Solus Paulus: a Vida Eterna como Dom e como Fruto

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Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna. João 6:47

Em um sentido, Cristo sozinho realiza a condição para nossa justificação e salvação. Em outro sentido, a fé é condição de nossa justificação, e, em outro sentido, outras qualificações e atos também são condições da salvação e justificação. Jonathan Edwards, Justification by Faith Alone

Os ensinos das Sagradas Escrituras resistem a simplificações. O próprio Deus é infinitamente imanente e infinitamente transcendente às criaturas, sendo igualmente aquele em quem “vivemos, e nos movemos, e existimos” e aquele que “habita na luz inacessível”. Para nós, essas realidades são paradoxais, misteriosas e desconcertantes. O Deus revelado não é desconhecido apenas, mas desconhecido de maneiras que sequer podemos imaginar. Por outro lado, como a criatura reflete o Ato Criador, por toda parte a névoa do Altíssimo se faz notar. Nada há do real que possamos compreender inteiramente.

Assim também com respeito à salvação da humanidade. Todo racionalismo mutilador, que queira forçar o mistério salvífico em algumas poucas fórmulas fáceis, eliminando todo o desconhecido, está fadado a ser achado em falta perante a grandeza daquilo que recebemos em Cristo pelo poder do Espírito Santo. Só podemos vislumbrar, perplexos, a atuação profunda da graça divina.

Por isso, o Novo Testamento usa certas imagens vívidas, certas metáforas, com o papel de tornar essas realidades mais compreensíveis, a partir de analogias com as criaturas: a vida eterna é descrita ao mesmo tempo como dom e como fruto. A vida eterna é, ao mesmo tempo, um dom da graça inteiramente concedido por Deus em Cristo e um fruto colhido pelos que semeiam no Espírito — em outras palavras, como algo que depende inteiramente e totalmente de Deus e algo que, ao menos em parte, depende de nós.

Com a palavra, o apóstolo Paulo:

A Salvação é Dom de Deus em Cristo

Rm. 6:23: porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito [charisma] de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Ef. 2:4-9: Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça [chariti] sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça [chariti] sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom [dōron] de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.

Esses textos, e vários outros, descrevem a salvação como dom gratuito que nos é concedido por Deus, por sua grande bondade, por sua graça supremamente rica: um presente, não uma recompensa. Como dom, é algo que simplesmente recebemos, e que, nesse caso, somos incapazes de comprar ou adquirir por nossas forças. Pode ser uma verdade óbvia para qualquer cristão, mas é importante notar que esse dom nos é concedido através de Cristo e nele. O dom resulta da justiça do próprio Cristo (Rm. 5:15-17; cf. 1Co. 1:30). Por outro lado…

A Salvação é Fruto da Semeadura no Espírito

Romanos 8:13-14: Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.

Gálatas 6:7-10: Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito do Espírito colherá vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos. Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.

Numa lógica totalmente distinta, o apóstolo nos ensina que o destino dos que vivem segundo a cerne, dos que semeiam para a carne, é a morte e a corrupção, ao passo que o destino dos que mortificam as obras carnais, semeando no Espírito, é colher a vida eterna. Os textos não nos dão uma alternativa terceira: a mortificação da carne é realizada pela semeadura no Espírito, e um modo indicado para realizar essa semeadura é “fazer o bem” (to kalon poiountes). O pecado gera a morte (cf. Tg. 1:15), e não muito antes, em Gálatas, o apóstolo havia listado as práticas carnais que impedem a entrada no Reino de Deus (Gl. 5:19-21), distinguindo-as do fruto do Espírito (Gl. 5:22-23). Não somos constrangidos a viver segundo a carne (Rm 8:12), pois, pela graça, o pecado não domina sobre nós (Rm. 6:14). A lei do Espírito liberta da lei do pecado (Rm. 8:2).

Os textos seguem explicitamente, no segundo caso a lei da semeadura: a vida eterna é o resultado de nossas ações. Parece-se, muito mais, com uma recompensa do que com um presente, ainda que o simbolismo da semeadura carregue certo traço de presente natural. Desta vez, o Espírito (não Cristo) é mencionado: é nele que se semeia e é dele que se colhe.

Um dom de Cristo, meramente recebido, ou um fruto colhido no Espírito, resultado de nossa ação? O mais constrangedor é que o apóstolo Paulo não parece consciente da tensão simbólica que, penso, é óbvia para todos nós, dois mil anos depois. Essa tensão precisaria estar plenamente resolvida para ele de algum modo, pois não é uma especulação vazia, mas carrega implicações para o modo como a Igreja desempenha sua função de compartilhar a salvação.

Mas há um mistério mais profundo aí. que o leitor perspicaz deve ter notado, quanto à a revelação da Trindade: o Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo realizam ações salvíficas diferentes: fomos providos do dom por aquilo que Cristo fez por nós; a semeadura do Espírito, ao contrário, é algo presente. É verdade que o apóstolo Paulo via Cristo e o Espírito profundamente unidos na obra de nossa limpeza, santificação e justificação (cf. 1Co. 6:11; Ef. 2:18). Ainda assim, as metáforas do dom e do fruto carregam a ordem missional trinitária, a Trindade Econômica. Isso liga, de certo modo, ao mistério joanino da unidade entre a Cruz e o Espírito (Jo. 7:38-39). O Espírito Santo reforma em nós a imagem de Cristo.

Ainda assim, dom ou fruto? Necessariamente ambos, mas como? A articulação entre os dois princípios, entre as duas metáforas, é a distinção maior entre a doutrina cristã ortodoxa e a heresia pelagiana. Santo Agostinho escreveu sobre Romanos 8:13

“Acaso parece bem dizer que mortificar as obras da carne não seja dom de Deus e que não confessamos ser dom de Deus porque sabemos ser uma exigência em troca da recompensa oferecida da vida eterna, se as fizermos? Não permita Deus que esta opinião agrade aos que participam da verdadeira doutrina da graça e a defendem. É este um erro condenável dos pelagianos, os quais o Apóstolo fez calar, quando diz: Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus, o que evita acreditar que a mortificação de nossa carne não seja um dom de Deus, mas capacidade do nosso espírito. (…) Portanto, assim como, embora seja de Deus, o mortificar as obras da carne é exigência para a consecução do prêmio da vida eterna prometida, assim também a fé, embora seja condição indispensável para alcançar a recompensa da salvação prometida, quando se diz: Se creres, serás salvo. Por conseguinte, ambas as coisas são preceitos e dons de Deus, para entendermos que as fazemos e Deus faz com que as façamos, como diz claramente o profeta Ezequiel.” A predestinação dos santos (12, 22)

Se dizemos que o dom sobrenatural da vida eterna em Cristo está na base do fruto da vida eterna no Espírito, somos agostinianos: semeamos porque, em primeiro ligar, recebemos a graça para tanto. Mas se invertemos a ordem, e colocamos o fruto da vida eterna na base do dom da vida eterna que ipso facto deixa de ser dom somos pelagianos. A ordem dom-fruto, em nós, recapitula a ordem missional Cristo-Espírito na Trindade Econômica; por isso o pelagianismo é tanto um ataque contra Cristo como contra o Espírito. A ontogenia recapitula a filogenia, e Haeckel jamais imaginaria o quanto isso é verdade na teologia.

Curiosamente, esse tipo de tensão entre o dom da graça e o fruto do labor aparece de modo interessante no Antigo Testamento com respeito à providência divina sobre os nossos bens (leia As duas sabedorias de Javé e Eclesiastes e a Confusão do Mundo).

Um lição fundamental do livro de Provérbios é que às nossas ações (ao nosso trabalho, à nossa sabedoria, à nossa justiça) seguem certos resultados: “O que lavra a sua terra será farto de pão, mas o que corre atrás de coisas vãs é falto de senso.” (12:11); “Nenhum agravo sobrevirá ao justo, mas os ímpios ficam cheios de problemas.” (12:21); “O que adquire entendimento ama a sua alma; o que conserva a inteligência acha o bem.” (19:8). Na sabedoria proverbial, o mundo é regido pela Sabedoria divina, que estimula o trabalho, a sabedoria, a justiça. Pois o Senhor abençoa os justos e amaldiçoa os ímpios (Pv. 3:33), de maneira que eles recebem na terra, cada um, sua retribuição (Pv. 11:31).

O Eclesiastes, por seu turno, vê o mundo em outra perspectiva: a lei da semeadura não parece funcionar, pois “o mesmo sucede ao justo e ao perverso; ao bom, ao puro e ao impuro; tanto ao que sacrifica como ao que não sacrifica; ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento.” (9:2). Repito:

“Aproveitar a vida é um dom de Deus (2:24). Deus dá sabedoria, conhecimento e alegria a quem quer (2:26), assim como riquezas, bens e honra (5:19; 6:2). Mesmo os mais esforçados não têm domínio sobre essas coisas; são o tempo e o acaso que nos permitem gozar delas (5:11). O mundo não opera sob os cânones do mérito, mas na gratuidade da dádiva.” Eclesiastes e a Confusão do Mundo

Essas duas formas de ver o mundo são ambas verdadeiras, mas apontam para realidades diferentes, a partir da imanência e da transcendência de Deus, de sua proximidade e de sua alteridade, e isso nos diz algo de importante sobre a relação entre dom (alteridade, extra nos) e fruto (imanência, in nobis) em geral. Assim também, somente o Juízo Final é capaz de resolver a tensão.

As duas imagens, do dom e do fruto, aparecem juntas na parábola do Tesouro Escondido. (Mt. 13:44).  Cristo compara o reino dos céus a um “tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo.” (Mt. 13:44).

A parábola nos joga em um paradoxo: por um lado, aquele que quer adquirir o Reino deve comprá-lo, gastando tudo o que tem; por outro lado, é incapaz de comprá-lo diretamente, e então usa de astúcia. O tesouro em si mesmo não pode ser comprado, pois é justamente ele que nos enriquece — de fato, o homem da parábola não seria capaz de comprar o tesouro mesmo vendendo tudo o que tinha. O Reino dos céus exige um custo pessoal, mas um custo que é insuficiente para atingir o bem desejado. Ainda assim, a compra é possível, o que é motivo de alegria transbordante. A parábola, sobretudo, nos joga em uma escolha radical: se queremos o tesouro, devemos desistir de todo qualquer outro valor.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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