Israel e a Igreja

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Um dos problemas centrais no Novo Testamento é a relação entre a Igreja e Israel, entre o povo de Deus no Antigo Testamento e o povo de Deus no Novo. Não é só uma curiosidade escatológica ou eclesiológica; é uma questão eminentemente prática, uma das preocupações fundamentais de textos dos Atos dos Apóstolos e das Cartas Paulinas. A solução desse problema conferiu aos gentios, através da revelação divina, um assento no povo de Deus igual ao dos primeiros convertidos judeus.

Muitas questões levantadas no Novo Testamento — o cumprimento das profecias veterotestamentárias, o Reino de Deus, a missão terrena de Jesus de Nazaré, a soteriologia, a natureza mesma da Igreja — só podem ser bem entendidas à luz desse problema fundamental. Apresentar aqui as linhas gerais de como o Novo Testamento soluciona esse problema, sob certa perspectiva — diferente daquela proposta pelo dispensacionalismo, que considero aberrante ao texto bíblico, resultando no “sionismo cristão”.

Nas Sagradas Escrituras, há dois textos essenciais para a compreensão da relação entre Israel e a Igreja de Cristo: a Parábola dos Lavradores Maus e metáfora da Oliveira e do Zambujeiro em Romanos 11. É curioso como tal tema (o problema e a solução) seja tratado tanto pela tradição sinótica e quanto pelo apóstolo Paulo por meio de uma linguagem simbólica, de imagens poderosas. Os dois textos estão firmemente ligados à tradição profética israelita, que comunicava os oráculos divinos através da linguagem simbólica.


OS LAVRADORES MAUS E A VINHA DO SENHOR
(Mt. 21:33-46 // Mc. 12:1-12 // Lc. 20:9-18)

A versão da Parábola dos Lavradores Maus aqui transcrita é a do Evangelho de São Mateus, por diversos motivos. Embora a parábola seja essencialmente a mesma nos três evangelhos sinóticos, a versão encontrada no Evangelho de Mateus, por ser a maior e mais preocupada com o judaísmo, contém elementos muito importantes. Também o Evangelho de Mateus é o mais sistemático dentre os três sinóticos, norteado pela noção de inserir as narrativas bíblicas dentro de contextos específicos — opção diversa da de Lucas, por exemplo. Isso nos mostra como Mateus interpretava a Marcos.

Assim, a parábola deve ser lida dentro de um contexto narrativo mais amplo, presente nos três evangelhos sinóticos: a chegada de Jesus a Jerusalém. A importância de Jerusalém dentro da teologia bíblica, seja no Antigo Testamento, seja no Novo, é inquestionável. Ela é “a cidade do grande Rei” (Mt. 5:35), é a “cidade santa” (Mt. 5:4).  Ela não é apenas a capital do Israel unificado, mas a representação simbólica de todo o povo israelita, mesmo daqueles que moram foram dela (Gl. 4:21-31). A capital é a cabeça.

Também na profecia messiânica Jerusalém tem um lugar central (Is. 2:3 // Mq. 4:2): de Jerusalém emanaria o reino do Messias. Por isso, a entronização do Messias de Israel deveria se dar em Jerusalém. A entrada de Jesus na cidade é apresentada como cumprimento profético de Zc. 9:9, momento em que o Messias é apresentado à sua nação, guardando também relação mais distante com 1Rs. 1:38-40, quando Salomão é reconhecido como legítimo rei de Israel, contra as pretensões de Adonias.

Em Jerusalém, Jesus desempenha um papel não apenas messiânico, mas também profético, se é que há distinção real. Jesus repete em essência os juízos feitos pela tradição profética israelita contra Jerusalém. Assim como Jeremias, Jesus denuncia o pecado e a infidelidade espiritual de todo o povo hierosolimitano, pronuncia o juízo divino sobre tal pecado e anuncia o cerco de Jerusalém e a dispersão do povo. Assim como Jeremias, Jesus é perseguido pela aristocracia religiosa e levado a responder antes as autoridades civis. Assim como Jeremias, Jesus lamenta a destruição do seu povo.

Mateus 21:33-46
33 Atentai noutra parábola. Havia um homem, dono de casa, que plantou uma vinha. Cercou-a de uma sebe, construiu nela um lagar, edificou-lhe uma torre e arrendou-a a uns lavradores. Depois, se ausentou do país.
34 Ao tempo da colheita, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os frutos que lhe tocavam. 35 E os lavradores, agarrando os servos, espancaram a um, mataram a outro e a outro apedrejaram. 36 Enviou ainda outros servos em maior número; e trataram-nos da mesma sorte. 37 E, por último, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: A meu filho respeitarão. 38 Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; ora, vamos, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança. 39 E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram.
40 Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? 41 Responderam-lhe: Fará perecer horrivelmente a estes malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe remetam os frutos nos seus devidos tempos. 42 Perguntou-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos
43 Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. 44 Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó. 45 Os principais sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, entenderam que era a respeito deles que Jesus falava; 46 e, conquanto buscassem prendê-lo, temeram as multidões, porque estas o consideravam como profeta.

A conexão entre a parábola e o seu contexto é nítida. Ela é um microcosmo da situação: Jesus, no momento mesmo em que pronunciava a parábola, era o Filho enviado à vinha. Deus enviara muitos profetas ao povo, mas eles mataram aos profetas, vindo, por fim, a matar o próprio Filho. O próprio profeta Jeremias repetidas vezes denunciara a rejeição do povo israelita à mensagem dos profetas (Jr. 7:13,25; 11:7; 25:3,4; 26:5; 29:19; 32:33; 35:14,15; 44:4), de modo que a destruição de Jerusalém seria inevitável, não havendo arrependimento. Por isso, em nome de Javé Deus, profetizava: “a vossa espada devorou os vossos profetas como um leão destruidor” (Jr. 2:30c), como censuraria depois o próprio Jesus (parte do mesmo contexto mais amplo do confronto com Jerusalém): “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!” (Mt. 23:37).

A reprovação aos vendilhões no Templo (Mt. 21:12,13), que antecede a Parábola dos Lavradores Maus, é uma contraposição entre Is. 56:7 (como deveria ser o Templo no cumprimento profético) e Jr. 7:11, em clara condenação aos moradores da cidade. Quando Jesus anuncia posteriormente a destruição de Jerusalém e a fuga dos que estão na Judeia (Mt. 24:15-22), repete em parte algo que Jeremias já havia feito (e.g. Jr. 4:6; 6:1).

A profecia de condenação, entretanto, não significava uma simples rejeição do povo judeu. De fato, o próprio Jeremias já havia predito o retorno do exílio e a restauração da glória passada. Tudo dependeria da conversão de Israel, e por isso esse retorno deve ser encarado sob a concepção de remanescente. A profecia de retorno de Jr. 3:14-18 claramente nos diz que, com o retorno do povo a Jerusalém (a um de uma cidade e a dois de uma geração, v. 14), também os gentios (as nações) se ajuntariam a Jerusalém. Isso é parte do tema messiânico: o povo judeu deveria ser luz para as nações, os responsáveis por levar a todos os povos o conhecimento de Javé e Sua aliança. Com a conversão de Israel, se poderia dizer sobre o seu Deus: “nele se bendirão as nações e nele se gloriarão” (Jeremias 4:2; cf. 16:19-21). A conversão dos gentios se seguiria à conversão dos judeus.

A vinha, na Parábola dos Lavradores Maus, é naturalmente a nação de Israel. A origem é Isaías 5:

Isaías 5:1-7
1 Agora cantarei ao meu amado o cântico do meu querido a respeito da sua vinha. O meu amado tem uma vinha num outeiro fértil. 2 E cercou-a, e limpando-a das pedras, plantou-a de excelentes vides; e edificou no meio dela uma torre, e também construiu nela um lagar; e esperava que desse uvas boas, porém deu uvas bravas.
3 Agora, pois, ó moradores de Jerusalém, e homens de Judá, julgai, vos peço, entre mim e a minha vinha. 4 Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? Por que, esperando eu que desse uvas boas, veio a dar uvas bravas?
5 Agora, pois, vos farei saber o que eu hei de fazer à minha vinha: tirarei a sua sebe, para que sirva de pasto; derrubarei a sua parede, para que seja pisada; 6 E a tornarei em deserto; não será podada nem cavada; porém crescerão nela sarças e espinheiros; e às nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela. 7 Porque a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta das suas delícias; e esperou que exercesse juízo, e eis aqui opressão; justiça, e eis aqui clamor.

A parábola enunciada por Jesus é claramente derivada do cântico de Isaías. A diferença está na presença dos lavradores, mudando parte do sentido da parábola. No cântico de Isaías, a própria vinha é condenada por não produzir frutos; na parábola de Jesus, os lavradores são os responsáveis pelos frutos da vinha, sendo assim os condenados, enquanto a própria vinha é passada a outros lavradores. De certo modo, Jesus responde à pergunta feita no v. 4: Por que vieram uvas bravas? A culpa é dos lavradores.

A Parábola nos informa muito sobre a interpretação da própria morte de Jesus de Nazaré. Ela nos diz sobre os responsáveis pela morte de Jesus, que são os mesmos a quem Deus constituiu como os responsáveis por cuidar de Israel. São “os principais dos sacerdotes e os fariseus” (Mt. 21:45), aqueles que questionaram a autoridade de Jesus anteriormente (21:23-27), provocando a Parábola. Em contrapartida, Jesus não questionou a autoridade deles, senão apenas seu comportamento; ele os reconhece como lavradores constituídos por Deus a serem obedecidos pelo povo (23:1-3). A Parábola condena aos líderes que deveriam dele zelar pelo povo como pastores (cf. Jr. 5:5; 10:21; 13:13; 23:1). Assim: “Muitos pastores destruíram a minha vinha, pisaram o meu campo; tornaram em desolado deserto o meu campo desejado.” (Jr. 12:10).

Mas a autoridade deles finda: o Reino de Deus lhes é tirado e dado a outros lavradores, a outro povo. A vinha permanece! Diferentemente do cântico de Isaías, a aqui vinha não é destruída. Os novos lavradores trabalham sobre a mesma vinha anterior. Isso significa, inequivocamente, que os apóstolos de Jesus, a quem as chaves do Reino foram confiadas (Mt. 16:18,19; 18:18) trabalham sobre a vinha anterior, sobre a vinha de Israel. Isso significa que todos os israelitas são parte do povo de Deus, mudando apenas seus líderes. Mas como isso pode ser, se nem todos os israelitas estão sob a autoridade apostólica? A resposta depende do texto seguinte.

A OLIVEIRA E O ZAMBUJEIRO
(Rm. 11:15-24)

O capítulo 11 da Carta aos Romanos está em um contexto maior, iniciado no capítulo 9. O texto dos capítulos 9 a 11 é demasiado longo para ser aqui reproduzido. É imprescindível sua leitura minuciosa, assim como a comparação com os trechos correlatos em Gálatas. O texto em geral tem ao menos duas motivações. A primeira delas se encontra no começo (9:1-5): o lamento de São Paulo pela obstinação dos judeus, apesar de tantas promessas e dádivas divinas ao povo. Por outro lado, São Paulo temia que os gentios se jactassem contra os judeus (11:18). Os três capítulos devem ser lido à luz do fato de que o povo israelita não se converteu maciçamente à mensagem pregada pelos apóstolos; os gentios, pelo contrário, estavam se convertendo, em número que rapidamente superou o tamanho da nação judaica.

Todo o texto é uma exposição sobre a ligação entre a doutrina da eleição e o conceito de remanescente. Como dito por Jeremias, o povo de Israel deveria se converter no exílio, e seu remanescente santo retornaria à Terra Santa. Através da conversão desse remanescente, todas as nações seriam levadas até Javé. O remanescente santo aparece em diversos textos proféticos (cf. Ez. 6:8; Mq. 4:6-8; 5:7; Sf. 3:12,13,20): são os sobreviventes da juízo divino (Ed. 9:13-15; Jr. 42:2), sobre os quais se cumpre a fidelidade de Javé Deus para com a sua aliança.

Devemos entender que o juízo divino não se limita a setenta anos profetizados (Jeremias 25:11; 29:10). De fato, o Exílio não terminou com o retorno do povo israelita à sua terra, como Jeremias pareceu ter predito. Posteriormente ao Cativeiro Babilônico, o povo israelita foi dominado por muitas nações estrangeiras, e finalmente pelo Império Romano, na época de Jesus. O cativeiro duraria sete vezes mais (Daniel 9:1-3,24). As profecias de Daniel falam por duas vezes de quatro impérios (Daniel 2:31-45; 7:ff). O fim do quarto império significaria finalmente a vitória do Reino de Deus, entregue ao “povo santo do Altíssimo” (Daniel 7:27). Em tudo isso se deve entender que o retorno do Cativeiro não era simplesmente uma ação profética divina, mas estava diretamente atrelado à conversão do povo.

Por isso, ao tratar do remanescente, São Paulo não está simplesmente repetindo um tema profético passado e já cumprido séculos antes; pelo contrário, ele mostra o cumprimento da profecia em seu próprio tempo. O remanescente era aquele povo judeu que, em sua própria época, se convertia ao Messias através da pregação dos apóstolos.

De que modo isso soluciona a questão entre a Igreja e Israel? Através da doutrina da eleição. “Nem todos os que são de Israel são israelitas” (Rm. 9:6), afirma São Paulo repetindo um tema anterior na mesma carta: o judeu não é judeu exteriormente, mas interiormente (2:25-29). São Paulo exemplifica isso através de Isaque e de Jacó, que eram filhos de Deus porque através deles se cumpria a promessa divina, em oposição a Ismael e Esaú, que eram igualmente filhos da carne (Rm. 9:7-13). O que define o verdadeiro israelita é ser um filho da promessa; o mesmo tema aparece em Gl. 3:29, lido em seu contexto. Os vasos da misericórdia de Deus, chamados dentre os judeus segundo a carne, são os verdadeiros filhos da promessa, eleitos segundo a graça de Deus (Rm. 11:5; cf. 9:24).

Romanos 11:15-24
15 Porque, se o fato de terem sido eles rejeitados trouxe reconciliação ao mundo, que será o seu restabelecimento, senão vida dentre os mortos? 16 E, se forem santas as primícias da massa, igualmente o será a sua totalidade; se for santa a raiz, também os ramos o serão.
17 Se, porém, alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo oliveira brava, foste enxertado em meio deles e te tornaste participante da raiz e da seiva da oliveira, 18 não te glories contra os ramos; porém, se te gloriares, sabe que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz, a ti. 19 Dirás, pois: Alguns ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado. 20 Bem! Pela sua incredulidade, foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não te ensoberbeças, mas teme. 21 Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não te poupará.
22 Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado. 23 Eles também, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para os enxertar de novo. 24 Pois, se foste cortado da que, por natureza, era oliveira brava e, contra a natureza, enxertado em boa oliveira, quanto mais não serão enxertados na sua própria oliveira aqueles que são ramos naturais!

Assim, as promessas divinas feitas a Abraão e à sua descendência se cumprem não sobre todo o Israel segundo a carne, mas sobre o “Israel de Deus” (Gl. 6:16) — não sobre o “Israel segundo a carne” (1Co. 10:18). Esse Israel de Deus inclui aos gentios. São Paulo o explica de várias formas em vários textos: em Gl. 3, ele nos diz que todos os batizados estão em Cristo, que é a verdadeira descendência de Abraão; assim, todos são Israel porque estão em Cristo, que é o verdadeiro Israel.

Em Rm. 11, a explicação se dá através da parábola da Oliveira e do Zambujeiro (ou Oliveira-Brava). A analogia entre Israel e uma Oliveira já havia sido feita pelo profeta (Jr. 11:16). A semelhança entre esse texto de Romanos e a Parábola dos Lavradores Maus é notável: novamente estamos tratando de Israel, e novamente temos uma substituição. De um lado, os lavradores (pastores) são substituídos; neste caso, temos a substituição de judeus incrédulos (ramos quebrados da oliveira) por gentios crentes (ramos enxertados da oliveira-brava). Mas a oliveira permanece. A salvação dos gentios é sua inserção na mesma oliveira na qual estavam inseridos os primeiros judeus; trata-se do mesmo que se encontra, por exemplo, em Ef. 2:11-22. Não há, portanto, diferença entre judeu e grego (Rm. 10:12; cf. Fp. 3:3).


SOBRE AS PROMESSAS DIVINAS

Nisso pode-se colocar e responder a uma importante questão: se lemos em Mt. 28:19 (ou Lc. 24:47) que Jesus ordenou a todos os discípulos pregar entre todas as nações, por que eles não o fizeram imediatamente? Por que se limitaram a pregar entre os judeus e samaritanos, que eram também, ao menos do ponto de vista da circuncisão, judeus)?

Duas respostas (insatisfatórias) foram dadas: uma resposta comum nos diz que os apóstolos simplesmente não entenderam aquilo que Jesus os havia mandado fazer (assim como nunca entendiam perfeitamente aquilo que os dizia). A resposta liberal é de que, pelo contrário, o Evangelho de Mateus fora escrito quando os gentios já haviam sido convertidos, e, por isso, não se trataria de uma palavra realmente dita por Jesus, mas de uma reflexão por parte da Igreja inserida na boca de Jesus pelo evangelista.

As duas respostas são, em primeiro lugar, hipotéticas. Uma terceira resposta, proposta por Joachim Jeremias e G. B. Caird, é muito mais coerente com o contexto pós-pascal. Como dito acima, a conversão dos gentios deveria se dar posteriormente à conversão dos judeus. Diante disso, é natural que os apóstolos esperassem que primeiro o povo de Jerusalém se convertesse diante de sua pregação, para que, através dos judeus, as outras nações andassem à luz do Messias (cf. Zc. 8:23). Antes da conversão dos gentios deveria ocorrer o retorno da glória de Jerusalém, que ainda estava sob o jugo romano  — cativa, portanto. Até aquele momento, somente os convertidos ao judaísmo, prosélitos, seriam evangelizados.

Entretanto, a glória de Jerusalém já havia vindo. Os cristãos não esperam a glória da Jerusalém terrena, mas são filhos da Jerusalém celeste (Gl. 4:21-31), na qual  entraram (Hb. 12:18-24). Em Cristo todos nós somos judeus sobre os quais se cumprem as promessas divinas.

Os dispensacionalistas constantemente enfatizam as diferenças entre as promessas do Antigo Testamento e as do Novo. Dizem que Deus prometeu a Israel a terra e à Igreja o céu, de modo que suas promessas ainda deveriam se cumprir sobre o Israel segundo a carne (ignorando que o único Israel é o Israel segundo a graça). Na realidade, isso não é tão simples assim. De fato, há diferença entre as promessas, e as do Novo Testamento são melhores (Hb. 8:6). Mas a principal promessa de Deus seria de que aqueles que estiverem sob o seu Concerto seriam seu povo, e Ele seu Deus (Êx. 6:7; Lv. 26:12; Dt. 7:6; 14:2; 26:19; 27:9; 28:9; 29:13). É sobre essa promessa que se funda a conversão dos gentios, na citação de Os. 1:10; 2:23, que em Rm. 9:25-26 São Paulo aplica aos gentios.

Deus prometeu aos judeus e aos cristãos um reino. São Paulo é claro: Abraão seria herdeiro do mundo, e os herdeiros dessa promessa são tanto os circuncisos quanto os incircuncisos, desde que crentes em Jesus; a promessa aguardada pelos santos do Antigo Testamento apontava para “a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hb. 11:10), que é a Jerusalém Celestial à qual chegamos pela fé (Hb. 12:22-23).

Embora possamos dizer que a Igreja substituiu a Israel, assim como os ramos do Zambujeiro substituíram os da Oliveira, é mais exato dizer que a Igreja é uma renovação em Israel, como Congregação do Messias, como Cidade Celestial preparada por Deus. Como Israel de Deus, a Igreja cumpre as profecias do Antigo Testamento, sendo, nas palavras de São Tiago, o tabernáculo reedificado de Davi (At. 15:16).

Rev. Gyordano M. Brasilino

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