A Simplicidade Divina Absoluta

triscel

“Pois assim como Deus é o Ser infinitamente maior, assim também concordamos que ele é infinitamente o mais belo e excelente: toda a beleza por toda a parte da criação é somente o reflexo dos feixes difusos daquele Ser infinitamente brilhante e glorioso.” Jonathan Edwards, The Nature of True Virtue

“Nuvens e escuridão o rodeiam…” Salmo 97:2

Nada há de concreto neste mundo que sejamos realmente capazes de compreender. Os detalhes e minúcias dos menores fragmentos do mundo escapam da nossa sutileza, a grandeza do Universo excede nossa visão. De fato, não entendemos plenamente nem a nós mesmos, e quase nada dos nossos semelhantes.

Mas quando os nossos pensamentos, deixando sua habitação mais ordinária, se elevam das coisas criadas à Glória Infinita, eles encontram não apenas limites “maiores”, limites mais difíceis de transpor, mas limites de uma natureza inteiramente diferente, para os quais mesmo a palavra “limite” não mais se aplica. Na contemplação do Altíssimo e Excelso, têm muita razão a extravagância dos místicos cristãos de todos os tempos quando falam não apenas da Luz Inacessível, como o Apóstolo, mas também, com Orígenes ou Pseudo-Dionísio,  da Escuridão Divina (Sl. 97:2) — afinal, Deus excede toda a nossa capacidade de expressão, e o que dizemos sobre ele é meramente suficiente e acomodado à nossa condição humana.

A transcendência de Deus é também, por isso, imanência infinita, imensidade infinita. Nele vivemos, nos movemos e existimos; dele é a terra e toda a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam; os céus proclamam sua glória e o firmamento anuncia as obras de suas mãos; tudo o que dele se pode saber se entende e se vê claramente pelas coisas criadas; a terra está cheia da sua bondade  pois tudo é dele, por ele e para ele, o Alfa e o Ômega. A criação é, assim, um ícone da transcendência, e sobretudo o homem, criado à imagem de Deus, não como se fosse um sinal de uma realidade distante, mas ela mesma é a participação na existência divina, de modo que nem mesmo podemos dizer que Deus existe como as criaturas existem.

Deus é o que é — diferente de nós criaturas, que jamais somos simplesmente o que somos. Os grandes teólogos de todos os tempos e as grandes confissões de fé da Reforma Protestante expressaram essa realidade através de um atributo divino: Deus é simples. Deus não tem corpo, partes ou paixões; Deus não é composto; nada há no Ser de Deus além do Ser de Deus. Diferentemente das criaturas, Deus não subsiste em uma coleção de notas, diferenças, propriedades. Tudo o que dizemos a essência divina é somente uma coisa: sua divindade; todos os atributos divinos são idênticos a essa divindade e, portanto, idênticos entre si. A Sabedoria Divina é a Onipotência Divina, o Amor Divino é a Justiça Divina, a Impassibilidade Divina é a Compaixão Divina, a Imutabilidade Divina é a Bondade Divina, pois todas essas coisas são indivisivelmente uma mesma natureza transcendente. Deus não é apenas amoroso; é Amor. Ele não é somente verdadeiro; é a Verdade.

Há, sem dúvida, em visualizarmos os atributos divinos como idênticos, grande dificuldade que só eventualmente somos capazes de remediar, pois em nós e no mundo ao nosso redor, a Justiça e a Misericórdia, por exemplo, parecem muito diferentes, e embora sejamos às vezes capazes de compor um quadro metafísico em que os atributos divinos sejam vistos de modo harmônico e complementar, a unidade fundamental no fim das contas nos escapa. Como podem o Amor e a Imutabilidade ser a mesma coisa em Deus?

Não há nada em Deus que não seja Deus. Nada “fora” dele faz com que ele seja o que é. A natureza divina é auto-suficiente em tudo o que é, o que marca a diferença infinita entre o Criador e a criatura. Os atributos divinos são intelectualmente distintos em nós, mas em Deus há apenas sua natureza supremamente perfeita, um só atributo que não somos capazes de imaginar ou conceber, mas apenas indicar, contemplar e adorar. As confissões das Reformas (luteranismo, anglicanismo, calvinismo) o dizem de três modos: Deus é simples (Belga 1, Westminster 2.1); Deus não tem partes (39 Artigos 1, 25 Artigos 1); Deus é indiviso (Augsburgo 1). Essa doutrina preserva a alteridade de Deus em relação à sua Criação, a saber, em relação a tudo o mais.

A simplicidade divina expressa a gritante diferença entre o Deus único e os deuses do politeísmo. Em suas próprias religiões, os deuses pagãos são criaturas; não são absolutos, ou infinitos, e se parecem muito mais com os anjos ou demônios do cristianismo. Embora se possa ver nesses paganismos a presença de uma divindade maior reinando sobre o colégio das divindades, no fim são todos idênticos em natureza. Nenhuma divindade pagã simplesmente é o que é. A diferença entre eles e as criaturas é apenas de grau: são mais poderosos, mais inteligentes, mais sábios (nem sempre), mais duradouros. O Deus da fé cristã não é apenas maior que os deuses do politeísmo; é incomparável. Não somos politeístas de um deus só.

A teologia cristã como sistema emergiu do pano de fundo da simplicidade divina, e isso é muito claro tanto no caso da Trindade quanto no da Encarnação do Verbo. Provavelmente o primeiro erro que se comete quanto à Trindade é encarar as três Pessoas Divinas como “partes” de Deus. A maioria das analogias da Trindade encontra aqui o limite, pois cada uma delas é o Ser divino inteiro, e não uma parte dele, pois nele não há partes. Deus não é composto de três pessoas — ele não é a “soma” de três pessoas —, mas subsiste em três pessoas. Qualquer coisa diferente disso é negar a divindade de cada pessoa da Trindade ou afirmar algum tipo de triteísmo —  politeísmo, no fim das contas. A necessidade de explicar a simplicidade divina no contexto da Trindade Divina era óbvia para os pais da Igreja, como se vê no De Trinitate de Santo Agostinho.

Isso é ainda mais visível quando levamos em conta o desenvolvimento doutrinário que historicamente levou à afirmação da divindade do Espírito Santo em Constantinopla (381 d.C.). Um dos responsáveis, São Gregório de Nazianzo, escreveu sobre a revelação progressiva da divindade do Espírito no Quinto Discurso Teológico: no Antigo Testamento, a divindade do Pai é clara e a do Filho é implícita; no Novo Testamento, a divindade do Filho é clara e a do Espírito Santo é implícita; o papel da Igreja foi tornar explícito o que estava implícito.

Mas o fato é que, se não houvesse a simplicidade divina, a divindade do Espírito Santo seria incognoscível; de nada adiantaria mostrar, pelas Sagradas Escrituras, que o Espírito Santo é onisciente, onipotente, ou onipresente, se a divindade fosse divisível, se fosse apenas composta desses atributos. Como Deus é simples, onde quer que qualquer atributo divino esteja, a divindade inteira está. Somente se assumida a simplicidade divina, somente se tomada como premissa a noção de que a divindade é simples e indivisível, pode-se “deduzir” da natureza divina atributos não explicitamente declarados. Assim, sem a doutrina da simplicidade divina, o dogma trinitário jamais teria sido formulado.

O século XIX viu a ascensão do kenoticismo, heresia segundo a qual, durante sua encarnação, Cristo teria “perdido”, “suprimido” ou “limitado” certos atributos divinos. O esviaziar-se de Cristo em Fp. 2:7 seria um esvaziar-se de atributos divinos. Querendo preservar a natureza humana do Senhor, o kenoticismo ataca sua divindade, e o problema é óbvio da perspectiva da Simplicidade Divina: se a natureza divina não tem partes, ela não pode perder uma parte. Ou está “inteira”, ou não está. Ela não pode deixar de ser o que é. O Cristo sem atributos divinos não seria Deus, mas apenas um ser humano, e, por isso, incapaz de redimir a humanidade.

Rev. Gyordano M. Brasilino

2 comentários em “A Simplicidade Divina Absoluta

  1. Bom dia, tenho apreciado bastante seus textos, sobretudo porque se inclinam bastante para a mentalidade da igreja Ortodoxa, que é a linhagem Cristã com a qual mais simpatizo.

    Sobre o tema deste artigo em específico, os Ortodoxos divergem dessa chamada simplicidade Divina e creio que conseguem refutar bem tal doutrina. Eles fazem uma distinção entre a Essência e as Energias Divinas, para explicar como Deus é Transcendente e Imanente ao mesmo tempo. Caso lhe interesse, leia por favor (obs.: artigo longo):
    http://skemmata.blogspot.com/2019/08/uma-refutacao-da-doutrina-catolica.html

    Saudações,
    Cleverson

    Curtir

    1. Olá, Cleverson. Eu penso que a simplicidade absoluta se alinha melhor aos ensinamentos da Escritura Sagrada e dos Pais da Igreja (como Sto. Agostinho, S. Basílio e S. João Damasceno), e é mais coerente com a condição absoluta de Deus. Não acho que a refutação seja boa, mas não discordo inteiramente com a linguagem que os orientais usam. Grato pela indicação.

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s