A Fé Cristã e as Religiões do Mundo

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Em sua morte em 1825, Saint-Simon deixou incompleto um diálogo sobre O Novo Cristianismo, no qual reconstrói a fé cristã segundo as aspirações do Iluminismo, numa proposta não tão diferente da de Kant: a religião se constituiria essencialmente num moralismo da razão pura — uma ética demitizada, burguesa e humanista —, capaz de unir os homens numa nova solidariedade. Diferente de Kant, a proposta do francês não carrega o menosprezo pietista pelo ritual, que acaba aliciado.

Para Saint-Simon, a religião cristã era, de fato, uma religião revelada, uma mensagem de Deus para os homens, mas era necessário desnudá-la dos acréscimos espúrios do clero. O único princípio divino no na religião cristã seria a fraternidade de todos os homens — o mesmo discurso de Harnack —, e o restante da religião efluiria exclusivamente dessa fonte, almejando a unidade de todos os povos. A solução para o mundo seria uma religião da lei, a “moralidade divina”, inteiramente empenhada em melhor as condições dos mais pobres. A escatologia imanente de Saint-Simon era otimista: o mundo inteiro se converteria a esse cristianismo moralizante, enquanto a cristandade européia veria o fim das divisões, em uma era messiânica mundial com uma só religião.

O Novo Cristianismo de Saint-Simon continuaria tendo rituais, dogmas e clero, mas agora todos reconheceriam na doutrina moral a substância mesma e única da religião. Os rituais e dogmas teriam a função apenas de chamar atenção para a moralidade divina, como alegorias moralizantes. A realização do princípio único, o da fraternidade dos homens, seria a meta única da única religião, para a melhora das condições da classe mais pobre. As artes, inclusive a arquitetura, deveriam facilitar o uso do ritual para provocar terror e alegria nos ouvintes, com o propósito de infundir neles o sentimento da moralidade. Saint-Simon observa inclusive o efeito que a religião provoca na filosofia e na literatura. O Novo Cristianismo seria a reforma definitiva, mas inteiramente diferente da reforma luterana.  Ainda assim, a idéia da redução do cristianismo a uma ética pura tem raízes anteriores, no Renascimento.

Saint-Simon encara os rituais religiosos em uma perspectiva basicamente funcionalista, não tanto porque esse fosse o sentido de todo e qualquer ritual — ele critica católicos romanos e protestantes, de maneiras diferentes, por não cumprirem esse propósito, essa “função” moralizante dos rituais —, mas porque ele mesmo via os rituais como uma forma de implementar sua concepção do Novo Cristianismo. Se os rituais não têm função, doravante terão ou não serão. Kant os encarava do mesmo modo: como o único e verdadeiro culto a Deus era o culto do coração, todo ritual teria “a finalidade de impulsionar o bem moral”, “numa intenção moral exclusiva”. Não se vê nele qualquer encontro com Deus e, por isso, até mesmo a oração privada deveria desaparecer triste fim de um pietista! Os mestres da suspeita estão certos neste ponto: freqüentemente o modo como encaramos o mundo mostra muito mais nossa vontade de poder do que de saber e dizer que “saber é poder” é confissão sem contrição.

Mas qual é o papel do ritual na religião? Aparentemente, para Saint-Simon os ritos poderiam servir a diferentes propósitos moralizantes. O símbolo não é unívoco.

Na Ortodoxia, Chesterton se depara com uma tentativa, ainda hoje muito comum, de equiparação das religiões: “as religiões da terra diferem nos ritos e formas, mas são iguais no que ensinam”, “elas concordam no significado, mas diferem no maquinário”. Como bom e belo romântico, ele procura inventer o mote: “É exatamente o oposto. Elas concordam no maquinário; quase todas as grandes religiões na terra operam com os mesmos métodos externos, com sacerdotes, escrituras, altares, irmandades juramentadas, festas especiais. Elas concordam no modo de ensino; o que difere é sobre o que ensinam.”

As religiões são iguais na casca e diferentes no interior, ou quase isso. A precaução nos adverte a não levar a inversão chestertoniana tão ao pé da letra, pois os ritos e formas das religiões não são simples sinais arbitrários representando e indicando as realidades superiores por costume e convenção. Ao menos os melhores deles são, no mínimo, símbolos, o que quer dizer que eles participam profundamente da realidade que indicam: não são só índices, mas a-presentam essas realidades de modo condensado  de modo com-pacto. O “exterior” das religiões — os ritos, mitos, símbolos — não está, como que por um véu cartesiano, dissociado do interior, do fantasma sagrado que o habita.

O meio é a mensagem, e as semelhanças entre esses diferentes meios nos diz algo de muito importante sobre uma comunalidade não tão exterior, embora também não necessariamente crucial. Se as religiões “funcionam”, é porque através delas os homens têm acesso a certas realidades humanas comuns. Para o escândalo da pregação fanática de certos reducionismos (historicismo, relativismo, culturalismo, etc.), com todos os acidentes de percurso, as religiões têm semelhanças demais e, por isso, revelam, no mínimo, uma mesma natureza humana e uma mesma experiência do mundo. A constante antropológica universal é o ser humano. As semelhanças mais profundas entre as religiões podem ser de vários tipos, cada um com seus sábios, zelotes e prosélitos — seus “tradutores”:

O metafísico, defendido por figuras como David Bentley Hart (no excelente The Experience of God) e os perenialistas, segundo o qual as grandes religiões (talvez especialmente nas suas vertentes mais intelectuais e místicas) expressam um fundo metafísico comum de convicção na unidade e transcendência de Deus, uma sophia perennis, o que pode se traduzir em uma identidade de experiência mística entre diferentes religiões. Esse fundo metafísico implicaria no reconhecimento do Supremo Absoluto incompreensível — o próprio Ser, e não um dos seres —, “de onde” emana toda a unidade, verdade, bondade e beleza, “onde” vivemos, nos movemos e somos, e “para onde” todas as existências particulares, conscientes ou não, se dirigem como fim último, ao qual temos acesso através da contemplação, através da atenção purificada para com o logos imanente e transcendente. Para os iniciados, todas as grandes religiões seriam idênticas no fundo, pois sua “superestrutura” de credos, mitos e ritos seria determinada pela estrutura metafísica comum.

O psicológico ou existencial (ou ainda mitológico), o de Jung, de Eliade, de Campbell e, mais recentemente, do fenômeno Jordan Peterson, para os quais, grosso modo, as semelhanças entre as religiões emergem de um fundo mitológico comum que expressa certas realidades humanas universais, certos problemas que todos enfrentamos, alocado cultural ou psicologicamente, talvez no Inconsciente Coletivo na forma de arquétipos narrativos adaptados para diferentes culturas. Todas as religiões seriam variações sobre o monomito fundamental, ou sistemas de variações de mitos idênticos e, com a devida astúcia, pode-se extrair essa verdade, talvez com a ajuda da psicanálise. Agnóstica em relação ao divino — se não por convicção pessoal, no mínimo por conveniência de método —, essa opção torna o homem e sua circunstância a medida de todas as coisas.

Existe ainda um fundo moral comum entre as religiões, uma semelhança de valores, para a qual C. S. Lewis chama a atenção na Abolição do Homem, freqüentemente exagerada por liberais ingênuos de tipo pós-iluminista ou romântico e desprezada de todo por liberais de tipo pós-moderno, pós-estruturalista. Isso não significa, óbvio, que todas as religiões têm os mesmos mandamentos — veja-se a monogamia cristã e a poligamia muçulmana — mas que haveria uma preocupação com um fundo comum de valores e virtudes, como bondade, compaixão, disciplina, justiça e pureza. A semelhança moral entre as religiões resulta, de qualquer modo, do pano de fundo metafísico ou existencial.

Essas diferentes observações, e outras que se possa fazer, apontam para algo que é mais humano e universal. Chesterton esclarece que certas semelhanças entre as religiões apontam para uma mesma humanidade humana, provavelmente acessível a todos:

“Que Budismo aprove a misericórdia ou o auto-controle não significa que ele é especialmente parecido ao Cristianismo; significa apenas que ele não é totalmente diferente de toda a existência humana. Budistas desaprovam, em teoria, a crueldade ou excesso porque todos os seres humanos sãos desaprovam, em teoria, a crueldade e o excesso. Mas dizer que o Budismo e o Cristianismo fornecem a mesma filosofia dessas coisas é simplesmente falso.”

No fim das contas, as semelhanças entre as religiões são grandes demais para serem explicadas por genealogia histórica pura e as diferenças são importantes demais para serem reduzidas a simples acidentes. De um ponto de vista cristão, essas semelhanças são “esperadas” e naturais — no sentido metafísico da palavra. Afinal, as Sagradas Escrituras nos falam de uma revelação dos atributos divinos na natureza, assim como da revelação da lei divina na consciência humana, não obstante o dano do pecado e aliás, a universalidade do pecado, conquanto impeça a comunhão com Deus, ocasiona uma mesma condição trágica (lapsária) pressuposta pelas religiões, mitologias e tradições místicas. Coincidindo parcialmente o conhecimento de Deus, de sua lei e da condição humana, estranho seria se as religiões fossem absolutamente diferentes.

É por isso que o apóstolo Paulo pôde tomar por empréstimo as palavras de Epimênides e Arato — originalmente dedicadas ao Zeus metafísico —, no seu discurso no Areópago. As palavras de Epimênides, aliás, são duplamente relevantes, pois nelas se expressa a metafísica perene da imensidade e imanência de Deus: “nele vivemos e nos movemos e existimos” (At. 17:28). Mesmo que os deuses das nações sejam ídolos e demônios (Sl. 96:5; 1Co. 10:20), certas verdades sobre Deus estão visivelmente presentes entre as religiões do mundo. O logos está presente em todas as partes e dando-lhes a ordem, e nada foi feito sem ele; a sabedoria alça sua voz no cume das montanhas e nas encruzilhadas dos caminhos. Por isso mesmo, toda a sabedoria pagã é praeparatio evangelica, e hoje podemos dizer , talvez com mais clareza que os pais da Igreja, que essa sabedoria inclui mesmo as verdades universais contidas nas mitologias. A filosofia seria apenas uma elaboração e esclarecimento da sabedoria mitológica.

Por outro lado, como religião revelada, a fé cristã não se resume nem à metafísica perene, nem à sabedoria mitológica, nem à ética universal. Enquanto as diferenças entre as religiões são descartadas como acidentes históricos, a história é o reino do Evangelho, ou até da religião hebraica, centrada por atos divinos de salvação e juízo: o Êxodo, o Exílio, nomes que marcam a história de um povo sempre em “saída”, sempre em percurso, e que precisam, por isso, contar a própria história para preservar sua unidade, nos seus rituais, nas suas orações, nas suas festas.

Já a religião cristã centra-se na pessoa de Jesus de Nazaré, reconhecido como o Messias de Israel e o Filho de Deus — o Alfa e o Ômega. Trata-se de uma entrada da metafísica na história. Sobre o seu fundador, a religião cristã ousa dizer algo único: aquele que foi visto, ouvido e tocado por seus discípulos era o centro mesmo de toda a realidade do mundo, perfeitamente Deus e perfeitamente homem. Por isso, todo e qualquer pluralismo travestido de teologia cristã acaba por atacar, em algum momento, a unicidade de Jesus, transformando-o em um mero representante do logos entre tantos outros, mero homo assumptus, um profeta e um sábio. Para o cristão, o próprio Deus se envolve inteiramente na história: a Trindade imanente se revela como Trindade econômica.

Por isso também, a fé cristã jamais diz respeito a um relacionamento puramente interiorizado, puramente abstrato, puramente invisível, puramente místico com Deus: ele é histórico e visível, corporificado em uma comunidade e em seus ritos. Assim, a religião cristã não tem apenas símbolos que evocam as realidades divinas; tem sacramentos que tornam essas realidades presentes, fundados no testemunho vivo: a morte do Cristo no Gólgota, sob Pôncio Pilatos, e sua ressurreição ao terceiro dia.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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