A Beleza está nos olhos de Deus

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Observava nas belezas o Belíssimo e, pelos vestígios impressos nas coisas, perseguia por toda parte o Amado, fazendo de tudo uma escada para si, para subir à apreensão daquele que é todo desejável. — São Boaventura, Legenda Maior Sancti Francisci, IX, 1, 7

A beleza do mundo consiste inteiramente de doces consonâncias mútuas, quer dentro dele mesmo, quer com o ser supremo. Quanto ao mundo corpóreo, embora haja muitas outras formas de consonâncias, ainda assim a sua beleza mais doce e mais encantadora é sua semelhança com as belezas espirituais. A razão é que as belezas espirituais são infinitamente as maiores, e, não sendo os corpos senão sombras de seres, eles são tão mais encantadores quanto mais espelham as belezas espirituais. Essa beleza é peculiar às coisas naturais, ultrapassando a arte dos homens. Jonathan Edwards, A Beleza do Mundo

A modernidade torna o homem a medida de todas as coisas, o centro mesmo do universo. Colocado em um trono que não deveria ocupar e para o qual jamais estaria preparado, de fato um trono ilusório, o homem é incapaz de dar sentido a si mesmo e ao que o cerca, de colocar todas as coisas em uma ordem consistente; a nossa modernidade não é líquida, mas flácida. Privado de Deus e de todos os valores mais altos, o homem se vê também privado de sua própria alma, se vê reduzido a uma máquina, pronta para encarnar quaisquer diferentes finalidades de quem a controla.

O homem moderno se descobre em um mundo estranho, cheio de sentido, mas de um sentido que não se quer ouvir, para o qual não se é exatamente surdo, mas mouco. Prevalece o desejo de impor sentido ao mundo ao invés de descobri-lo, satisfazendo sua sede de sentido com a vontade de poder. A beleza está nos olhos de quem vê, pois esses olhos não são contemplativos, mas ativos: seguem as mãos que dominam. Por isso mesmo, grande parte da arte contemporânea é politicamente engajada, é uma tentativa de transformar o mundo, de dar ao mundo uma direção que não lhe é inerente; é uma arte dominadora e esnobe. O subjetivismo estético — a noção de que a beleza pertence ao nosso juízo e à nossa opinião — é, nesse sentido, uma doença espiritual, ou o sintoma de uma doença espiritual, a de encarar o mundo e o Belo como sujeito aos nossos caprichos.

Santo Tomás indicou o belo como id quod visum placet: aquilo que, em sendo visto, apraz, agrada. Naturalmente a noção se estende também à beleza musical, à beleza poética, à beleza intelectual e outras formas: no comentário ao livro IV das Sentenças de Pedro Lombardo, ao discutir os sacramentos como “sinais visíveis” e responder à objeção de que deveriam ser chamados também de “sinais audíveis”, Tomás responde, acompanhando Aristóteles e Santo Agostinho, que a nobreza da visão, em ser mencionada, se estende aos demais sentidos, não mencionados. Embora essa definição foque no prazer subjetivo, ainda assim confere à coisa bela um poder, perante o qual somos como que passivos, mesmo que a visão não seja nunca inteira passividade.

Mas pessoas diferentes fazem diferentes juízos de beleza, juízos estéticos; nem tudo agrada a todos do mesmo modo. “A beleza está nos olhos de quem vê” significa, portanto, que nenhum juízo de beleza é certo ou errado. Essa opinião, inerentemente atéia, naturalista, materialista, se choca contra a nossa experiência da beleza como algo que por vezes nos encontra e nos arrebata, pois quando contemplamos o mundo ao nosso redor, especialmente as belezas que estão além do nosso alcance, elas ainda evocam um significando transcendente. Se a beleza está nos olhos de quem vê, o que está nos olhos de Deus?

Observando a beleza dos lírios do campo, Cristo julgou que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, pôde se vestir como um deles, porque é Deus mesmo quem os veste, ao passo que a glória do Templo adornado teria um fim. Nisso, Cristo apontou, por um lado, para a fonte de toda a Beleza, tirando-a das mãos humanas; estabeleceu, aliás, contra Hegel, que a beleza da natureza excede a beleza da arte. Mesmo pequenos objetos de valor inferior ao do homem carregam uma beleza cuja artífice é Deus.

A Sagrada Escritura é plena de juízos de beleza, formosura, glória. Ela fale de “contemplar a formosura do Senhor” (Sl. 27:4; 90:17) e adorá-lo “na beleza da santidade” (Sl. 29:2; 96:9), mas também sobre “a perfeição da formosura” de Sião (Sl. 50:2), que resulta da glória que Deus compartilhou com ela (Ez. 16:14), a “formosura no seu santuário” (Sl. 96:6), a formosura do rei (Is. 33:17), da formosura de um homem e de mulher (Sl. 45:2,11), a terra formosa (Dn. 8:9), a formosura do Egito (Jr. 46:20), folhagem formosa (Dn. 4:12), cedros formosos (Sl. 80:10), faias formosas (2Rs. 19:13), a formosura de Abigail (1Sm. 25:3), de Bate-Seba (2Sm. 11:2), de Ester (Et. 2:7), de Tamar (2Sm. 13:1), de Abisague (1Rs. 1:3-4) e tantos outros. Deus criou o mundo não apenas bom, mas belo (Ec. 3:11). Qualquer que seja sua interpretação, o livro de Cantares elogia continuamente a beleza (Ct. 1:5,8,10,15, 2:10,13; 4:1,7; 5:9; 6:1,4,10; 7:1,6). Linguagem semelhante é a da glória de Deus nas coisas criadas: “toda a terra está cheia da sua glória” (Is. 6:3); a sua obra “tem glória e majestade” (Sl. 111:3) e essa glória deve ser anunciada (Sl. 96:3). Até as roupas dos sacerdotes seriam feitas “para glória e ornamento” (Êx. 28:40). Nisso não vemos apenas juízos subjetivos; o juízo provêm do autor sagrado, que age, naquele momento, em nome de Deus e, portanto, em nome do real.

Deus concorda com esses juízos estéticos?  Perguntar o que Deus considera sobre a beleza é deixar de todo qualquer noção sobre “opinião”. Deus concorda que procuremos contemplar a SUA formosura, como se canta no Sl. 27:4, ou as palavras são destituídas de intenção divina e, por isso, de inspiração? Pois se Deus não apenas faz juízos estéticos, mas é em si objeto de um juízo estético, a beleza se mostra ela mesma parte da estrutura do real. Por isso, um cristão jamais poderia abraçar com consistência o subjetivismo estético. Não que seja possível para qualquer outra pessoa, é claro.

Em uma perspectiva cristã, a beleza do mundo é um reflexo da Beleza Absoluta, um reflexo de Deus e das realidades espirituais, em uma analogia das coisas inferiores às superiores, uma tipologia natural-sobrenatural, na qual o menor indica o maior. Nas palavras de São Boaventura, a Beleza de Deus é pulchritudo pulchrificativa, beleza embelezadora, e nada lhe escapa. O ser humano, criado como imagem de Deus, seria também um reflexo da Beleza Infinita; a Face de Deus, de que fala Nicolau de Cusa, seria o arquétipo espiritual de todos os rostos humanos. Nas palavras de Jonathan Edwards:

“A razão, ou ao menos uma razão pela qual Deus tornou esse tipo de consonância [consent] mútua e concórdia entre as coisas belo e gratificante para os seres inteligentes que o percebem, provavelmente é que há nisso certa imagem da beleza verdadeira, espiritual e original da qual falei; consistindo na consonância do Ser ao Ser [Being’s consent to Being], ou na união das mentes ou seres espirituais em mútua propensão e afeição de coração. A outra é uma imagem dessa, porque por tal uniformidade as coisas diversas se torna como que uma, como ocorre nessa união cordial. E a agrada a Deus observar analogia em suas obras, como se manifesta de fato em casos inúmeros; e especialmente para estabelecer as coisas inferiores em analogia à superiores.” Jonathan Edwards, A Natureza da Verdadeira Virtude

Desse modo, a revelação dos atributos divinos na criação (Sl 19; Rm. 1:20) é inerentemente estética. Deus mostra seu Ser através de sua Glória, e sua Glória através da sua Beleza; aliás, sua Glória é sua Beleza, e seu Ser é sua Glória, e é desse modo que Deus se mostra a Fonte Infinita de onde se pode saciar o desejo humano mais elevado; todos os olhos esperam nele. A beleza exposta em toda parte é uma porta para a contemplação da imanência de Deus.

Correlativamente, a aproximação do homem a Deus não é apenas cognitiva e moral, mas também fundamentalmente estética. A comunhão divina é conhecer a Deus como Verdade Suprema, amar a Deus como Amor Supremo e também deleitar-se nele como Beleza Suprema. De fato, só quando nos deleitando em Deus nós nos abrimos radicalmente ao seu Amor e, assim, à sua Verdade. Aparece então a beleza de nossa própria alma: “A beleza espiritual consiste na conformidade à imagem divina.” (Johannes Micraelius).

Se em Deus, assim, o Bom e o Belo se correspondem, coexistem,  se convertem, se eles formam uma unidade inseparável, também é assim em toda a criação. “Assim também, o Belo é idêntico ao Bom, porque todas as coisas sempre aspiram ao Belo e ao Bom, e nada há que não participe do Belo e do Bom.” (Pseudo-Dionísio, Nomes Divinos IV, VII). Assim também, no Bom e no Belo resplandece o mesmo Verdadeiro.

Essa unidade entre verdade, bondade e beleza nos diz algo de importante sobre discordâncias sobre esta última. Diferentes juízos sobre a beleza podem resultar de diferente atenção prestada ao objeto do juízo — pessoas diferentes podem atentar para dimensões diferentes do mesmo objeto e fazer juízos ao mesmo tempo verdadeiros e contraditórios. Verdadeiros porque remetem-se a belezas ou feiúra realmente presentes no objeto, defeitos reais, e contraditórios porque parciais. Assim, a beleza poética só é inteiramente perceptível para quem domina a língua, e à medida que a domina. O bom gosto seria o gosto que atenta para a totalidade e que julga conforme a totalidade.

De fato, a beleza está na unidade, no sentido uno, na forma una percebida em meio ou para além da pura potencialidade da matéria jacente, a ordem uma em meio ao caos. Quando os estetas de toda as épocas assinalaram certos cânones da beleza — consonância, proporção, simetria, harmonia, integridade, inteireza —, o que no fundo viram é a unidade que se mostra em todas essas coisas, e que normalmente se perde quando elas se perdem. O Belo é o Uno, e nos tornamos incapazes de perceber e julgar a beleza tanto mais quanto nos fazemos insensíveis à unidade das coisas. Perder a beleza é perder a esperança.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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