Objetos devem ser abençoados?

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Sucederá, pois, que, por ouvirdes estes preceitos, e os guardardes e cumprirdes, o Senhor teu Deus te guardará o pacto e a misericórdia que com juramento prometeu a teus pais; ele te amará, te abençoará e te fará multiplicar; abençoará o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, o teu grão, o teu mosto e o teu azeite, a criação das tuas vacas, e as crias dos teus rebanhos, na terra que com juramento prometeu a teus pais te daria. Dt. 7:12-13

A fé cristã proclama que Deus Pai é o Criador do céu e da terra, e que não há Criador além de Deus, que fez todas as coisas com um propósito eterno. Ele não apenas criou tudo, mas as criou com um propósito — pois o que a existência da criatura, senão uma inclinação para o futuro? —, como um presente intra-trinitário. Se todas as coisas foram feitas para Deus, para encontrar nele a própria plenitude e realização, também que nosso próprio corpo é para o Senhor (1Co. 6:13-15). Nossos corpos, não somente nossas almas, são sacrifícios vivos para Deus; nossos corpos, não somente nossas almas, são templo do Espírito Santo (Rm. 12:1; 1Co. 6:18-20). O mesmo mistério une a redenção dos nossos corpos e a libertação de toda a criação, para que todo o universo possa cumprir o desígnio inicial (Rm. 8:19-23).

Criado à imagem de Deus, o homem tem o papel de orientar toda a criação na direção da adoração ao Criador. Por isso, o culto a Deus nunca é, nas Sagradas Escrituras, um culto simplesmente natural ou simplesmente interior, mas sempre densamente cultural — envolvido com o trabalho e a arte humanos, no sentido mais amplo — e, por isso, densamente exterior. Quando apresentava o seu trigo e seu cordeiro, o hebreu sob a Antiga Lei não colocava diante de Deus meros frutos da natureza, mas resultados de um intenso trabalho agrícola e pecuário, e o trazia ao altar, no Tabernáculo ou no Templo, com o qual o esmero humano honrava ao Criador.

Por um lado, só por existir e resplandecer a glória do Criador, cada criatura já o honra; por outro, “recolhida” pelo homem, ela pode participar de uma adoração mais profunda e rica. De fato, isso ocorre mesmo quando a criatura não é colocada, digamos, em um sacrifício propriamente dito. Se ela permite a subsistência do homem enquanto adorador, ela serve de maneira mais explícita ao seu propósito transcendente. Quando, seguindo o exemplo de Cristo e dos apóstolos, damos graças pelos alimentos antes de recebe-los, reconhecemos em Deus tanto a cuidadosa providência quanto a primazia em inserir um sentido sagrado naquilo que é fruto de trabalho humano: a Escritura declara que esses alimentos são santificados pela oração (1Tm. 4:4-5). Por isso também, a Escritura, seguindo o costume judaico, considera essas orações também de bênçãos, b’rachot (cf. Mc. 6:41; 8:7). Pois Deus abençoa o alimento, com multiplicação, em função do homem, e essa é a promessa mosaica: “Bendito o teu cesto e a tua amassadeira. (Dt. 28:7).

Certos objetos e lugares seriam, por isso, abençoados, consagrados, dedicados a Deus, de maneira especial, para cumprir aquilo que é propósito de toda a criação. Tais objetos seriam imbuídos da presença divina e tomados como posse exclusiva de Deus, seriam santos e tudo o que os tocasse seria também santo: o altar, as ofertas, etc. (cf. Êx 29:37; Lv. 6:15-18,25-27). No Novo Testamento, igualmente objetos são veículos de cura divina, como a roupa de Cristo e os lenços de Paulo (Mc. 6:52; ; At. 19:11-12), assim como o óleo (Mc. 6:13; Tg. 5:14-15), através do qual Deus concede também o perdão dos pecados.

O exemplo supremo da “bênção” concedida a objetos é a Eucaristia. Seguido o padrão das bênçãos que levaram ao milagre da multiplicação (Mc. 6:41; 8:7), Cristo institui a Eucaristia como um ato de bênção a elementos para um tipo diferente de multiplicação (14:22). Por isso, o apóstolo Paulo se remete especificamente ao ato litúrgico de “abençoar” o “cálice de bênção”: “Porventura o cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Pois nós, embora muitos, somos um só pão, um só corpo; porque todos participamos de um mesmo pão. “ (1Co. 10:16-17).

Uma espiritualidade puramente cartesiana, puramente dualista, puramente racionalista, separando demais a matéria e o espírito, res extensa e res cogitans, é incapaz de abraçar esse mistério. Parece-lhe escândalo, parece-lhe superstição, mas a verdade é que o Deus das Sagradas Escrituras, o Deus Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, é o Deus Criador dos céus e da terra, e nada há que possa escapar ao seu toque e à sua presença.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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