Cristologia Supralapsária: A Primazia Absoluta de Cristo

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Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Apocalipse 22:13

Quando contemplamos o mundo que nos cerca, em toda a sua beleza, grandeza, ordem e poder, com olhos que enxergam e ouvidos que ouvem, não podemos deixar de notar o sentido transcendente que se nos anuncia e que nos chama a algum lugar. Essa voz ecoa mesmo diante das perplexidades que, no mesmo mundo, se colocam diante de nós — a aflição e o desamparo, a morte e o caos. Se essa voz na Criação revela a presença de uma Realidade Última que dá sentido a todas as coisas e que é o sentido de todas as coisa, por outro lado ela também se mostra um grande enigma, uma grande parábola, um grande mistério.

É em torno desse mistério que revolve a fé cristã. A mensagem do Evangelho diz respeito ao “mistério que desde tempos eternos esteve oculto” (Rm. 16:25; Ef. 3:9; Cl. 1:26), desconhecido até mesmo “dos principados e potestades nos céus” (Ef. 3:10). Se por um lado a religião hebréia surge do encontro com a origem e centro da existência, o Deus único, o Criador do universo, o Alfa, o Primeiro, o Princípio, Javé, a fé cristã é a revelação do Ômega, o Verbo Divino em quem e para quem tudo existe, Jesus Cristo, o Filho de Deus. Nas palavras de Cl. 1:13-20, que contém um hino a Cristo:

Ele nos libertou do império das trevas
e nos transportou para o reino do Filho do seu amor,
no qual temos a redenção, a remissão dos pecados.
Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;
pois, nele, foram criadas todas as coisas,
nos céus e sobre a terra,
as visíveis e as invisíveis,
sejam tronos, sejam soberanias,
quer principados, quer potestades.
Tudo foi criado por meio dele e para ele.
Ele é antes de todas as coisas.
Nele, tudo subsiste.
Ele é a cabeça do corpo, da igreja.
Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos,
para em todas as coisas ter a primazia,
porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude
e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz,
por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas,
quer sobre a terra, quer nos céus.

A criação tem um propósito, uma orientação fundamental, que se encontra no Deus Encarnado, a imagem do Deus invisível, que em todas as coisas tem a primazia e em quem reside toda a plenitude. Tudo foi criado para ele. Mesmo o ser humano, criado à imagem de Deus, foi criado para Cristo. Com essas palavras sobre a imagem (eikōn) do Deus invisível, o apóstolo Paulo não se remete à identidade pré-encarnada do Logos, também invisível, mas ao Deus entre nós, que assumiu a natureza humana na qual pôde dizer aos seus apóstolos: “Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo. 14:9). Somente encarnado ele pode ser o eikōn, o ícone de Deus. O Deus que, por sua invisibilidade, proibira aos homens fazer imagens suas (Dt. 4:15s), agora provê a sua imagem perfeita, o seu tabernáculo, naquele que é resplendor da sua glória e a expressa imagem do seu ser (Hb. 1:3). O ser humano foi criado para o Deus Encarnado, o Exemplar do qual a imagem menor do homem não é senão um símbolo.

De fato, Deus predestinou os eleitos “para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmão” (Rm. 8:29). A “imagem do seu Filho” só tem sentido caso se refira à Encarnação; o Deus Encarnado é o modelo para o qual somos (ou esperamos ser) predestinados. Do contrário, não haveria razão para mencionar especificamente o Filho. Em outras palavras, Deus tanto cria quanto predestina tendo em mente a Encarnação. O plano divino é reunir em Cristo, no Deus Encarnado, todas as coisas nos céus e na terra (Ef. 1:9-10); afinal, é nele que se unem Divindade e humanidade, céus e terra, e só unidos espiritualmente nós nos tornamos “participantes da natureza divina” (2Pe. 1:4; cf. 1Co. 6:17). Esse é o propósito para o qual Deus nos criou, e esse é o propósito da Encarnação do Verbo. Como disseram tantos pais da Igreja, como Irineu e Atanásio: Deus se fez homem para que o homem fosse deificado.

Por outro lado, as Sagradas Escrituras parecem atrelar fortemente a Encarnação do Verbo à redenção e libertação do homem quanto ao pecado. Deus “enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1Jo. 4:10), ele “enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos.” (Gl. 4:4-5), “o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.” (Lc. 19:10) e “ele se manifestou para tirar os pecados” (1Jo. 3:5), e o mesmo dizem diversos outros textos. A mensagem cristã é a “palavra da cruz” (1Co. 1:18). É certo que, tendo havido o pecado, Cristo veio nos redimir dele, e ele é a única redenção provida por Deus. Mas esses textos devem ser encarados com estrita exclusividade, ou são sinédoques de uma realidade mais ampla (cf. Mc. 1:38; Lc. 4:18-19; Jo. 18:37)? Esse sacrifício de Cristo, derramando sangue pelos homens, é o único propósito?

Levando em conta essas considerações, e reconhecendo a importância tanto da redenção quanto da deificação, os teólogos se perguntaram o que tem precedência no plano divino: Cristo fez-se homem apenas para redimir, ou a Encarnação tem algum propósito independente da redenção? Frequentemente essa questão é colocada historicamente como um debate entre tomistas (a redenção é o propósito da encarnação) e escotistas (Cristo é o propósito da encarnação): se o homem não tivesse pecado e caído, Cristo, o Deus Encarnado, teria vindo ao mundo?

A questão nos apresenta um duplo constrangimento: ela parece demasiado especulativa, mas negar sua importância é negar a importância do próprio Cristo. Seria a união da humanidade e divindade em Cristo, a maior obra de Deus (o summum opus Dei), um resultado exclusivo do pecado, apenas uma resposta ou remédio para o pecado? A expiação é a razão primária para a Encarnação? Afinal, se o propósito predestinado é a deificação, a conformação à imagem de Cristo, e se é para o Deus Encarnado que tudo foi criado, a Encarnação parece ter um propósito mais profundo e independente da redenção, e indicado na própria natureza humana em sua origem, como imagem de Deus. O homem, imagem de Deus, foi criado para Cristo, imagem de Deus.

Quando perguntamos se Cristo teria vindo à humanidade sem a queda, o propósito não é especular uma questão irrespondível, mas tratar das implicações dessa questão. Se há, na Encarnação, benefícios independentes da redenção —  mesmo que, na situação atual, pós-lapso, só se realizem com a redenção—, então parece que Cristo teria vindo ao mundo mesmo que o homem não tivesse pecado. Mesmo em Gl. 4:4-5, que atrela tão fortemente a Encarnação à redenção, existe um propósito final para essa redenção “a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl. 4:4-5). Pode-se dizer que nossa salvação envolve, grosso modo, um lado negativo (a redenção do pecado) e um lado positivo (a participação ou comunhão na natureza divina). Em razão de nossa condição pecadora, a redenção é um requisito para a comunhão — muito embora a redenção também não seja possível sem o princípio da comunhão, nossa união espiritual e sacramental em Cristo —, e Cristo é o mediador de ambas, e nele elas constituem uma mesma graça. Assim, encontrar na Encarnação um propósito anterior à cruz não significa, de modo algum, diminuir a cruz. Não há como exaltar a Cristo sem exaltar a cruz, pois o único Cristo é o Crucificado (1Co. 2:2), e, por isso, a obra redentora está plenamente presente em Cl. 1:13-20: redenção, remissão dos pecados, fazendo a paz pelo sangue da cruz, reconciliando consigo todas as coisas.

Grandes nomes defenderam o contrário — que a Encarnação é orientada à redenção —, ou ao menos parecem tê-lo feito. A teologia cristã ocidental foi grandemente impactada por Santo Anselmo de Cantuária (Cur Deus Homo), que localizou o propósito da Encarnação na penitência vicária realizada por Cristo em favor de todos os homens, satisfazendo a Deus pela desonra causada pelos pecados humanos, de certo modo pagando a nossa dívida; somente o homem poderia realiza-la (pois foi o homem que pecou), e somente Deus poderia realiza-la (pois somente Deus teria como pagar o preço), isto é: somente o Deus-homem poderia realiza-la. Embora pudesse referir-se à Escritura, como o fizeram depois seus seguidores (como Santo Tomás), Anselmo procurou dar uma resposta que muçulmanos e pagãos, que não crêem no testemunho sagrado, poderiam ouvir, explicando a Encarnação do Verbo sem depender da Escritura, usando apenas a razão, sola ratione. Ora, uma teologia construída sem referência à revelação precisaria vincular a encarnação à expiação, pois a razão pura não é capaz de penetrar nos mistérios de Deus — ocultos até mesmo dos anjos! —, mas apenas em causas mais gerais, em analogia às relações humanas: honra, justiça, dívida, pagamento, restituição, etc. Essa vinculação torna a união hipostática quase supérflua após a crucificação ou a ressurreição, isto é, após paga a dívida.

De fato, parece haver na Encarnação propósitos que excedem o homem (sem desconsiderá-lo), atingindo principados e potestades: “porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade. Também, nele, estais aperfeiçoados. Ele é o cabeça de todo principado e potestade.” (Cl. 2:9-10). Esse propósito parece depender da Encarnação, mesmo sendo anterior à criação do homem.

Essa primazia de Cristo nos ajuda a entender também o pré-lapso, pois faz com que o Deus Encarnado seja a fonte da santificação do primeiro homem antes de sua queda, o telos ao qual ele já estava orientado. Cristo não é um “plano B” para a união do homem com Deus, mas o plano único. Pois Cristo não foi feito para o homem, mas o homem, para Cristo. João Duns Scot referia-se a essa realidade através da noção de ordinate volens: quem deseja ordenadamente, deseja primeiro o fim, e depois o meio, isto é, deseja o meio em razão do fim, e não o contrário. Se o fim é Cristo (o Verbo Encarnado), o meio (a humanidade) é orientado a esse fim, e não o contrário; o menor é orientado ao maior. O Universo é orientado para Deus? Isso os pagãos da Antigüidade sabiam. O grande mistério, que não conheciam nem podiam conhecer, é que o universo é orientado para Cristo, para o Logos Encarnado. O ser humano tem naturalmente um propósito que só poderia ser realizado sobrenaturalmente; o homem é orientado ao Eterno.

Sempre pode-se alegar que, embora haja um propósito superior na Encarnação — a deificação do homem —, esse propósito poderia ser realizado por Deus sem a Encarnação; afinal, Deus é Deus. Ainda assim, nenhuma outra forma pode ser igualada ou equiparada, nenhuma outra maneira pode ser considerada tão adequada, nada pode ser equiparado ao Deus Encarnado, que em tudo tem a primazia. Pois somente através de Cristo é que a criação presta um culto perfeito a Deus — não um culto aceitável conforme a limitação de cada natureza, mas um culto do qual Deus é digno —, pois Cristo é ao mesmo tempo o Criador, como Deus, e criatura, como homem. Somente em Cristo a criatura poderia render a Deus a adoração devida. Se a criatura foi feita para manifestar a glória do Criador, nada é ou jamais será mais adequado, como o canal dessa adoração, que o próprio Cristo Encarnado. Aprouve a Deus, em sua sapientíssima providência, permitir a entrada do pecado no mundo, para perdoá-lo na Cruz de Cristo, a suprema manifestação da glória de Deus no amor da auto-entrega ao sofrimento.

Rev. Gyordano M. Brasilino

 

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