divina, não das obras que tenhamos praticado (Tt. 3:4-7).

Mas as Sagradas Escrituras são explícitas e consistentes em nos dizer que receberemos um destino eterno compatível com nossas obras. Ainda que sejamos justificados pela fé (Rm. 5:1), o Juízo Final será conforme as nossas obras, e conforme essas obras receberemos o destino eterno que nos cabe. É assim no discurso de Mt. 25:31-46, em que o destino eterno das ovelhas e bodes (a vida eterna e o castigo eterno) é decidido a partir do comportamento que tiveram em relação aos irmãos necessitados (e, através deles, a Cristo) — se lhes deram de comer, de beber, se os hospedaram, os vestiram, os visitaram quando doentes e presos.

Mt. 7:21-23: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.

Nas listas de pecados nas epístolas paulinas (ICo. 6:9-10; Gl. 5:19-21; Ef. 5:5; cf. Ap. 21:8), o apóstolo diz que “não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam”, ecoando de certo modo os juízos apocalípticos de Jesus. Ele nos diz também que receberemos nosso destino eterno conforme houvermos semeado na carne e no Espírito, e neste incliu o “fazer o bem” (Rm. 8:13; Gl. 6:6-10). Ele é explícito sobre o Juízo Final segundo as obras.

Rm. 2:5-13: Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade; mas ira e indignação aos facciosos, que desobedecem à verdade e obedecem à injustiça. Tribulação e angústia virão sobre a alma de qualquer homem que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego; glória, porém, e honra, e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego. Porque para com Deus não há acepção de pessoas. Assim, pois, todos os que pecaram sem lei também sem lei perecerão; e todos os que com lei pecaram mediante lei serão julgados. Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.

Embora alguns reformados recentes tenham tentado ver nesse texto apenas uma “hipótese” que o apóstolo “descartaria” — mesmo que nada no texto indique tratar-se de mera hipótese —, é certo que bem depois, ainda na mesma carta, o apóstolo Paulo vê o juízo divino de acordo com as obras realizadas (Rm. 8:13; 14:10-12; cf. IICo. 5:10; Cl. 3:25), não dando qualquer indicação de que se trata de uma idéia já abandonada. Mesmo porque o apóstolo não é voz solitária nessa questão. Ele está em harmonia com o ensino de Jesus nos Evangelhos Sinóticos, no Quarto Evangelho e no Apocalipse de João (cf. Ap. 2:23; 20:12-13).

O apóstolo nos fala também de sermos feitos “dignos” do reino de Deus (2Ts. 1:5,11), usando a mesma palavra pela qual se diz que “o obreiro é digno do seu salário” (Lc. 10:7; 1Tm. 5:18) ou que os pecadores são “dignos de morte” (Rm. 1:32), mesmo que em Rm. 6:23 ele tenha distinguido o salário do pecado e do gratuito. Linguagem semelhante aparece nos Evangelhos Sinóticos, acerca dos “dignos de alcançar o mundo vindouro” (Lc. 20:35) ou daquele que “não é digno de mim” (Mt. 10:37-38).

Assim, na tradição paulina, a Epístola aos Hebreus pode dizer, por um lado, que os redimidos são santificados pelo sacrifício único de Cristo (10:10; 13:12), que os aperfeiçoa para sempre (10:14), e, ainda assim, os cristãos devem buscar a “santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (12:14).

Nessa matéria, o dispensacionalismo popularizou um grande erro, ao ensinar que, no Juízo que as obras dos cristãos receberão, o prêmio será certos “galardões” — que ninguém sabe dizer o que é, e não sabe porque não são bíblicos.

Mas é possível conciliar a Justificação pela pé e o Juízo Final segundo as obras, enquanto respostas à pergunta acerca da salvação? É possível desde que haja uma compreensão correta de tudo o que o problema implica: justificação, fé e obras. Pois a Justificação pela fé e o Juízo Final segundo as obras de fato expressam uma mesma realidade salvífica em momentos diferentes, uma mesma salvação recebida em Cristo.

O verbo “justificar” tem muitos sentidos nas Escrituras — como “reconhecer”, “vindicar”, “declarar justo” e “absolver” —, e esses sentidos são aprofundados pelo uso e nuances dados pelos escritores, especialmente o apóstolo Paulo. É uma tentação própria da teologia sistemática querer ler sempre o mesmo sentido quando a mesma palavra é usada em contextos diferentes. Mas as palavras raramente funcionam assim nas Sagradas Escrituras. Essas múltiplas nuances permitem ao apóstolo Paulo dizer em ICo. 4:4 que não se considera justificado — pois é Deus quem o julga[rá]. Ele não tem qualquer obrigação de usar tal palavra sempre no mesmo sentido. Contexto diferente, uso diferente.

Assim, em Rm. 4:6-8, a justificação tem em vista o perdão dos pecados (“absolvição”). Mas, como eu já escrevi outra vez neste blog, não é segredo que verbo “justificar” deve ser entendido em Rm. 6:6-7 (cf. 6:18) como “libertar” — libertar do pecado —, e prepara aquilo que se dirá nos capítulos 7 e 8 de Romanos, nos quais a lei do Espírito triunfa sobre a lei do pecado. Não se trata apenas do perdão do pecado, mas de uma libertação do poder do pecado, que nos torna servos de Deus. Por esse motivo, Paulo coloca também o batismo, a santificação e a justificação juntos (e nesta ordem) em ICo. 6:9-11, como solução para o pecado — em Cristo e no Espírito.

Essa justificação como libertação não pode ser “segundo as obras”, pois ela é libertação em relação ao poder do pecado, que justamente nos induz às más obras (Rm. 6:17; 7:5). Mas sem dúvida é uma justificação para as boas obras, uma justificação que resulta em boas obras, que resulta em santificação, como parte de uma mesma salvação e de uma mesma graça. Assim, justificação pela fé quer dizer (também) que somos libertados do poder do pecado através da fé em Cristo.

Embora a maioria dos textos se refira simplesmente à “fé” ou “fé em Cristo”, sem dizer muito sobre a natureza dessa fé, podemos afirmar, sem dúvida, que a fé salvífica não é qualquer fé ou qualquer crença. Tal é uma exigência que o famoso texto de Tiago 2:14-26 nos impõe: a fé sem obras é morta, e, portanto, somente uma fé viva pode resolver o nosso problema.

Em Gl. 5:6, o apóstolo Paulo nos fala dessa fé que nos distingue: a fé operante através do amor. A fé salvífica paulina não é qualquer fé, mas uma fé claramente ativa. Somos, portanto, justificados por uma fé viva em Cristo. Por isso o apóstolo Paulo transita sem dificuldade da paz resultante da justificação pela fé (Rm. 5:1) ao dom do amor no Espírito Santo (Rm. 5:5); é esse amor que impede que a esperança se decepcione. Ainda assim, a fé não produz, mas recebe, aquilo que a torna justificante: o amor.

Que existe um vínculo entre a fé justificante e a vida moral, mais especificamente entre a fé justificante e o amor, é evidente também em outras cercanias das Sagradas Escrituras, especialmente na literatura joanina, que dá tanta primazia ao amor.

1Jo. 3:14-15: Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si.

O essencial é que “aquele que não ama permanece na morte”; não pode haver, portanto, justificação sem amor, mesmo porque aquele que não ama sequer conhece a Deus (1Jo. 4:8)! Assim como em Rm. 5:5, também a literatura paulina nos diz que o amor procede de Deus (hē agapē ek tou theou estin), e todo aquele que ama tem a vida eterna (1Jo. 4:7). Onde falta o amor, falta a vida eterna. Carece do amor divino aquele que despreza o irmão necessitado (1Jo. 3:17).

Por esses e outros motivos, Hb. 11 nos apresenta as implicações da fé: o sacrifício de Abel, o preparo da arca por Noé, a obediência de Abraão, a escolha de Moisés em ser maltratado com o povo de Deus e em conduzir o povo à terra prometida, a proteção de Raabe aos espias, tudo isso aconteceu “pela fé” (pistei): “por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros.” (vv. 33-34).

Tudo isso é possível porque a fé viva não é apenas um assentimento a certas proposições, uma fidelidade a certos dogmas, mas propriamente uma visão do invisível (v. 27), que abre diante de nós uma realidade nova, a qual molda nossas ações. A fé não pode ser confiança (fiducia) se deixamos de confiar na sabedoria e na vontade divinas quando decidimos e agimos. O mistério não é como a fé molda nossas ações, estando intimamente unida ao amor, mas como é possível, havendo fé viva, haver também pecado! Nossa fé, na realidade, não é tão firme, e o pecado consciente provavelmente é também uma fraqueza na fé.

A natureza da fé salvífica e viva já nos diz muito sobre como a Justificação e o Juízo Final se conciliam. Mais pode ser dito, agora sobre as obras, pois entendemos que, assim como a fé, as obras só têm valor quando movidas pelo amor: “ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.” (1Co. 13:4). No juízo das obras, o que está em jogo não é o número delas — como se fosse possível fazer uma comparação entre o número de boas obras e o número de más —, mas o amor com que as realizamos. Trata-se, em primeiro plano, de um juízo do nosso próprio coração.

Essa doutrina não é nova. O juízo divino sobre as nossas intenções, que normalmente são desconhecidas de outras pessoas — diferentemente das obras, muitas das quais são visíveis —, é bem estabelecido no Antigo Testamento.

IRs. 8:39: ouve tu nos céus, lugar da tua habitação, perdoa, age e dá a cada um segundo todos os seus caminhos, já que lhe conheces o coração, porque tu, só tu, és conhecedor do coração de todos os filhos dos homens;

Pv. 16:2: Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o SENHOR pesa o espírito.

Jr. 17:10: Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações.

Como no caso de Abimeleque em Gn. 20:1-6, a integridade do coração muda inteiramente o juízo sobre certas ações exteriormente idênticas. Em seu juízo, o Senhor “não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações” (1Co. 4:5). A partir dessa intimidade autoral entre a intenção e a ação, é possível falar em adultério (Mt. 5:28) e homicídio (IJo. 3:15) cometidos no coração.  Por isso os puros de coração — aqueles de cujo coração não procedem maus “desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt. 15:19) — verão a Deus (Mt. 5:8).

Dessa maneira, tanto a Justificação pela fé como o Juízo Final segundo as obras são como que redutíveis a um fator comum, que é o amor recebido através do Espírito, através do qual mantemos a esperança na justiça da fé (Gl. 5:5). O mesmo Espírito, que é “o penhor da nossa herança” (Ef. 1:14; cf. IJo. 3:24), gera em nós tanto a fé quanto as obras (ICo. 12:3; Gl. 5:22). Isso justifica em parte a longa tradição ocidental, iniciada com Sto. Agostinho, de identificar o amor divino com o Espírito Santo. É o amor que permite que no Dia do Juízo não tenhamos temor, mas sim confiança (1Jo. 4:17-18). A justificação presente é como que uma antecipação do juízo futuro, uma marca presente da escatologia já inaugurada em Cristo, um antegozo das realidades futuras, recebido pela fé.

G. M. Brasilino

 

 

 

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