Deus odeia alguém?

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E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. Lucas 6:32,35

Há alguém que Deus odeie? Costuma-se dizer que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. É uma declaração fácil de se fazer, e parece responder à pergunta. Como o gênero humano, à exceção do Filho de Deus, é formado de pecadores (uns arrependidos, outros não), o amor de Deus pela humanidade tem de ser um amor por pecadores (Rm 5:8), sendo também, contudo, um amor que os transforma.

Mas não é difícil encontrar passagens bíblicas, como Sl 5:5 ou 11:5, em que se fale do ódio divino por pecadores, e, com base nelas, há quem afirme sem qualquer vergonha: Deus de fato odeia os pecadores.

Salmos 5:5: “Os orgulhosos não terão lugar em tua presença,
pois odeias todos que praticam o mal.”

Isso gera muitos problemas para a nossa compreensão sobre como nosso próprio amor pelo próximo se radica na benevolência divina (Lc. 6:32,35); afinal, se Deus não ama alguém, Cristo não ama alguém, não há motivo para amarmos a essa pessoa. Esse tipo de problema surge quando somos insensíveis para o círculo hermenêutico, sem um conhecimento adequado do cunho histórico, cultural e lingüístico das Escrituras. Impomos ao texto bíblico significados alheios à intenção original. O problema se agrava à medida que o sentido imposto se assemelhe ao sentido original, exigindo maior meditação.

É característico do modo hebreu de expressão o traço figurativo que George B. Caird chamou absoluteza” (absoluteness), que consiste em um uso de hipérboles adversativas, exageros propositalmente colocados para marcar em preto e branco aquilo que na realidade admitiria gradações. Um exemplo paradigmático é “Amei a Jacó e odiei a Esaú” (Ml 1:2,3; Rm 9:13), mas os casos já referenciados de Salmos entram também nessa regra: ali se compara o justo e o ímpio. O modo hebreu de expressar uma preferência, um direcionamento, é a absoluteza. Não implica um ódio no mesmo sentido em que utilizaríamos a expressão em português.

A Sagrada Escritura tem muitos exemplos dessa linguagem figurada. Quando, em I Pe. 3:3-4, as mulheres são ensinadas a não buscar a beleza exterior, mas a interior, isso não implica a condenação absoluta e literal da beleza feminina, mas o estabelecimento de preferências entre a beleza espiritual e a beleza física. Do mesmo modo devem ser encarados muitos ditos radicais de Cristo. Mas um exemplo mais próximo talvez ajude. O texto de Lucas 14:26 na versão Almeida (Corrigida e Fiel) diz o seguinte:

Lucas 14:26: Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.

No português da Almeida, “aborrecer” significa odiar, e é uma tradução do verbo grego miseō (“odiar, detestar”). Jesus nos ensinaria a odiar nossos pais, mães, mulheres, filhos, irmãos, irmãs e a nós mesmos – inaceitável! A coisa muda inteiramente de figura quando comparamos esse mesmo dito de Jesus na versão de outro evangelho:

Mateus 10:37: Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim;

Mateus trata como relativo (amar mais, amar menos) aquilo que Lucas escreve em termos absolutos (amor, ódio). A maioria dos leitores simplesmente preferirá deixar o texto de Lucas de lado, dada a estranheza provocada pela exigência do texto, que não é a única no dificílimo capítulo 14 do Evangelho de Lucas. A versão lucana, interpretada literalmente, contradiz o mandamento do amor ao próximo. Felizmente, ela não é literal. Lucas simplesmente relatou aquilo que suas fontes semíticas (Lc. 1:1-4) relataram sobre as palavras de Cristo, enquanto Mateus deu-se ao trabalho de traduzi-las para um novo ambiente lingüístico-cultural.

Esse é o dano causado por traduções que seguem a regra da “equivalência formal”: ateus e cristãos igualmente escandalizados diante das palavras de Jesus. A coisa muda de figura quando lemos o mesmo texto na versão NVI ou NVT:

Lucas 14:26 (NVI): Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo.

A versão NVI de Lucas 14:26 é idêntica no essencial à de Mateus 10:37: temos novamente uma gradação. Jesus não exige que odiemos nossos familiares; não contradiz o amor ao próximo; apenas exige um amor superior. A versão NVI respeitou um traço do pensamento hebreu: não buscou preservar a individualidade das palavras do texto grego, mas o seu sentido, no momento em que era preciso sacrificar uma das duas coisas. A versão Almeida traduz o texto como se ele não fosse um caso de absoluteza.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Um comentário em “Deus odeia alguém?

  1. Mais um ótimo texto. Creio que para o leitor iniciante uma versão mais aproximada culturalmente é ideal. Entretanto há perdas significativas em muitos textos, até pela preferência de algumas doutrinas. Vide os textos que tratam da expiação.

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