Graça resistível e irresistível

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A graça é resistível ou irresistível? Talvez essa não seja a melhor linguagem, a mais adequada. Ela parece indicar uma luta da graça contra nós, uma oposição ao ser humano, como se a liberdade divina anulasse a nossa, um invasor a ser resistido, quando na realidade a graça cumpre em nós nosso chamado mais íntimo, nossa vocação mais profunda, o propósito mesmo de nossa existência — ela opera em nosso favor, não contra nós. Ainda assim, é uma linguagem justificável, pois o Espírito Santo age certamente contra a pior parte de nós mesmo, combatendo a carne (Gl. 5:17). O ser humano trabalha contra si mesmo. Falar em graça irresistível é sinalizar que a onipotência divina também está em jogo quando falamos sobre salvação.

Uma linguagem diferente, porém homóloga, é a a dos tomistas quando distinguem entre a graça suficiente e a graça eficaz, ou mesmo entre a graça extrinsecamente eficaz e a graça intrinsecamente eficaz. É claro que a graça salvífica é uma só, mas ela opera em nós de múltiplas maneiras para atingir os fins traçados pela Sabedoria Divina. O que se quer dizer com isso é que a frutificação de uma determinada operação da graça às vezes depende apenas de Deus, não de nós, e às vezes depende também de nós. Existe um genuíno esforço de nossa parte (2Pe. 1:10).

O apóstolo Paulo exorta os coríntios: “não recebais em vão a graça de Deus” (2Co. 6:1), e diz, sobre si mesmo, que “a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã” (1Co. 15:10). Ao menos nessas situações, a graça de Deus pode se tornar vã, vazia, kenē. Se somente através do Espírito nos tornamos capazes de confessar o nome de Cristo (1Co. 12:3), não obstante é possível resistir ao Espírito (At. 7:51) e apagar o Espírito (1Ts. 5:19), caindo da graça (Gl. 5:4), ainda que Deus seja poderoso para nos impedir de cair (Jd. 24). A luta é genuína, e nenhum texto das Sagradas Escrituras nos garante que a operação da graça em nós é sempre resistível ou sempre irresistível. Algo de resistível está presente nas queixas proféticas contra os hebreus:

Is. 5:4: “Que mais se podia fazer ainda à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? E como, esperando eu que desse uvas boas, veio a produzir uvas bravas?”

Mt. 11:21: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza.”

Mt. 23:37: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!”

Sem dúvida esses e outros textos carregam um certo antropopatismo, tratando Deus em termos humanos, como se aquele que é Eterno pudesse se decepcionar com os acontecimentos humanos. No entanto, de alguma maneira a ação humana é contrária ao desejo divino: “quis eu… vós não o quisestes!”. Deus fez tudo por Israel e esperou uvas boas, mas vieram uvas bravas. Os moradores de Tiro e Sidom teriam se convertido, se tivessem recebido os milagres que Corazim e Betsaida receberam — se, por motivos a nós ocultos, Deus preferiu não fazer por Tiro e Sidom algo que os teria levado à conversão, Ele fez o mesmo por Corazim e Betsaida, que não se converteram, mas poderiam tê-lo feito.

Mas há situações em que a graça divina opera em nós e por nós além da nossa capacidade de resistência: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim;” (Jo. 6:37a). Isso não significa que essa operação de Deus seja sempre irresistível, mas ela precisa ser irresistível em algum momento, ou não haveria “garantia” de que as palavras de Jesus se cumpririam. Mesmo a doutrina da predestinação não exige que a graça seja sempre irresistível. Basta que a Excelsa Sabedoria use a graça irresistível como e quando necessária para que Seus objetivos sejam alcançados, conhecendo todas as nossas ações e disposições “antes” de nos criar. Nos momentos certos, a graça opera com uma eficácia que nós não controlamos: sem dúvida Ele pode mover nossa própria vontade na direção da nossa salvação (Dt. 30:6; Fp. 2:13), e têm domínio mesmo sobre nossa fé (Rm. 12:3; Fp. 1:29; Tg. 2:5).

Há algumas situações em que a graça de Deus é obviamente resistível e resistida por nós, mas essas situações não fecham a possibilidade da graça irresistivel.

Os sacramentos só fazem sentido se a graça de Deus é resistível. Pois se eles são meios de graça — canais pelos dos quais, segundo a promessa e fidelidade de Cristo, ele se encontra conosco e age em nós —, como insiste a teologia reformada genuína, e se nem todos os que os recebem são tão beneficiados como deveriam, é porque não se apropriaram devidamente do sacramento. Assim, em Cl. 2:12 (cf. Rm. 6:4), se por um lado o Batismo opera em nós o sepultamento da natureza caída, nossa apropriação da ressurreição de Cristo (nossa própria regeneração) se dá “mediante a fé”; se a Eucaristia é a “comunhão no corpo” e “comunhão do sangue” (1Co. 10:16-17), há quem, contra a intenção própria do sacramento, “come e bebe para sua própria condenação” (1Co. 11:29). Uma insistência em fazer da graça sempre irresistível anula a eficácia dos sacramentos. Ainda assim, de certo modo ao menos parte dos benefícios comunicados independe de nossa própria fé: “todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes” (Gl. 3:27) e “somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão” (1Co. 10:17). Não somos capazes de resistir a esses efeitos mais gerais.

As tentações só fazem sentido se a graça de Deus é resistível. O apóstolo Paulo promete aos cristãos coríntios que “Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças” (1Co. 10:13). Ao menos aos cristãos, Deus concede sempre uma medida suficiente de sua graça para que resistamos a toda e qualquer tentação, pois, embora nunca nos tente, Ele nos conduz a tentações — como conduziu Seu Filho pelo Espírito ao deserto — que permanecem debaixo de Seu próprio controle. Assim, temos sempre condições de resistir a qualquer tentação, inexistindo qualquer desculpa para o pecado. Sempre que caímos, sabemos que poderíamos ter feito melhor, e que Deus não é de modo alguma a causa do nosso pecado (Os. 13:9; 1Jo. 2:16). Nossa falha não resulta de uma ausência da operação da graça; a falha é nossa. Por outro lado, sabemos também que nossos pedidos de oração a Deus para que ele nos faça triunfar sobre as tentações só têm sentido se a graça divina é irresistível, se ela prevalece infalivelmente sobre nossa carnalidade no momento da tentação, conduzindo nossa vontade de maneira doce e poderosa; se, em nível último, Deus é poderoso para nos impedir de cair (Jd. 24).

Só há sentido em orar por nossa própria santificação se entendemos que Deus é capaz de nos controlar e de fato o fará; podemos dizer o mesmo sobre a oração pela conversão de outras pessoas, que depende do poder e disposição divinos em mover a vontade dos obstinados, “na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez” (2Tm. 2:25-26; cf. At. 11:28; 16:14). Ademais, mesmo nossas próprias orações dependem da graça divina, pois não sabemos pedir como convém (Rm. 8:26).

As conseqüências para nossa espiritualidade são tremendas, pois tudo isso nos coloca em uma dupla humildade, bem observada por Bossuet — por um lado, sabendo da gravidade do que fizemos ao rejeitarmos ativamente uma graça que estava disponível, e por outro, entendendo que só somos capazes de perseverar graças às forças que Deus nos concede, de que sem Ele nada podemos fazer (Jo. 15:5), desaprovando qualquer orgulho humano. Deus “dá graça aos humildes” (Tg. 4:6). Isso nos comunica um senso genuíno de liberdade restaurada e responsabilidade: todo o bem procede de Deus; de nós somente, todo o mal.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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