Mesa ou Altar?

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Celebratio autem huius sacramenti… imago est quaedam repraesentativa passionis Christi, quae est vera immolatio. ST III, q83, a1, co.

A fala é um presente maravilhoso de Deus. O primeiro capítulo do Gênesis, o mesmo que nos conta sobre a Criação do Homem à imagem de Deus, apresenta a Deus trazendo a existência uma diversidade de coisas no universo com sua Palavra Criadora. Nos capítulos seguintes, a narrativa da Queda do Homem nos surpreende com uma serpente que não apenas fala, mas também usa as palavras para enganar e confundir, levando o homem à ruína. Bênção e maldição, nossas palavras podem criar um mundo fictício no qual nos prendemos. A Sagrada Escritura nos adverte, clara e distintamente, contra “contendas de palavras” e “porfias” (Gl. 5:20; 1Tm. 6:4).

Se há uma discussão inútil, é aquela entre certos católicos romanos e certos protestantes, acerca do nome que dão ou deve-se dar a certo “objeto litúrgico”: altar ou mesa?

O que está em jogo não é apenas o “nome”, alegarão, pois essas palavras têm sentidos diferentes e conduzem a teologias e práticas antagônicas. Na mesa, partilhamos entre nós e nos alimentamos; no altar oferecemos a Deus e entregamos. A mesa é uma realidade deste mundo, ao passo que o altar sinaliza o transcendente e eterno. Trata-se de uma distinção verdadeira, porém inútil se aplicada à liturgia cristã e especialmente à Eucaristia, na qual ambas as coisas são feitas: ao mesmo tempo entregamos algo a Deus (afinal, tudo o que fazemos na liturgia é entrega a Deus) e partilhamos entre nós. Há tanto uma realidade espiritual e transcendente quanto humana e terrena na função da mesa-altar, e há talvez um certo nestorianismo litúrgico em tentar separar aquilo que Deus uniu.

Ambos os nomes encontram amparo no uso das Sagradas Escrituras, que falam tanto da “mesa do Senhor” (1Co. 10:21) quanto do “altar” no qual comemos (Hb. 13:10). Curiosamente, “mesa do Senhor” também é o nome que certa mesa de sacrifício no Antigo Testamento (cf. Ml. 1:7,12). É relevante também levar em conta que, desde o princípio, os pais da Igreja já falavam tanto em “mesa” quanto em “altar”.

O debate se torna especialmente inútil quando se volta para o material adequado para o objeto, sob alegação de que altar exige pedra e mesa exige madeira. Embora nossa tradição cultural e nosso costume religioso possam influenciar no modo como identificamos esses objetos, fato podemos facilmente imaginar um “altar de madeira” (Ez. 41:22), e conhecemos muito bem mesas de pedra. É pura pirraça.

A alegação de certos protestantes tem algum peso. A palavra “altar” indica sacrifício, e, em grego (no de Hb. 13:10!), thysiatērion seria propriamente um “sacrificiatório”, um lugar de (realizar) sacrifício. Porém Cristo realizou um sacrifício único, de uma vez por todas, na Cruz (Hb. 9:25-26; 10:10-11), de modo que o que se celebra sobre a mesa não poderia ser chamado de sacrifício, ou ao menos não um sacrifício no mesmo sentido que o de Cristo. Por outro lado, sabemos, sem dúvida, que Cristo instituiu a Eucaristia em uma mesa, a mesma em que comeu a Páscoa, a julgar pelos Evangelhos Sinóticos. Mesa não seria preferível?

O sacrifício de Cristo foi realizado por nós de uma vez por todas – eis uma verdade plena, absoluta e gloriosa. No entanto, nada impede que se chame a Eucaristia de sacrifício, com base naquilo que o próprio Cristo disse: isto é o meu corpo, isto é o meu sangue. Não se trata de um novo sacrifício, como se fosse necessário ou possível acrescentar algo ao sacrifício suficiente e perfeito realizado na Cruz do Gólgota. Trata-se, antes, de nossa própria recepção daquele sacrifício, que se coloca diante de nós como imago repraesentativa passionis Christi. Não é outro corpo, outro sangue, outro sacrifício, mas o mesmo corpo, o mesmo sangue, o mesmo sacrifício.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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