Teologia da Comida contra os puritanismos

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Henry Louis Mencken (1880–1956) certa vez definiu o puritanismo como “o medo assombrador de que alguém, em algum lugar, possa estar feliz”. Essa é uma definição é, em si, assombradora, especialmente para alguém (não eu) que tenha algum apreço particular pelo puritanismo histórico. Afinal, o medo da felicidade alheia está bem perto da definição da inveja, mas aqui parece haver uma diferença crucial e talvez ainda mais assustadora: não se trata, como na inveja, de um desejo de roubar a felicidade alheia, mas apenas de eliminá-la, persegui-la, puni-la. “O novo puritanismo não é ascético, mas militante. Ele não almeja alçar santos, mas derrubar pecadores.” O puritano seria um inimigo de todos, usando de ferro e fogo para infernizar a vida alheia.

Eu mesmo não sou nenhum historiador do puritanismo, e, por isso, não me aventuraria a afirmar a adequação dessa definição, igualmente interessante e extravagante. Mas há o que se conservar dela: no mundo moderno, freqüentemente certas formas de perseguição obsessiva da felicidade alheia se parecem muito com o zelo puritano, com a moralidade puritana estrita, com o senso aguçado de pureza e com a pouca paciência para com as imperfeições da vida comum. Ainda que nosso mundo exalte o prazer, ele também procura reprimi-lo, limitá-lo de várias maneiras.

Pense, por exemplo, em como lidamos com a comida. Assim como já se escreveu, como entre os pais da Igreja, que o sexo é apenas reprodução, vê-se hoje pensar que comida é só nutrição, e que o que passar disso procede do Maligno. Deus aparece aí, de alguma maneira, como inimigo do prazer; tudo o que passa da estrita animalidade (reprodução, nutrição) é gula, é luxúria, é a concupiscência do homem caído. Uma monomania, uma obsessão pelo simples facilmente nos domina.

É surpreendente: agora precisamos ler as Escrituras não apenas para aprender a crer e a orar, mas também para aprender a comer. Pois nas Escrituras somos ensinados a comer com prazer, com deleite, e não apenas como nutrição: “Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras.” (Eclesiastes 9:7). Para isso, Deus concede “o vinho, que alegra o coração do homem” (Sl. 104:15). A alegria de quem festeja ao Senhor envolve comer as gorduras e beber as doçuras: “Disse-lhes mais: ide, comei carnes gordas, tomai bebidas doces e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do SENHOR é a vossa força.” (Neemias 8:10)

O trabalho do diabo, o pai da mentira e da gnose, é, ao contrário, proibir o casamento e proibir os manjares dados por Deus (1Tm. 4:3). Com base na lógica da nutrição exclusiva, cria-se uma nova categoria de alimentos permitidos e proibidos, puros e impuros; a gula deixa de ter a ver com desejo e passa a ter a ver com dieta. Como de costume, o diabo especializa-se em encher o saco.

Comer é uma atividade intensamente social. Estar integrado a uma casa ou a um círculo de amigos significa, em algum momento, comer com eles, e essa era uma das preocupações missionárias do apóstolo Paulo quando da conversão dos pagãos, que viviam ainda em sociedades em que a comida sacrificada aos ídolos era comum (cf. 1Co. 10:25-27). Negar a mesa é negar a comunhão (Gl. 2:12). Preocupações nutricionais exageradas acabam rompendo a unidade de partir o mesmo pão, mostrando até ingratidão com a hospitalidade oferecida, pois no fim das contas cada pessoa tem sua própria necessidade nutricional.

A fé cristã é inerentemente anti-sectária também na mesa: “comei de tudo o que se vende no mercado” (1Co. 10:25), “o que não come não julgue o que come” (Rm. 14:3), “Tudo quanto se move, que é vivente, será para vosso mantimento” (Gn. 9:3), “tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado.” (1Tm. 4:4-5). Por isso, um cristão pode ser vegetariano, mas jamais vegano: Cristo comia carne (o cordeiro pascal) e peixe. A teologia cristã da comida é a doutrina do homem comum, quase feita em sacramento.

Felizmente, as pessoas continuam comendo socialmente; a necessidade é maior que a ideologia. A comida une as pessoas, e unidade delas deve permanecer mesmo quando ainda houver diferenças alimentares entre elas (Rm. 14:1-4). Ainda assim, os cristãos são unidos por um mesmo alimento, o mesmo pão e o mesmo cálice, no qual nos tornamos o que comemos: “Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão.” (1Co. 10:17).

Rev. Gyordano M. Brasilino

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