Não há salvação sem amor

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No texto anterior deste blog, eu escrevi sobre uma forma simples de conciliar as doutrinas da justificação pela fé e do juízo final segundo as obras, a doutrina da salvação e a doutrina das últimas coisas: “fé” e “obras”, nos salvos, sinalizam uma mesma realidade, o amor divino que se entrega gratuitamente a nós e que habita em nós pelo Espírito Santo, de maneira que a fé justificante é uma fé que opera em amor, e as obras julgadas como dignas da vida eterna são também aquelas feitas em amor.

Um dos eixos dessa conciliação é a identificação, feita por Santo Agostinho, entre a fé viva e justificante com a “fé que opera em amor” (Gl. 5:6), em oposição à fé morta e vã (Tg. 2:26). Com isso fica claro que não há salvação sem amor, como também nos ensinam alguns textos das Sagradas Escrituras, como, por exemplo:

I Jo. 3:10,14-15: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão. Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si.”

I Jo. 4:7-8: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.”

Na mesma tradição joanina, Cristo já havia dito que os discípulos seriam reconhecidos pelo amor mútuo (Jo. 13:35), e temos aqui uma profunda razão para esse fato, pois o amor e a prática da justiça seriam marcas espirituais dos filhos de Deus, que os ‘manifestam’, como que sinais da eleição divina. Deus, de fato, prometeu a coroa da vida “aos que o amam” (Tg. 1:12), prometida ao mesmo tempo ao que é “fiel até à morte” (Ap. 2:10). Nós sabemos, por outro lado, que aquele que ama a Deus também ama ao seu irmão (1Jo. 4:20-5:1). Esse amor que brota em nós é uma operação do próprio Deus: “o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas.” (Dt. 30:6). As Escrituras nos pedem que nos vistamos “da couraça da fé e do amor” (1Ts. 5:8), uma mesma couraça.

Ainda assim, é importante não desprezar, na fé, sua dimensão confessante (Rm. 10:9) — que nos diz, sobretudo, de onde vem nossa salvação —, mas essa confissão firme, “fiel [pistós] até à morte”, revela-se como amor justamente perante a morte. O martírio é uma grande janela para o mistério da fé e do amor, pois que ele se mostra como o testemunho frente à morte, nada mais é que fé feita em amor, ao mesmo tempo movida pelo amor e frutificando em amor. É por fé ou por amor que o mártir confessa a Cristo e entrega sua vida? Não há como fazer separação. Sua confissão é puro agápē, puro amor que “não procura os seus interesses” (ICo. 13:5). O amor tira os olhos de nós mesmos, e não é possível crer com fé viva enquanto os nossos olhos estão ainda voltados para nós mesmos. No martírio, o amor é a firmeza da fé.

Mc. 8:35: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á;
e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á.”

Por isso, o martírio é também o grande momento da conversão, em que confessar a Cristo é amar a Cristo. Isso nos permite também ver a fé presente como uma prontidão para o martírio. Consumado não apenas na morte provocada em ódio à fé, mas também naquele pequeno martírio do que dá a vida pelo seu irmão (Jo. 15:13).

Mas Nosso amor imperfeito necessita do perdão, de maneira que o amor divino não apenas habita em nós pelo Espírito Santo (Rm. 5:5) — Deus ama através de nós quando nós amamos —, mas esse mesmo amor de Deus por nós completa a imensidade do que ainda falta através do perdão, pela fé.

G. M. Brasilino

3 comentários em “Não há salvação sem amor

  1. O amor é necessário para a justificação? Se sim, de algum modo o amor é um elemento essencial da fé? Se sim, como?
    Quando os protestantes falam da fé que opera no amor, se não me engano devem interpretar o amor como sendo consequência da justificação, não anterior à justificação.
    Então, o amor é anterior e necessário à justificação, ou é posterior e consequência da justificação?

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