A Nova Perspectiva sobre Paulo

Um dos desenvolvimentos mais interessantes e importantes da teologia protestante na segunda metade do século XX é a Nova Perspectiva sobre Paulo, uma proposta de correção de certas leituras da teologia do apóstolo acerca da justificação e temas conexos. De acordo com essa releitura, a doutrina paulina da justificação pela fé não procura responder à pergunta “Como encontramos salvação?”, mas sim “Como sabemos quem é parte da comunidade ou não?”. O debate entre Paulo e seus críticos seria diferente daquele entre Santo Agostinho e seus críticos, ou entre Lutero e seus críticos.

O melhor exemplo disso talvez seja Gálatas 2, primeiro texto paulino em que o tema da justificação aparece, e onde o problema principal é eclesiológico: os gentios convertidos e não observantes da Lei Mosaica são membros da mesma comunidade redimida que os judeus convertidos. O discurso paulino acerca da (ou contra a) “Lei” não é uma crítica aos moralistas judaizantes que buscam receber salvação pelo mérito de suas boas obras em obediência à Lei, mas sim contra os nacionalistas judaizantes que procuram limitar a comunhão cristã àqueles que obedecem às prescrições judaicas acerca da circuncisão, sábados e alimentos puros (as “obras da Lei”, erga nomou): todo gentio deveria se tornar judeu para ser cristão, algo inaceitável para Paulo.

Embora o bispo N. T. Wright tenha se tornado o articulador mais famoso da Nova Perspectiva, o grande iniciador foi James G. Dunn, que procurou reler o apóstolo Paulo à luz de uma nova perspectiva sobre o judaísmo colocada por E. P. Sanders: o judaísmo (e o judeo-cristianismo) não era uma religião de salvação por méritos de obras, mas era, em grande parte, uma religião de limites sociais claros e de salvação coletiva. A resposta paulina seria de que que os verdadeiros limites da comunidade redimida (a Igreja) estariam na pistis Christou — na fé em Cristo (Dunn) ou na fidelidade de Cristo (Wright) —, e não na observância da Lei. Deus não é Deus somente de judeus, mas também de gentios (Rm. 3:28-30).

Por si só, essa recolocação da teologia paulina não nos dá nenhuma soteriologia, e muito menos uma soteriologia sistemática, mas sem dúvida ela ataca várias bases para um certo tipo de soteriologia protestante. É importante entender que a Nova Perspectiva sobre Paulo não é Teologia Sistemática, e muitas confusões já foram feitas, de ambos os lados, quando a distinção não foi observada. Trata-se de um esforço de Teologia Bíblica, não Teologia Sistemática. Teologia Sistemática é uma exposição acadêmica e sincrônica do discurso doutrinal da Igreja a partir de conceitos herdados da Tradição (Trindade, hipóstase, sacramento, etc.) e em busca de seus fundamentos na Revelação divina — nas Sagradas Escrituras, tratando-se de Teologia Sistemática de linha protestante. Teologia Bíblica, por sua vez, é uma exposição do discurso, pensamento e desenvolvimento (diacronia) de cada autor bíblico, segundo os temas que ele mesmo coloca e observando especialmente suas particularidades, sem a necessidade de integrá-lo à doutrina histórica da Igreja.

Embora ambas usem a Sagrada Escritura como fonte, as duas teologias fazem perguntas diferentes ao texto, como se a Teologia Bíblica se preocupasse em criar as peças de mosaico e a Teologia Sistemática em montá-lo. A distinção às vezes é exagerada, especialmente por amantes da Teologia Bíblica, como se a Sistemática fosse sempre um esforço deletério para a pluralidade das Sagradas Escrituras; não precisa ser assim. Esse exagero apóia-se no fato de que os teólogos sistemáticos freqüentemente fazem leituras pobres dos textos das Sagradas Escrituras, visando apenas fundamentar certos dogmas ou propostas teológicas. Mas, como em tudo mais, generalizar tem seus riscos.

A distinção é importante porque a Nova Perspectiva não é uma doutrina. Traduzi-la em Teologia Sistemática dá bastante trabalho, mesmo porque “justificação” não é um tema universal nas Escrituras.

Os eruditos ligados à Nova Perspectiva já foram atacados de muitas coisas. Diz-se que o bispo N. T. Wright nega a Substituição Penal. Eu mesmo sou um crítico da teoria da Substituição Penal — cujo erro está apenas na parte “Penal” —, e gostaria que N. T. Wright estivesse mais do meu lado, mas não está. Sem dúvida ele não dá importância exclusiva à Substituição Penal dentro da dinâmica da salvação, incorporando outros temas, mas também não a nega. Faz coro com os reformados ao afirmar que o Filho de Deus recebeu a ira do Pai — coisa que não se encontra nas páginas das Sagradas Escrituras e que, do ponto de vista cristológico, só é possível para nestorianos. Ironicamente, ele segue uma tendência parecida à do próprio Lutero, que considerou o tema da vitória (Christus Victor) o tema principal, e a noção de satisfação (Substituição) um tema secundário, como o reformador nos explica no Segundo Sermão sobre Lucas 24:36-47. O que N. T. Wright fez, isso sim, é negar que a justificação seja apenas a recepção da Substituição Penal; ele sabe, muito bem, que a justificação é mais ampla e envolve também a Ressurreição do Filho de Deus.

Diz-se também que a Nova Perspectiva defende salvação pelas obras. O que ocorre é que N. T. Wright não tem nenhum pudor em abraçar os textos em que o apóstolo Paulo expressa a doutrina judaica, cristã e bíblica sobre um Juízo Final segundo as obras. Em lugar algum das Sagradas Escrituras esse juízo recebe o tratamento de um plano A abandonado. Mas isso não é novidade da NPP, pois é um traço bem representado na tradição reformada (inclusive na CFW e suas filhas), está no Credo Atanasiano (que luteranos e anglicanos dizem afirmar como fé católica) e sobretudo está no Novo Testamento. O que ocorre é que a teologia sistemática protestante (especialmente do lado reformado) sofreu uma simplificação grotesca nos últimos séculos, e muito se perdeu no caminho; idéia de que a fé justificada é sempre fé viva e amorosa está lá em Lutero e em Calvino (leia-se seus comentários sobre Gl. 5:6), mas foi perdida por vários de seus seguidores. A Nova Perspectiva não apenas salva o que se perdeu, mas recoloca a coisa toda em bases mais firmes. Mas mesmo os críticos da Nova Perspectiva se beneficiaram dessa reapropriação. John Piper, que se envolveu em um debate com N. T. Wright, afirma que seremos julgados por nossas obras e teremos um destino eterno correspondente a elas (leia aqui e aqui).

Outras críticas à Nova Perspectiva, no entanto, são verdadeiras. Sem dúvida nega-se a doutrina da Imputação da Justiça de Cristo. Mas vários dos críticos da Nova Perspectiva também a negam. Mark Seifrid, um desses críticos, considera a noção de imputação como desnecessária para a doutrina protestante da justificação, como deficiente, como uma substituição das categorias bíblicas por outras.

Percorrendo as páginas das Sagradas Escrituras, jamais se encontra a noção de que a justiça de Cristo é imputada ao pecador. Diz-se que Cristo é nossa justiça (1Co. 1:30) ou que que em Cristo somos feitos a justiça de Deus (2Co. 5:21), mas sem menção de imputação. Em versões protestantes mais recentes, a “imputação” só aparece em Romanos 4:3-11 — e verter logizomai como “imputar” tem seus problemas —, mas nada no texto diz que a justiça de Cristo é “imputada” ao crente, mas sim que a fé é “imputada” como justiça. O apóstolo menciona a justiça de Deus, não a justiça de Cristo (Rm. 1:17,32; 3:5,21-22,25; 10:3; 2Co. 5:21). Sem dúvida essa justiça vem a nós exclusivamente pelo que Cristo fez por nós e é recebida pela fé (Gl. 3:21; Fp. 3:9); se a imputação significa isso e apenas isso, então nenhum cristão discorda dela. Não basta dizer que pela fé em Cristo (ou fidelidade de Cristo) recebemos o perdão dos nossos pecados e a salvação?

É importante distinguir também entre a proposta geral da Nova Perspectiva e as interpretações de seus expositores. Eu mesmo considero insustentável a leitura do bispo Wright de diversos textos das Sagradas Escrituras. Mas na exposição geral, penso que ele tem razão. Ademais, ele já declarou muitas vezes a necessidade tanto da Antiga Perspectiva quanto da Nova.

Eu vejo dois benefícios imediatos na Nova Perspectiva. O primeiro é fornecer uma leitura da teologia paulina que não agride o restante do Novo Testamento. Freqüentemente os debates sobre justificação fazem uma oposição desnecessária entre Paulo e Tiago ou entre Paulo e o Cristo dos Evangelhos Sinóticos, tudo por se supor que, para Paulo, a salvação se fundamenta apenas na justificação pela fé. Cristo seria o supremo legalista quando, em Lc. 10:25-28 — no Evangelho de Lucas, tão paulino! —, ensina ser necessário amar a Deus e ao próximo para se herdar a vida eterna. De fato, na teologia paulina não há salvação sem mortificação e sem a semeadura no Espírito (Rm. 8:13; Gl. 6:8), e a ironia providencial é de que essa verdade seja testemunhada em Romanos e em Gálatas. Não somos salvos pelas obras, mas para as obras, como corretamente observa a Antiga Perspectiva (Ef. 2:8-10); mas sem o “para as obras” não há salvação. Não é um efeito colateral. E a Nova Perspectiva fortalece o senso de unidade da Revelação.

O segundo benefício é ecumênico. Pois, por um lado, o significado imediato da Nova Perspectiva é o de que todos aqueles que confessam que Cristo é Senhor são igualmente membros da comunidade redimida, são igualmente partes da Igreja, tendo todos sido batizados no mesmo Cristo, o que elimina, por exemplo, certos sectarismos evangélicos. Por outro lado, a Nova Perspectiva permite ver com maior clareza o modo como Paulo integrou o tema das obras na salvação, facilitando o diálogo da teologia protestante com outros ramos do cristianismo.

Percebo que, com o passar dos anos, o bispo N. T. Wright tem sido cada vez mais cuidadoso com a linguagem que emprega com respeito às tradições luterana e reformada — tem evitado, consistentemente, ataques generalizantes contra os Reformadores ou contra os reformados. Creio que isso resulta do engajamento com seus críticos e da percepção de que as tradições protestantes eram mais ricas do que ele imaginaria, mas também mais ricas do que seus defensores atuais imaginam.

Rev. Gyordano M. Brasilino

3 comentários em “A Nova Perspectiva sobre Paulo

  1. Descobri seu blog ontem e gostei muito do seu material.
    Esse artigo terá mais conclusões sobre N. T. Wright a partir de seu livro: o dia em que a revolução começou.
    Gostaria de ler sua opinião a respeito e ter contato posterior.

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    1. Olá, Davi. Fico feliz que o blog agradou. O livro “O dia em que a revolução começou” não está restrito à Nova Perspectiva, mas constrói a teologia da morte/ressurreição (“expiação”) de Cristo a partir (também) dos Evangelhos. Eu vejo algumas falhas no modo como ele faz isso. É um equívoco associar a morte de Cristo à ira de Deus.

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      1. Pelo que entendi, a ira de Deus é o zelo dEle pelo destino de sua criação sendo condenada à vaidade pelo pecado.
        Na cruz, segundo Wright, Jesus toma sobre si os poderes do mal e do pecado a fim de derrota-los. O povo de Israel é um povo redentor, e a Lei é o meio pelo qual o pecado e mal convergiriam sobre o Messias, para que todas as famílias da terra fossem abençoadas.
        Se tiver mais algum material a respeito, gostaria que me sugerisse, bem como sua perspectiva.
        Att,

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