Você acredita na predestinação sem saber

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Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Romanos 8:29

Se você é cristão, provavelmente acredita em alguma forma de predestinação, mesmo que não goste da palavra ou não se dê conta. Com isso, quero dizer que certa forma de predestinação está implícita na crença, compartilhada por todos os cristãos, de que Deus criou (e sustenta) o Universo, e que ele sabe de todas as coisas, inclusive o futuro de sua própria Criação.

A lógica não é difícil de seguir ou imaginar: ao criar tudo o que existe, Deus já sabia de todos os resultados que se seguiriam, mesmo que suponhamos que ele também criou os seres humanos como pessoas livres, autônomas, capazes de ser causas relativamente independentes de suas próprias vontades e de decidirem seus destinos de acordo com várias possibilidades ofertadas. O fato é que, ao criar cada pessoa, ou ao criar o universo no qual essas pessoas viriam a existir, Deus levou ao surgimento de pessoas que ele sabia que seriam condenadas.

Afirmar que as criaturas são livres sem dúvida exime o Criador de qualquer tentativa blasfema de lhe imputar ou atribuir os pecados das criaturas, como se fosse o autor do mal, mas a conclusão ainda é inescapável: Deus criou pessoas que poderia não ter criado, mesmo sabendo o resultado terrível que suas vidas teriam. Seu ato criador é condição para os resultados eternos das vidas temporais das criaturas.

Confesso que a linguagem acima me causa algum desconforto, pois é, de certo modo, deísta, tratando Deus apenas como um Criador distante, um ordenador do universo, um relojoeiro. Pois Deus não é apenas a primeira causa de todas as coisas como se fosse apenas a primeira peça da cadeia; ele continuamente proporciona o ser a tudo o que há. No entanto, mesmo supondo Deus como primeira causa em sentido mais fraco, ainda assim o resultado é inescapável: a liberdade da primeira causa em provocar o início de tudo o que depois viria a ser.

Isso não significa, é claro, que Deus seja responsável por qualquer mal moral que haja ou venha a haver, nem mesmo que o aprove, o que daria no mesmo. Quem fundou uma cidade não é culpado dos crimes que (inevitavelmente) ocorrerão ali. Mas é preciso, no mínimo, consentir no risco indesejado, e a Onisciência Divina transforma o risco em uma certeza. Só a Presciência não seria suficiente para nos convencer da predestinação; pois sabemos que o Sol nascerá amanhã, e nem por isso somos responsáveis. O que está em jogo é a ação divina; o Presciente Absoluto é o Criador Eterno, inseparavelmente. Deus contribuiu, de algum modo, para o resultado.

Por isso eu tenho certa simpatia por alguns calvinistas que, seguindo Calvino (Institutas III, 23, 7), especulam, com erro e blasfêmia, que Deus desejou a Queda do Homem, que ele a preordenou. Pois Deus, o Bem Supremo, não pode desejar o pecado em si — Sua Vontade é Sua Lei e Sua Lei é sempre Sua Bondade — e, no entanto, mesmo que para permitir um bem maior, ele criou o homem que livremente cairia, nas condições em que cairia. Isso escandaliza também os “teístas abertos”, que, para tanto, precisam negar a Presciência Divina.

Ademais, levando em conta que Deus não apenas cria o universo, mas o cria de certa maneira, e que age sobre esse mundo também de várias maneiras, percebemos que a ação divina sobre o mundo — assim como sua permissão para que a criação eventualmente tome um curso de acordo com sua própria potencialidade — no mínimo o influencia nos seus resultado se, portanto, ao destino eterno de cada pessoa; não fosse assim, cada criatura teria a mesma liberdade que o Criador, imune a tudo, o que é absurdo. Tudo isso é claro, já estava previsto e decidido antes do universo ser criado, eternamente.

Finalmente, Deus não apenas criou o universo sabendo do resultado certo e consentido, e sua influencia provoca resultados desejados, mas julgará a cada um. No fim, Deus mesmo decidirá o destino eterno de cada pessoa, e esse destino é algo que ele mesmo já sabe de antemão — pois para o Eterno não há o antes e o depois —, e que já sabe como influenciará. Em outras palavras, o destino eterno das criaturas não depende simplesmente de suas escolhas; depende do Ato Criador Eterno, do Ato Sustentador Eterno, do Ato Julgador Eterno.

Essa “predestinação fraca” — permitam-me o americanismo — não exclui o livre-arbítrio, mesmo entendido como a possibilidade de escolher diferentemente (contingência sincrônica); mas implica dizer que não há como fugir do destino eterno que a mente divina não apenas contempla, mas prepara. Deus criou Judas sabendo do seu destino.

Há formas de tentar escapar das conseqüências desse argumento. Pode-se apelar para a distinção entre natureza e graça: embora Deus tenha criado todas as coisas (natureza) sabendo do futuro, ele nos concede, sobrenaturalmente, uma quota transcendente de liberdade em relação às circunstâncias (graça), especialmente as circunstâncias ligadas ao pecado e à ignorância espiritual, e isso nos tornaria radicalmente independentes para abraçar ou rejeitar a salvação eterna. O argumento é em vão. A predestinação fraca passa por cima dessa distinção, pois despreza todos os meios e encara, a princípio, apenas o começo (criador) e o fim. A despeito do que se diga sobre o modo como o bem, o mal, a salvação e a condenação ocorrem entre as criaturas, Deus olha as criaturas sabendo desde já seus resultados; olha, talvez, como Leibniz, o ocasionalista, olhava as mônadas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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