Existe cooperação entre Deus e o homem na salvação?


Resultado de imagem para medieval blacksmith drawing

A Igreja Anglicana ensina a cooperação entre Deus e o homem na salvação?

A pergunta precisa ser entendida corretamente, pois é absolutamente falso e herético defender que a salvação resulta de uma contribuição humana ao trabalho divino, como se pudéssemos dar a Deus algo que ele não nos tenha dado antes, e como se a salvação não fosse um presente gratuito de Deus para nós. Cristo é o nosso Salvador. Nós não somos nossos próprios salvadores.

Por isso eu não pergunto se há tal cooperação para a salvação. Não há e nem pode haver. A pergunta é se há cooperação na salvação — não no ato de salvar, mas na condição de quem é salvo por Deus. Até que ponto se pode falar de cooperação humana em alguma etapa de nossa salvação? Após recebida, a graça de Deus nos habilita a algum tipo de cooperação com Deus na transformação de nós mesmos?

A Sagrada Escritura nos responde essa pergunta de várias maneiras. Por um lado, ela nos ensina que a vida eterna é um dom gratuito e, por outro, que é o fruto da semente que plantamos no Espírito (Rm. 6:23; 8:13; Gl. 6:8). É Deus quem transforma o nosso coração endurecido em um coração obediente (Ez. 11:19; 36:26) e, não obstante, também devemos mudar nosso próprio coração (Ez. 18:31; Tg. 4:8). Deus circuncida nosso coração para o amarmos (Dt. 30:6) e, ainda assim, cada um de nós deve circuncidar o seu coração (Dt. 10:16; Jr. 4:4). Cristo nos torna irrepreensíveis segundo sua eleição (1Co. 1:8; Ef. 1:4), mas exige que nos empenhemos em nos tornar irrepreensíveis (2Pe. 3:14).

A Escritura nos ensina a agir, mas ensina que é Deus quem realiza. Ele nos concede aquilo que nos exige de nós, para não duvidemos de que tudo resulta de sua graça; mas ele exige de nós aquilo que nos concede, para que não desdenhemos de nossa própria responsabilidade. Sem prejuízo da iniciativa divina, existe um conjunto de atitudes humanas tomadas na própria conversão e santificação. Fazemos aquilo que Deus faz em nós, e o texto mais especial, a esse respeito, talvez seja Fp 2:12-13:

desenvolvei [katergazesthe] a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua [ho energōn] em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.

Assim, segundo sua boa vontade, Deus opera em nós o querer e o realizar, fazendo com que desenvolvamos nossa salvação. Porque não somos meramente passivos nisso, o apóstolo Paulo diz “desenvolvei” (operai, realizai). Existe, por isso, um esforço genuíno por nossa parte na direção de Deus e da santificação, isto é, na recepção das bênçãos espirituais gratuitas em Cristo: “esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef. 4:3), “…reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude…” (2Pe. 1:5), “Esforcemo-nos, pois, por entrar naquele descanso…” (Hb. 4:11). O Senhor nos ensina sobre isso com palavras inequívocas:

Lc. 13:23-24: E alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os que são salvos?Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão.

Estando sob a graça, o pecado não tem domínio sobre nós, de modo que, quando pecamos, a autoria e responsabilidade é inteiramente nossa, havendo Deus feito o necessário para que não pecássemos (Rm. 6:14; 1Co. 10:13). Isso significa que nossa responsabilidade é não recebermos a graça em vão (2Co. 6:1), não cairmos da graça (Gl. 5:4), não nos separarmos da graça (Hb. 12:15), não extinguirmos o Espírito (1Ts. 5:19). Quando conseguimos fazê-lo, quando nosso esforço logra sucesso, tanto o esforço quanto o sucesso devem ser atribuídos a Deus.

No texto de Fp. 2:12-13, acima, há duas pessoas trabalhando, Deus e o homem — tanto o imperativo do homem (kat-erg-azesthe) quanto o particípio de Deus (en-erg-ōn) têm como raiz um trabalhar, operar (ergon). Se, por um lado, o trabalhar de Deus é incomparavelmente mais importante e infinitamente abrangente, não obstante o agir humano é genuíno, o esforço humano é genuíno.

A isso a teologia deu historicamente um nome: cooperação. Para preservar a iniciativa divina, Santo Agostinho percebeu dois momentos ou atividades da graça, segundo a precedência lógica: primeiro a graça operante, e então graça cooperante. Em um momento inicial, Deus age em nós, nos atraindo para Si, de uma maneira que excede nossa capacidade e vontade; mas então inicia-se um momento de cooperação com a graça, mas sempre sob a graça e suscitada pela própria graça, isto é, sempre sob o guiamento do próprio Deus. É como a cooperação entre o ferreiro e o martelo (a símile é tomista), ou como entre o homem (condutor) e a mulher em uma dança. Ele escreveu:

De gratia et libero arbitrio, 17 (33): Ut ergo velimus, sine nobis operatur; cum autem volumus, et sic volumus ut faciamus, nobiscum cooperatur: tamen sine illo vel operante ut velimus, vel cooperante cum volumus, ad bona pietatis opera nihil valemos.

Para que queiramos, ele opera sem nós; mas quando queremos, e queremos de modo a realizarmos, ele coopera conosco. Entretanto, sem que ele operando para que queiramos e cooperando quando queremos, nada podemos fazer em direção das boas obras de piedade.

Esses dois momentos, a graça operante (sine nobis operatur) e a graça cooperante (nobiscum cooperatur), que correspondem vagamente ao extra nos e o in nobis da teologia protestante (momento crístico e momento pneumático, dom  e fruto), foram retomados pela Igreja Anglicana no 10º Artigo de Religião, que trabalha sobre o texto agostiniano, relação especialmente clara no texto latino (mais do que o texto em língua inglesa):

X. DO LIVRE ARBÍTRIO
A condição do Homem depois da queda de Adão é tal que ele não pode converter-se e preparar-se a si mesmo por sua própria força natural e boas obras, para a fé e invocação a Deus. Portanto, não temos o poder de fazer boas obras agradáveis e aceitáveis a Deus, sem que a graça de Deus por Cristo nos previna, para que tenhamos boa vontade, e coopere conosco enquanto temos essa boa vontade.

De Libero Arbitrio
Ea est hominis post lapsum Adae conditio, ut sese, naturalibus suis viribus et bonis operibus, ad fidem et invocationem Dei convertere ac praeparare non possit. Quare absque gratia Dei, quae per Christum est, nos praeveniente ut velimus, et cooperante dum volumus, ad pietatis opera facienda, quae Deo grata sint et accepta, nihil valemos.

Assim, a Igreja Anglicana ensina uma cooperação entre o homem e a graça divina para a realização de boas obras agradáveis a Deus em Cristo. Nessa cooperação genuína, Deus é iniciador, sustentador e consumador, e seu fundamento supremo é a graça divina dispensada ao homem através da morte e ressurreição do Salvador, pelo poder do Espírito Santo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s