O Pecado do Rebatismo

Melanchthon batizando

Falar sobre rebatismo é falar sobre a minha vida. Eu preparo candidatos ao Santo Batismo, assim como padrinhos e pais, e esse papel me coloca em contato constante com os dilemas e esperanças de muitas pessoas — desejos de vida nova, de rompimento com o pecado e com o passado, de receber a graça divina sobre si. Mesmo quando falta a linguagem adequada para descrever a experiência almejada, e até quando a linguagem está errada, no fundo as pessoas sabem o que é o Batismo. O sinal visível é mais forte que qualquer erro teológico.

Isso acontece também com pessoas que já foram batizadas em outros momentos, especialmente na infância, e crêem, por algum motivo, que precisam ser batizadas novamente, movidas por um desejo sincero (mas deslocado) de regeneração — quase sempre membros de alguma igreja evangélica rebatista que decidem caminhar conosco. Sentem o desejo de algo que os marque. Uma teologia batismal errada leva à noção de que ele precisa ser repetido, agora que a pessoa já “tem consciência” — acredita ter consciência — do papel do Batismo ou da salvação.

Isso resulta, em parte, de uma estranha doutrina segundo a qual o Batismo em nada afeta a salvação, não tem nenhum efeito espiritual, e ainda assim deve ser praticado meticulosamente — em alguma “idade certa” (geralmente a idade mágica é 12 anos), com a quantidade de água certa (afogando o infeliz) e pela pessoa certa (um pastor evangélico). É ritualismo — rito sem espiritualidade, sem poder sobrenatural, mera casca. Tudo isso porque as pessoas precisam “professar publicamente” sua fé, e o papel do Batismo seria esse, supostamente.

O segundo motivo é que o rebatismo é um pecado que eu já cometi, na adolescência, quando membro de outra comunidade de fé cristã, e do qual eu me arrependi. Quando o fiz, foi justamente sob efeito dessa teologia, dessa necessidade de “professar publicamente” a fé, de mostrar aos outros quem agora eu seria. Era a necessidade de um rito de passagem, o selo para uma nova fase na vida. O homem é um ser ritual, e essa teologia respondia a um anseio natural. Sendo bem sincero, o que eu queria mesmo era participar da Ceia do Senhor. Mas acho que, no fundo, eu comecei a me arrepender no dia do rebatismo. Não foi nada especial, nada do que eu esperava. Não mudou a minha vida e não melhorará a de ninguém, a despeito das superstições.

Por isso eu entendo o sentimento de muitos que vêm até nós; quando alguém, inicialmente batizado por um padre católico romano — por ser membro de uma família de católicos romanos nominais —, passa boa parte da vida no “mundão”, se congrega a alguma igreja evangélica rebatista, e finalmente chega à nossa comunidade de fé, muita coisa já aconteceu, muitos símbolos, valores, sentimentos e teologias estão em jogo, e o que eu percebo em operação é a lógica da pureza. Mesmo depois de saberem que não rebatizamos e entenderem que o papel do Batismo não é o de profissão pública de fé, algumas pessoas ainda desejam o rebatismo, por desejarem se afastar do passado católico romano, desfazer qualquer ligação com ele, livrar-se da história impura através do rito de passagem religioso. Em muitos casos, as pessoas aprenderam, no meio do caminho, a odiar a Igreja Romana, e não querem nada que receberam nela. Não querem que um passo tão importante como o Batismo, que carregamos para o resto da vida, ligado de algum modo à Igreja Romana. Não querem a mancha no currículo.

A lógica da pureza precisa ser substituída pela lógica da gratidão, do amor e do perdão, especialmente a Deus, que nos alcançou quando ainda éramos crianças, mesmo que em condições com as quais mais não concordamos, e muito antes de termos a “consciência” que hoje pensamos ter. O rebatismo é uma forma de ingratidão, pois todo sacrilégio é também ingratidão. É um pecado porque é uma negação da graça divina recebida e um uso vão do nome de Deus, como se nós pudéssemos obrigar Cristo a fazer a mesma coisa duas vezes, por nosso próprio capricho. Uma das mais importantes conquistas da teologia patrística foi a conclusão de que os sacramentos recebem sua eficácia diretamente de Cristo, e não da vida espiritual do ministro terreno (veja aqui).

O rebatismo seria lícito apenas se fosse necessário para a salvação, se, como a Eucaristia, o Batismo fosse repetível. Como não o é, rebatizar usar uma autoridade delegada por Cristo de maneira leviana, desprezando o nome invocado sobre a pessoa. No fundo, a Igreja não pode rebatizar ninguém porque não tem autoridade para usar o nome de Deus — Pai, Filho e Espírito Santo — como lhe aprouver, mas apenas conforme o mandato de Cristo, que em lugar algum nos ensinou sobre rebatismo.

A Grande Comissão (Mt. 28:18-20) faz a conexão de maneira maravilhosa: como Cristo tem autoridade máxima no Céu e na Terra, o papel da Igreja é ser esse reino de Cristo em expansão, tornando os povos em discípulos através do Batismo e da Doutrina, Palavra e Sacramento. Na Bíblia, diversas vezes a posse de Deus sobre algo é colocada nos termos da invocação: “todos os povos da terra verão que é invocado sobre ti o nome do Senhor” (Dt. 28:10; cf. Tg. 2:7). Onde quer que o nome de Cristo tenha sido invocado sobre alguém, o reino se fez presente, porque quem o faz não é o ministro, um pecador, mas o próprio Cristo. O Batismo não é a profissão de fé em Cristo de um convertido; é a posse de Cristo sobre aquilo que é seu por direito.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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