Por que jejuamos?

 

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O jejum é uma das disciplinas mais incríveis, misteriosas e antigas da humanidade. Como a oração, ele está entre aquele hábitos espirituais não exclusivos da fé cristã, como parte do que poderíamos chamar de “religião natural” (ou até “ascetismo natural”), a união dos impulsos e instintos religiosos presentes, de diversas formas, em todas as culturas humanas e subjacentes às religiões concretas, como gramática gerativa das práticas religiosas.

Em formas diversas, nós vemos o jejum nas grandes religiões do extremo oriente (hinduísmo, jainismo, budismo, taoísmo, xintoísmo), entre os antigos egípcios, entre os pagãos da Antigüidade (gregos, romanos, celtas), nas religiões ameríndias (mesmo entre os astecas, incas e maias), e nelas ele costuma estar associado, seja à virtude do autocontrole, seja ao lamento. Onde quer que a religião apareça, nela figura a questão do domínio próprio, do qual emerge a prática do jejum. Semelhantemente, o luto e a abstinência caminham juntos em significação. Não surpreende que tantas religiões tão distintas, tão separadas no espaço e no tempo, pratiquem o jejum?

Nesse sentido, vale para o jejum o princípio que vale para tudo mais: a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa, consagra, eleva, aprofunda, cura, enobrece. Aquilo que é comum e inerente aos homens se torna único e sobrenatural no Evangelho, encontra seu sentido oculto, seu mistério.

Toda prática e disciplina cristã visa finalmente nossa comunhão com Deus, pois Deus é o único fim em si mesmo, e com o jejum não pode ser diferente. Ele é uma abstinência temporária de alimentos com um propósito eminentemente espiritual, mesmo quando diz respeito a coisas deste mundo, pois para o cristão o “espiritual” não diz respeito àquilo que está exclusivamente no “além”, mas à presença de Deus difusa também aqui e agora — la gloria di colui che tutto move.

A abstinência está naturalmente ligada à tristeza. Nesses momentos, não é incomum que as pessoas percam o apetite, assim como é comum que a própria abstiência, por sua vez, provoque tristeza ou abatimento. Como em várias religiões, o jejum cristão têm uma forte dimensão penitencial, ligada ao arrependimento e àquilo que a Sagrada Escritura chama de “humilhação”: a sujeição voluntária à condição de miséria através da fome, das vestes abatidas, das cinzas, das lágrimas (1Rs. 21:25-27; Ne. 9:1; Sl. 35:13; 69:10-11), freqüentemente coletiva (Jz. 20:26; 1Sm. 7:6; Ne. 9:1-2).

O exemplo mais famoso talvez seja o do livro de Jonas: diante da dura sentença do profeta, todos os ninivitas e até seus animais são conclamados a jejum total e arrependimento, na expectativa de perdão. Por vezes figuras representativas apresentam um jejum vicário pelo povo israelita, como no caso de Moisés (Dt. 9:18), Daniel (Dn. 9:3-5), Esdras (Ed. 10:6) e Neemias (Ne. 1:4-6). No dia anual da expiação, o Yom Kippur, todo povo israelita deveria jejuar em busca de perdão (Nm. 29:7; cf. Jr. 36:6). Que o jejum é um momento triste, é ensinado por Cristo em sua resposta sobre jejum (Mc. 2:18-20). Por isso, o jejum é parte também do luto (1Sm. 31:13; 2Sm. 1:11-12; 3:35).

Por outro lado, também como em outras religiões, o jejum é praticado como disciplina pelo autocontrole e até auto-conhecimento que nos proporciona, pois passamos a nos dominar melhor, especialmente quanto às nossas paixões mais “animais”, através desse exercício. Embora essa dimensão não seja enfatizada diretamente nas Escrituras, os pais da Igreja viam no jejum o combate às paixões e a mortificação a que o Novo Testamento nos exorta (cf. 1Co. 9:27; 1Pe. 2:11), uma experiência que pode ser vivenciada e testemunhada por quem tenha incorporado o jejum à sua vida devocional.

O jejum aparece também como forma de preparação, consagração e purificação, sentido como que um sentido intermediário entre os outros dois. Assim o jejum de Moisés para a recepção das tábuas da Lei (Êx. 34:28; Dt. 9:9-10) e assim também a consagração de Paulo e Barnabé para a missão (At. 13:2-3), bem como dos presbíteros por eles ordenados (At. 14:23). Essa preparação é análoga à abstinência sexual no AT (Êx. 19:15; 1Sm. 21:4) e em 1Co. 7:5.

Por fim, o jejum é também uma forma de adoração (Lc. 2:37) e petição (2Cr. 20:2-4; Ed. 8:21-23; Et. 4:16). É a oração do corpo. Diante de grandes crises e dificuldades, o jejum é uma forma de suplicar insistentemente a Deus por socorro e proteção. Nas palavras de Cristo, aquele que jejua sem hipocrisia, sem recompensas humanas, recebe uma recompensa divina (Mt. 6:17-18). Assim como na oração em geral (leia mais aqui), a petição do jejum é impedida pelo pecado (Is. 58:3-12).

Em tudo isso, o jejum é, nas Sagradas Escrituras, uma prática principalmente coletiva; muitos dos exemplos acima envolvem uma convocação pelas autoridades, como nas palavras de Joel 2:15: “promulgai um santo jejum” (cf. Ed. 8:21). Nesse sentido, o jejum envolve não apenas uma decisão pessoal pela ascese individual, mas também a percepção de como o pecado e o sofrimento nos envolvem como comunidade.

Nesse sentido, desde o começo os cristãos praticaram o jejum comunitário. A Didaquê já relata a tradição do jejuam semanal, nas quartas e sextas-feiras (VIII, 1) e nos conta também sobre o jejum pré-batismal, partilhado pelo batizante, pelo batizando e por todos quantos puderem. O jejum pré-batismal é a raiz histórica mais provável do jejum quaresmal, uma vez que a Páscoa é o tempo mais próprio para o batismo. Essas duas formas de jejum mostram como todos os sentidos do jejum acima estavam incorporados à vida da Igreja: no jejum semanal, o exercício da autocontrole e a adoração; no jejum pré-batismal, a penitência, a preparação e a petição. Por isso também, a prática cristã do jejum envolve tanto o restrição total, como nos arqui-exemplos de Moisés, Elias e principalmente Cristo, e jejum parcial, no qual há uma restrição severa e duradoura, mas não total, dos alimentos (Dn. 10:2-3; cf. Nm. 6:1-4).

Mas o jejum cristão assumiu, desde logo, uma marca cristológica: se os discípulos não jejuavam enquanto tinham Cristo com eles, certamente jejuariam quando lhes fosse tirado. Por isso, o domingo não é dia de jejum: é o dia em que o noivo, Cristo, é recebido na Eucaristia, é dia de alegria. Qualquer outro jejum se torna, por isso, preparativo para essa presença, a fome que precede o pão da vida. Do mesmo modo, tempos mais duradouros de jejum são elementos da nossa participação nos sofrimentos de Cristo, para que possamos ser participantes de sua glória e ressurreição (Fp. 3:10-11; 1Pe. 4:13). Recapitulamos a vida de Cristo em nossa própria carne, como pessoas e como comunidade espiritual. O jejum cristão visa a Cristo, que é o sentido único de toda fome e toda sede.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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