Paciência: a importância de (não) aceitar o sofrimento

Flagellation of our Lord Jesus Christ - Bourguereau

Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário e fique em silêncio; porquanto esse jugo Deus pôs sobre ele; ponha a boca no pó; talvez ainda haja esperança. Dê a face ao que o fere; farte-se de afronta. O Senhor não rejeitará para sempre; pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias; porque não aflige, nem entristece de bom grado os filhos dos homens. Lamentação 3:27-33

Não é fácil encontrar o lugar da resignação na fé cristã. O próprio Cristo nos parece o modelo máximo de resignação e irresignação. Ele curou cegos, leprosos e paralíticos, libertou possessos, se opôs aos poderes constituídos deste mundo — os líderes judeus e romanos que agiam como títeres das hostes espirituais da maldade —, e elogiou o exemplo de fé de várias pessoas que, não se resignando à doença e ao diabo, procuraram nele cura e libertação. Mas, como um cordeiro mudo, Cristo desceu ao seu suplício, e, mesmo temeroso do sofrimento que teria de padecer, orou entregando-se à vontade do Pai — “não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc. 14:36) —, levando sobre si e expiando a culpa de todos pelo sacrifício de si mesmo, o justo pelos injusto.

Por isso também, seguir o exemplo de Cristo e pedir, no Pai Nosso, que seja feita a vontade do Pai, assim na terra como no céu, é entregar-se inteiramente à vontade do mesmo Pai, mesmo que nos pareça dolorosa, ou antes de nos parecer dolorosa, e, ao mesmo tempo, irresignar-se diante do mal do mundo, quando somos vítimas da injustiça. Entender que a Providência Divina ordena todas as coisas nos céus e na terra e, então, resignar-se ao que ela parece colocar diante de nós, nos levaria a uma passividade criminosa, não fosse pelo que o Senhor nos ensina: que através da oração, nós participamos da realização da vontade divina no mundo, e que essa vontade não está apenas naquilo que vemos com os olhos, mas também naquilo que contemplamos com a fé. Essa oração nos prepara para o nosso destino, pedindo, contudo, que ele seja o melhor destino: a vontade de Deus. Pois não é do seu coração (millibô) que Deus aflige os filhos dos homens.

A fé cristã não soluciona o mistério do sofrimento, mas fornece o único modo de lidar com ele. Talvez seja melhor, em vez de resignação, falar em paciência, pois paciência significa, ao mesmo tempo, saber esperar e saber sofrer — aceitar o sofrimento e lutar contra ele —, com os olhos fitos na viva esperança, em Deus. O mistério do sofrimento é parte do sofrimento; sofremos mais quando sofremos sem um sentido, sem entender o propósito. Só somos capazes de esperar pacientemente quando sabemos que há um sentido no sofrimento.

Parte da impaciência é propor respostas erradas para o problema do sofrimento, ou fugir dele de todo. É verdade que o sofrimento nos torna pessoas mais pacientes, e a Escritura testemunha essa verdade (Rm. 5:3; Tg. 1:3); de que serviria essa paciência, senão para sofrer ainda mais? É como dizer que o propósito do sofrimento é o próprio sofrimento. Também é verdade que quando sofremos e somos consolados, podemos consolar os que sofrem (2Co. 1:4) — nós nos tornamos mais compassivos —, mas isso não nos explica por que eles sofrem. Novamente o propósito do sofrimento é o próprio sofrimento. Por fim, é verdade que através da aflição nós aprendemos, seja através do castigo ou não (Sl. 119:71), mas não é impossível para Deus que aprendêssemos sem o sofrimento e, de fato, em muitos momentos não aprendemos coisa alguma. Se aprendemos a confiar mais em Deus passando pelo sofrimento (2Co. 1:8-9), essa confiança só faz sentido para passarmos por mais sofrimento. Tudo isso é verdade, mas nada disso “soluciona” o mistério do sofrimento.

Na verdade, o mistério do sofrimento não tem uma “solução”; ele não é um “problema”, no sentido intelectual da expressão. Pois não há como justificar o sofrimento sem, ao mesmo tempo, tornar-se passivo diante dele e passar a aceitar o sofrimento de outras pessoas, e Deus não nos fez para o sofrimento, mas para a vida eterna. Os mistérios não podem ser solucionados, mas apenas contemplados em profundidade.

Também é verdade que o sofrimento às vezes é parte da disciplina do Pai para nossa santificação (Hb. 12:10-11), como Paulo foi afligido por Satanás para que não se exaltasse (2Co. 12:7), e talvez isso nos leve a uma profundidade maior. Receber o mal em nós mesmos, participar do sofrimento que nós provocamos, é parte da justiça divina. Quando nos ensinou que devemos fazer aos outros o que gostaríamos que se nos fosse feito, Cristo simplesmente repete um princípio profético: “Porque o Dia do Senhor está prestes a vir sobre todas as nações; como tu fizeste, assim se fará contigo; o teu malfeito tornará sobre a tua cabeça.” (Obadias 15). Diante disso, aceitar o sofrimento é parte de nossa conversão: é a “tristeza segundo Deus” (2Co. 7:9), e os pecadores são mesmo chamados a se afligirem, lamentarem e chorarem, trocando o riso pela tristeza (Tg. 4:8-10). Se é verdade que às vezes há exageros mórbidos, também é verdade que sem tristeza e aflição, não há conversão.

Por outro lado, também sofremos por fazer o bem, e isso sob a vontade de Deus: “Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus.” (1Pe. 2:20a). É nesse momento que devemos oferecer a outra face, aceitar o sofrimento, como um sacrifício a Deus. O dualismo é uma das heresias mais tentadoras: Deus é bom, o diabo é mau, o bem vem de Deus, o sofrimento vem do diabo, por isso o sofrimento não deve estar presente em nossas vidas; Deus quereria nossa prosperidade, e tudo o que fosse contra ela seria um ataque do diabo. Que idéia simples, que tentação diabólica! Diferente de Cristo, a atitude de Pedro diante do sofrimento foi a do escândalo — rejeitá-lo e até lutar contra ele: “Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá.” (Mt. 16:22).

É errado pensar que Deus não se importa com nossa prosperidade e bem-estar. Mas há coisas mais importantes do que nosso estado mundano. Deus quer nossa prosperidade, mas de acordo com as verdadeiras prioridades. Por isso também, Deus nos priva de um tesouro terreno para nos dar um tesouro celestial: a leve e momentânea tribulação produz um peso eterno de glória, e os sofrimentos presentes não se comparam a essa glória futura (Rm. 8:17-18; 2Co. 4:17-18).

Mas isso apenas se sofrermos com ele, tendo a “comunhão dos seus sofrimentos” (Fp. 3:10), nos tornando “co-participantes dos sofrimentos de Cristo” (1Pe. 4:13), sofrendo as “aflições do evangelho” (2Pe. 1:8), quando “as aflições de Cristo são abundantes em nós” (2Co. 1:5). Diante do exemplo de perseverança e fé dos tessalonicenses nas perseguições e provações, a Sagrada Escritura nos ensina que sofriam assim porque eram dignos do reino de Deus (2Ts. 1:4-5), pois a é através de muitas tribulações que entramos neste reino (At. 14:22). Assim como a fé, a aflição por Cristo é uma dádiva celeste (Fp. 1:29), e é um sinal da habitação do Espírito (1Pe. 4:14).

A fé cristã nos ensina a ver o passado e o presente sempre na perspectiva do arrependimento, da compaixão, da gratidão e do perdão, e para nós essas coisas, como várias outras, só existem num mundo onde há ou houve sofrimento. Amor exige sacrifício, e sacrifício exige renúncia e sofrimento. Esse mistério escapa nossa compreensão, não por ser obscuro, mas por ser demasiado luminoso. Nesse sentido, o mal do sofrimento — que nunca está no nosso controle e nunca escapa ao controle de Deus — permite um bem maior. Deus tanto dá quanto toma de volta (Jó. 2:10), e assim devemos aprender a estar contentes em toda situação, tanto no muito quanto no pouco, pois nada é nosso (Fp. 4:11), sofrendo com fé, esperança e amor. Pois o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s