A Eficácia Cristocêntrica dos Sacramentos

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Qualquer pergunta que fizermos sobre os sacramentos leva, em algum momento, à questão da sua eficácia — sua capacidade de produzir certos efeitos reais e espirituais, de cumprir certas promessa feitas por Cristo. A eficácia está lá quando tratamos do batismo de crianças  e é impossível ter uma postura correta sobre essa prática sem que primeiro a eficácia sacramental seja esclarecida , quando discutimos sobre a unidade visível dos membros Igreja, quando perguntamos se é possível salvação sem os sacramentos, ou se todos os que os recebem são salvos. Quando alguém percebe a importância e sutileza do ensino das Sagradas Escrituras sobre os sacramentos, essa questão emerge.

Os teólogos desenvolveram a distinção muito sensata entre centrar a eficácia do sacramento na ação de Cristo (ex opere operato Christi) e na ação do celebrante (ex opere operantis ministri). Um marco na história dessa distinção foi a condenação da seita de Donato, possuída de um zelo moralista inteiramente incompatível com a graça evangélica: os donatistas consideravam inválidos os sacramentos celebrados por ministros que tivessem negado a Cristo durante a perseguição diocleciana (lapsi, traditores), negando-lhes o perdão. Mas a sujeição da validade do sacramento à moralidade do ministro termina por invalidar qualquer sacramento, a menos que o ministro seja Cristo. Qualquer outro ministro necessita de perdão.

Se o homem Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, segue-se que nenhum outro homem é, e justamente por isso a eficácia do sacramento só pode depender dele. Qualquer ministro agindo em nome de Cristo é apenas um representante autorizado do poder divino que se comunica aos homens no Espírito Santo. Limitar os sacramentos à eficácia ex opere operantis é decair no paganismo, reintroduzindo mediadores naquilo em que a mediação de Cristo é absoluta e suficiente   naquilo em que sua santidade é absoluta e suficiente. Se eu exijo do ministro santidade como um requisito para a validade do sacramento, eu torno a graça dependente da santidade de um pecador, negando que a exclusividade de Cristo na comunicação da graça salvadora (solo Christo). Se Cristo é o único mediador, a graça é comunicada o ex opere operato.

Por isso mesmo, as Escrituras nos falam de como a circuncisão espiritual realizada em nós se dá, ao mesmo tempo, “no batismo” e “não feita por mão” (Cl. 2:11-12). O verdadeiro celebrante é Cristo, de quem o ministro terreno é apenas um símbolo. Somente isso explica o fato de batizarmos “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt. 28:19). Do contrário, o faríamos em nome do ministro. Por isso, ao invés de falar em eficácia ex opere operato, prefiro falar em eficácia cristocêntrica.

Mas há três esclarecimentos importantes:

1. A santidade do ministro, ou falta dela, não é irrelevante para a celebração. Os sacramentos nunca são realizados num vácuo, mas envoltos em orações e intercessões, e a súplica do ministro pode sim ser impedida em razão do seu pecado pessoal (veja aqui), além de poder escandalizar os presentes, levando-os a fraquejar na fé e receber a graça de maneira falha. O sacramento recebido é inteiramente válido, mas não inteiramente desfrutado. É assim que eu interpreto a posição de Lutero sobre o opus operatum em O Cativeiro Babilônico da Igreja (1520).

2. Isso já supõe uma distinção importante acerca da recepção. É óbvio que nem todos os que recebem os sacramentos serão salvos, mesmo que a graça salvífica seja comunicada através destes. Quando a teologia antiga falava em eficácia, o que estava em jogo não é se todos os que recebem os sacramentos serão salvos, mas se a graça é comunicada a todos. A confusão pode emergir em parte da linguagem que usamos: se digo que recebi a graça através do sacramento, posso querer dizer algo mais fraco —  que a graça me foi oferecida no sacramento ou algo mais forte —  que eu a acolhi em minha vida (pela fé). O sujeito que recebeu uma ordem de pagamento não está ainda com o dinheiro em mãos. O sacramento é um título que precisa ser usado. Mas como ele é válido, quem recebeu o Batismo um dia não precisa (nem pode!) ser batizado novamente, mesmo que tenha recebido originalmente em condições ímpias.

3. É claro que ninguém pode falar e agir em nome de Cristo sem ter recebido autoridade para tanto, e isso vale especialmente para os sacramentos. Tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, os ministros de Deus são consagrados para desempenhar sua missão, e em ambos se condena o pecado de Corá  a usurpação da autoridade espiritual e sacerdotal. Embora as Escrituras sejam mais amplas em relação ao Batismo, não o são com respeito à Eucaristia   os apóstolos são os únicos a celebra-la.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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