Cristo e o Mundo da Inveja

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“Pois ele bem percebia que por inveja os principais sacerdotes lho haviam entregado.” Marcos 15:10

É comum que as descrições da morte de Jesus foquem em dois planos, o histórico e o teológico, cuidadosamente distinguidos e nestorianamente separados. No plano histórico, foi a morte de um profeta galileu, com pretensões messiânicas, após desafiar as autoridades político-religiosas de Jerusalém, padecendo então uma morte de escravo. No plano teológico, Deus entregou seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna, o qual, no seu sangue, realiza a expiação pelos pecados de todo o mundo.

Colocadas as coisas desse modo, a clave teológica parece uma leitura esquizofrênica dos acontecimentos. Como um julgamento injusto e assassino, nas mãos de romanos e judeus, pode se constituir num sacrifício a Deus? Se as oblações da religião hebréia já eram enigmáticas, muito mais a realidade que consuma a todas elas. Há qualquer afluência discernível, algum ponto de contato entre a leitura “sacrificial” e a leitura “política” da Paixão, ou aquela está fadada a ser uma intuição mística, um segredo apocalíptico, a chave dos iniciados, inteiramente invisível e tão separada da outra quanto os pensamentos de Deus se elevam acima dos nossos?

Em um texto anterior, O Cordeiro Vitorioso, mostrei que há outra leitura teológica possível dos acontecimentos, não necessariamente em competição com a leitura sacrificial: a noção bíblica (e patrística) de que a cruz (e não só a ressurreição) é uma vitória de Cristo contra os poderes das trevas que domina(va)m este mundo. O ministério do próprio Cristo explicita esse confronto com os poderes das trevas: sendo tentado, expulsando demônios, curando os oprimidos do diabo, enfrentando com a verdade os filhos do pai da mentira, e recebendo deles, afinal, o injusto juízo condenatório, Cristo ataca e expõe as obscenidades espirituais desta era. Se o diabo reina na morte (Hb. 2:14), se aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei (1Co. 15:56), é natural que o Messias tenha morrido por instigação dos juristas hebreus. Assim como o próprio livro do Apocalipse, essa leitura teológica é simultaneamente política, porque ataca e desnuda ao próprio Dragão oculto. Sobre o confronto final da Cruz, Cristo pôde dizer: “Agora será lançado fora o príncipe deste mundo.” (Jo. 12:31)

Uma pergunta que brota regularmente desse tipo de leitura é se ela não transforma os culpados em coitados, atribuindo todo o mal, no fundo, ao Maligno, e toda mentira ao pai da mentira. Se o problema do homem não é Deus, mas o diabo, cada pecador não é, no fundo, um inocente? A mesma pergunta se pode fazer no eixo político: se os líderes judeus (os lavradores maus da parábola), e não o próprio povo, condenaram  a Jesus de Nazaré, o povo não passa por inocente? O homem não está simplesmente preso a uma rede de pecado estrutural, ao “sistema”?

O Evangelho de Marcos fornece duas importantes peças do mosaico: a declaração de que os líderes dos judeus entregaram a Cristo “por inveja” (Mc. 15:10) e a doutrina do próprio Cristo de que a inveja procede do interior do coração do homem, e não do exterior (Mc. 7:22). Isso significa dizer que, se Satanás reina sobre os homens, levando-os a atacar o próprio Cristo, é porque ele se utiliza da maldade interior ao próprio homem. Curiosamente as palavras de Cristo servem de chave para a sua própria história. Na parábola dos lavradores maus  parábola que, nos evangelhos sinóticos, coloca as cartas na mesa e leva Cristo a ser crucificado (cf. Mt. 21:45-46) —, a grande intenção dos lavradores (alegoria dos líderes hebreus) é, claramente, a inveja: “matemo-lo, e a herança será nossa” (Mc. 12:7).

Isso fica mais claro quando entendemos o que é a inveja. Em um sermão sobre ela, e utilizando uma definição bastante típica, São Basílio define a inveja como “a dor causada pela prosperidade do próximo”. João Damasceno (e, depois, Tomás) define a inveja como “tristeza pelo bem do outro”. A definição se adequa perfeitamente à paixão de Cristo, porque mostra o paradoxo da grandeza de Cristo, a grandeza na humildade. No mesmo sermão, São Basílio diz no sermão que a inveja é mãe do homicídio e menciona os exemplos esperados: os casos de Caim e Abel e de Saul e Davi, não por coincidência envolvendo tipos de Cristo, o justos que, por suas virtudes, padecem nas mãos dos injustos.

O invejoso odeia a grandeza alheia, sente-se ferido e diminuído por ela; o invejoso ganha quando outros perdem e perde quando outros ganham. Por isso, o invejoso está condenado à infelicidade — “a inveja é podridão para os ossos” (Pv. 14:30) —, porque nós nunca somos grandes em tudo, sempre somos pequeno em muitíssimas coisas. Como no afresco de Giotto (Invidia), São Basílio liga a inveja à serpente peçonhenta, contaminando e matando com as palavras, ou mesmo com o olhar — curiosa superstição que Basílio liga à ação dos demônios.

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Revelada a inveja, revela-se todo um mundo de inveja entre os homens, que lutam para se diminuírem uns aos outros. “Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo.” (Ec. 4:4a). René Girard é famoso pela idéia de que o conflito entre os homens resulta do “desejo mimético”, uma inveja imitada (pois, segundo ele, nenhuma inveja é original, toda ela é “mimética”, é uma imitação do desejo do outro) que leva os homens a matarem uns aos outros, até que alguém é lançado como bode expiatório, recebe toda a culpa pelo conflito e sua morte traz a paz.

É claro que a teoria mimética não é capaz de realmente explicar o sacrifício de Cristo e nem mesmo a origem do conflito. As tentativas de associar o pecado original ao desejo mimético às vezes são engenhosas (como a do Pe. James Alisson), mas no fim das contas são sempre pelagianas, reduzindo a alienação fundamental do homem a mero hábito — trocam propagatio por imitatio. E ninguém já nasce com “mera imitação”. Cristo deixaria de ser o salvador dos pequenos. Mas, como ele mesmo ensinou, a inveja procede do coração dos homens, não de fora deles.

Ainda assim, quando observamos como inveja ataca a Cristo e aos seus tipos (Abel nas mãos de Caim, Davi nas mãos de Saul), parece mesmo que o mundo dos homens é dominado pela inveja, e em um contexto como esse é impossível que a grandeza encarnada não terminasse crucificada. Ao se defrontar com os invejosos no poder, o fim de Cristo seria certo. Entre as camadas política e demonológica da Paixão, há uma camada hamartiológica. É recorrente também a inveja dos inimigos judaicos de Paulo, que acaba assim participando dos sofrimentos de Cristo (At. 5:17; 13:45; 17:5).

Ao contrário da inveja, a ação divina é de entrega: Deus Pai entrega o seu Filho, que entrega a si mesmo para nos entregar o Espírito, envolvendo-nos na comunidade de entrega chamada Igreja, cuja atividade consiste sumamente na entrega: a entrega de vida em amor pelos perdidos, a entrega da Palavra na esperança da conversão, a entrega dos meios de graça na fé da presença viva de Deus no nosso meio, em tudo isso entregando a Deus toda a sua adoração.

Rev. Gyordano M. Brasilino

 

 

 

 

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