Onde estiver o Espírito, ali estará a Igreja: Um elogio do movimento carismático.

“Não apagueis o Espírito.” I Ts. 5:19

O século XX mudou o panorama da cristandade de maneira dramática graças ao surgimento do movimento carismático. O movimento não perdeu seu vigor, embora tenha constantemente se adaptado e mudado de ênfase. Qualquer argumento ou crítica que se faça ao carismatismo não pode ignorar que ele foi uma força poderosa na revitalização de um número incontável de comunidades e a uma vivência mais profunda, viva e fervorosa da fé cristã, assim como a possibilidade de novos modelos de missão. Do ponto de vista teológico e doutrinal, o movimento provoca, mesmo em seus adversários, uma preocupação maior e mais saudável com a reflexão acerca da pessoa e ação do Espírito.

Tudo isso provoca uma percepção mais viva da relação entre o Espírito Santo e a Igreja, sendo esta o templo do Espírito, o lugar onde as realidades espirituais e transcendentes se fazem presentes aqui e agora, e de como a ação do Espírito, de maneira inexplicável, nos une e nos move para viver o Reino de Deus. Escrevendo no século II, Santo Irineu de Lião expressa memoravelmente essa idéia: “Pois onde estiver a Igreja, lá está o Espírito de Deus, e onde estiver o Espírito de Deus, ali está a Igreja, e todo toda sorte de graça; mas o Espírito é a verdade.” (Contra as Heresias, III, 24, 1)

Ubi Spiritus, ibi Ecclesia — onde estiver o Espírito, ali estará a Igreja. Esse princípio indica uma maneira maravilhosa de enxergarmos a Igreja, a despeito da divisão visível entre os cristãos. Onde quer que o Espírito esteja presente, ali está a Igreja. Isso significa que onde quer que haja o sofrimento pelo nome de Cristo, ali está a Igreja, pois esse é um sinal do Espírito (1Pe 4:14). Significa que onde quer que o nome de Cristo seja confessado e que se testemunhe a respeito dele, ali está a Igreja, pois esses são sinais do Espírito (1Co. 12:3; cf. Jo. 15:16). Significa que onde quer que haja o amor a Deus, ali está a Igreja, pois esse é um sinal do Espírito (Rm. 5:8). Significa também, como pentecostais e carismáticos gostam de lembrar, uma variedade de dons e manifestações sobrenaturais também são sinais do Espírito — indicando que ali também está a Igreja.

Esse princípio não é absoluto, não nos diz nada sobre quem não é cristão: ainda somos parte da Igreja quando não sofremos por Cristo, quando negamos o seu nome, quando não amamos, quando não falamos em línguas, quando vivemos como um filho morto. Mesmo contra a intenção original de Santo Irineu, esse princípio nos desafia a ver a Igreja de Cristo, a Igreja do Espírito, em comunidades com as quais, por motivos históricos justos e nefastos, estejamos separados, e nos leva a questionar as razões para ausência de comunhão visível entre nós. Afinal, o que é a Igreja, senão a comunhão no Espírito, com tudo o que ela oferece?

Um outro princípio disputou espaço no mistério da Igreja: ubi Episcopus, ibi Ecclesia — onde estiver o bispo, ali está a Igreja —, advogado por Santo Inácio de Antioquia. Esse princípio encontra na hierarquia da Igreja o sinal objetivo de unidade do corpo de Cristo. Sem dúvida Irineu não era contra esse segundo princípio, e grande parte de sua obra é uma defesa dele em outros termos. As duas preocupações são legítimas: a de não confundir qualquer vento de doutrina com o Sopro do Espírito, o que exige continuidade, tradição, estrutura, regras, costumes, que sedimentem na família da fé o senso de preservação do depósito da fé, do tesouro de Cristo. Mas esse segundo princípio também não esgota o mistério da Igreja; ele é, de certo modo, desestabilizado pelo primeiro. Os dois princípios não são inimigos: a figura pastoral e episcopal, que simboliza a unidade da Igreja, é um dos dons que o Espírito concede à Igreja, de maneira que tudo se reduz à ação do Espírito na história.

O Espírito Santo é tanto libertador (2Co. 3:17) quanto ordenador (1Co. 14). Não se deve ver o Espírito como inimigo da ordem, embora ele sempre desafie a ordem meramente humana que se colocar contra o Reino de Cristo. Ele também não é contrário à mudança, sem dúvida! Nem a liberdade nem a ordem valem coisa alguma em si mesmas, se não estiverem inteiramente alinhadas à visão de Deus para a Igreja.

O movimento carismático, no seu desenvolvimento muito mais do que na sua doutrina, atrai a atenção dos cristãos para uma nova realidade eclesial que demandou uma nova eclesiologia, mais abrangente, pois ele realizou a grande façanha de borrar as barreiras entre as diversas comunidades de fé, suavizando as transições entre tradições tão diferentes e facilitando o aprendizado mútuo. Pois o movimento carismático criou espaços onde um mesmo tipo de experiências é vivenciado, obrigando à mudança de foco do dogma para a experiência, pois o dogma separa e a experiência comum une, o que nos leva a refletir sobre se as diferenças entre nós são tão grandes quanto parecem. Não me levem a mal: amo os dogmas da fé cristã, mas há muito mais. A experiência espiritual nos abre para o que transcende nossa síntese, nosso sistema.

Há alguns meses, em um momento de aconselhamento de uma família acerca do batismo dos filhos, o testemunho de uma pessoa me chamou a atenção. Ela vinha de uma tradição evangélica onde o batismo de crianças não era praticado. Nesses ambientes, a prática é vista como incorreta, contrária às Escrituras e tudo mais. Mas ali estava uma pessoa que nunca tivera nenhuma aula sobre o batismo de crianças, que tinha todos os motivos para ser contra e, contudo, procurou o batismo dos filhos voluntariamente! Quando perguntei sobre os motivos, ela contou sobre a transição de igrejas, mas uma palavra simples permanece comigo: “Aqui eu também sinto a presença do Espírito Santo.” Eu mesmo não tenho nenhuma sensibilidade para essa linguagem carismática do “sentir”, mas essas palavras disseram muito. Aquilo que, em eras passadas, seria um grande impedimento deixou de ser, porque havia uma mesma vivência, uma mesma experiência, em comunidades muito diferentes.

O movimento reimbuiu de significação espiritual certas práticas antigas. Os evangélicos mais antigos eram céticos com relação, por exemplo, à idéia da recepção do Espírito a partir da imposição de mãos, chamada de Crisma ou Confirmação em tradições anteriores, e que tem muita razão nas Sagradas Escrituras (At. 8:17; 19:6). Os pentecostais e carismáticos reabilitaram a prática, de certa maneira, ainda que com uma teologia distinta. O mesmo com a unção dos enfermos (Tg. 5:14-15). Em comunidades onde a prática já existia, tornou-se mais clara a necessidade de não apenas receber certos ritos, mas de exercitar uma fé viva e de buscar uma experiência daquilo que é significado.

Por isso, embora o movimento do Espírito tenha produzido novas denominações, tenha levado a cismas e produzido uma verdadeira bagunça, a grande realidade é que ele tornou muito mais parecido aquilo que era diferente, pois ele se tornou muito mais visível por ter crescido em tradições que lhe antecedem: metodistas, batistas, católicos romanos, anglicanos, luteranos, com influência mútua.

O movimento carismático é cheio de perigos. De um lado, a desordem doutrinal (e até indiferença doutrinal); de outro, a desordem litúrgica e comunitária. Essas duas desordens provocam temor e ceticismo naqueles cuja posição depende da ordem doutrina ou eclesiástica, e com razão. Por vezes até, a experiência carismática é vista como um “extra”, como algo a ser adicionado a Cristo, quando na realidade, nas Escrituras, todos os sinais do Espírito apontam para o próprio Cristo.

Eu creio que o movimento carismático é parte da resposta de Deus para a falta de unidade visível entre os cristãos. Enquanto o movimento ecumênico procura a unidade sem uniformidade, o carismatismo na realidade produziu um tipo de uniformidade que facilitou o amor pelo semelhante. Trata-se, portanto, de uma grande força ecumênica, se levada na direção correta, a direção que Deus tem soprado. Cabe a nós não extinguir o Espírito.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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