Exorcismos, Juramentos e Maldições

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Deus nos confiou a oração como para nos ceder a “dignidade da causalidade”, escreveu Pascal. Ele nos permitiu, em certos momentos, ser agentes de Sua Providência, de maneira a fazer através de nós aquilo que Ele poderia fazer sem nós, como que nos honrando por pura bondade. Deus não quis condenar Abimeleque, que tinha um coração sincero, mas só agiu em seu benefício depois da intercessão de Abraão: “ele é profeta e intercederá por ti” (Gn. 20:7). Deus desejou honrar a oração de Abraão, o mesmo que Ele faz através de nós sempre.

Mas como a nossa responsabilidade cresce em proporção ao dom que recebemos, e como não há limites para o que o poder divino faz através da oração, quão grande se torna a nossa responsabilidade pelo que dizemos diante de Deus! Embora nem toda oração seja vocal, embora possamos nos colocar diante de Deus em silêncio humilde e apofático, há uma comunhão entre o centro pessoal de cada um de nós — nosso bom tesouro, onde se acham a fé, a esperança e o amor — e as palavras que pronunciamos, pois “boca fala do que está cheio o coração” (Lucas 6:45). Nisso se vê o vínculo salvífico entre a boca que confessa e o coração que crê (Rm. 10:9-10). Afinal, Deus leva a sério até mesmo nossas palavras mais banais, e por elas seremos julgados (Mt. 12:36-37).

Por isso, há muita verdade em se dizer que nas nossas palavras há poder. Sim, mesmo que não afetassem o destino de outros, certamente as palavras afetariam o nosso próprio. Mas as palavras têm um poder maior, em certas situações. Sem dúvida ninguém deveria lutar contra praga de mãe. Não como se as palavras tivessem algum tipo de mágica, é claro, mas às vezes é muito difícil distinguir a mágica do mundo real, e os exorcismos, juramentos e maldições são um desafio próprio. Nas Escrituras, essas práticas se dão em nome do Senhor, que não está de modo algum sujeito às nossas próprias palavras e invocações, talvez a distinção mais importante em relação à mágica. Devemos sempre invocar o nome de Deus em fé e em humildade, confiando em um poder inerente apenas a Ele, como nos lembra a história dos exorcistas judeus que se decepcionaram ao usar o nome de Jesus (At. 19:13-16).

No Antigo Testamento, um “pacto” entre duas pessoas — um acordo de paz e comunhão — é selado através de um juramento, como aquele entre Isaque e Abimeleque (Gn. 26:28-31), no qual alguém se obriga a um dado comportamento. Isso vale até para a aliança entre Deus e os homens (Dt. 29:12). Jurar é obrigar-se através de uma maldição condicional (cf. Jz. 21:18; 2Sm. 3:35), motivo pelo qual a Lei é concluída com uma série de maldições para quem não cumpre os mandamentos. De fato, a mesma raiz triconsonantal hebraica (‘ālāh) pode significar tanto “juramento” quanto “maldição”. Cair sob maldição e padecer por um juramento são a mesma coisa (Ne. 10:29; Dn. 9:11).

Uma poderosa maldição foi lançada pelo profeta Josué sobre aqueles que quisessem reconstruir a cidade de Jericó (Js. 6:26). Essa maldição foi tão poderosa que veio a se cumprir séculos depois (1Rs. 16:34). O Novo Testamento não está ausente de maldições, como as lançadas pelo apóstolo Paulo contra o feiticeiro Elimas (At. 13:11) e contra o sumo-sacerdote (At. 23:3).

Modernos e individualistas que somos, sem dúvida nos surpreende que se possa jurar por outra pessoa — uma das bases para o batismo de crianças.  O pacto e juramento de fidelidade a Deus dos israelitas vale também para seus descendentes (Dt. 29:14-15). José fez seus irmãos jurarem que levariam seus ossos da terra do Egito (Gn. 50:25), e esse juramente só foi cumprido muitas gerações depois (Êx. 13:19). O juramento de uma pessoa pode obrigar outra pessoa, a partir de um laço de lealdade, e isso é o que se chama “conjuração”, como quando o apóstolo Paulo conjura aos cristãos tessalonicenses (1Ts. 5:27) e a Timóteo (1Tm. 5:1; 2Tm. 4:1), ou quando o sumo-sacerdote conjura o próprio Jesus a testemunhar (Mt. 26:63). Uma palavra de autoridade obriga outra pessoa a um comportamento, também sob pena de maldição (1Sm. 14:24). Do mesmo modo, uma pessoa de autoridade poderia livrar alguém de um juramento (Nm. 30:3-5).

Como Deus seria o único vingador de todos os juramentos, jurar (ou conjurar) em nome de Deus seria um ato virtuoso, um ato de culto a Deus, pois reconheceria em Deus a própria justiça. Por isso a Lei ensina os hebreus a jurarem em nome do Senhor (Dt. 6:13; Is. 65:16); jurar por outra divindade seria óbvia idolatria (Jr. 5:7). Esses juramentos por vezes seguem certas fórmulas, como “Vive o Senhor” no Antigo Testamento (“…jurou Saul: Vive o Senhor…”, 1Sm. 19:6) e “Diante de Deus” no Novo (1Tm. 5:21; 6:13; 2Tm. 1:14; 4:1). Não apenas o nome de Deus, mas a mão erguida a Deus também seria um símbolo do juramento (Gn. 14:22-24; cf. Êx. 6:8), como o gesto do anjo que alça as mãos aos céus e jura por Deus em Ap. 10:5-6.

Por esses motivos, o exorcismo é também chamado “esconjuro”. A mesma raíz se mostra não apenas no nosso bom português, mas também no grego do Novo Testamento: horkos (“juramento”), horkizō (“eu juro”, “eu esconjuro”), exorkizō (“eu conjuro”). Esconjurar um demônio seria uma forma de obrigá-lo (a sair), como qualquer outra forma de conjuração. Por isso também, o nome do Senhor é sempre empregado: “Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela.” (At. 16:18).

Usar o nome de Deus seria uma grande responsabilidade; aquele que o usasse falsamente seria amaldiçoado (Zc. 5:3-4). Sem essa intervenção, sem o castigo dos perjuros, o juramento não tem qualquer sentido. Afinal, se honestidade de alguém está em dúvida, porque alguém acreditaria em seu juramento em nome de Deus? O juramento só seria relevante se o que jura coloca-se em risco ao fazê-lo, compensando o risco do que acredita no juramento.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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