Quem é esta?: A Interpretação do Cântico dos Cânticos

 

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As obras de arte têm uma riqueza muito especial, uma certa transcendência natural: o significado da obra se lança sempre para além da intenção do autor. Ainda que seja danoso desprezar essa intenção do autor inteiramente, ela nunca expressa a totalidade da obra, é só uma janela para um mundo diferente. Quando, sob pressão, Varonese mudou o título da sua Última Ceia para Banquete na casa de Levi, ele condicionou significativamente leitura que fazemos da pintura, mas mesmo assim ele não a controla totalmente.

Na verdade, nenhum artista imprime em sua obra apenas sua própria intenção, ou algum reflexo dela, mas aquilo que a “inspira”, e muitas vezes não estamos totalmente conscientes das imagens arquetípicas que colocamos nas nossas obras, e sem dúvida nós ignoramos suas as implicações, especialmente quando lidas em novas situações.

Por isso, cada obra de arte rende uma infinidade de leituras diferentes, não necessariamente contraditórias, que escavam certas “camadas de sentido” que às vezes são mais instintivas que conscientes; nenhum de nós escreve apenas com sua consciência. O fotógrafo é capaz de enquadrar e valorizar aquilo que ele fotografa, mas sua fotografia sempre tem mais do que aquilo que ele é capaz de ver, um conjunto de realidades que são exteriores à sua própria arte, um conjunto de relações que ele não controla, não só no universo fotografado, mas também na relação entre a fotografia e o mundo que a cerca.

Isso diz muito sobre o modo como se deve encarar qualquer obra escrita e especialmente as próprias Escrituras Sagradas, que também são escritas para além da intenção do escritor sagrado. Existe uma analogia entre a escrita comum e a Escrita Sagrada nesse ponto, pois o escritor sagrado representa realidades que estão muitíssimo além do seu próprio poder, inclusive conceitual e expressivo; ele guarda seu tesouro em um vaso de barro. Por trás do autor humano, guiando-o eficazmente, agindo em suas idéias e sentimentos, está o Espírito Santo, que imprime na Escritura sua própria voz excelsa.

De certo modo, todos os que lêem a Escritura com espírito de fé sabem dessa verdade de algum modo, pois a lêem não apenas como uma coleção de escritos antigos representando uma religião (ou duas), mas como Palavra viva e eficaz, eternamente relevante. Não são apenas o registro do começo da nossa história, que lemos por curiosidade, mas a raiz da nossa história, que nos alimenta e sustenta continuamente. Isso significa, por exemplo, que os problemas vivenciados pelas Igrejas e suas soluções nas Cartas Paulinas não apenas nos informam do que Paulo fez, mas nos formam no exercício e continuação do mesmo ministério. No temporal, acidental e condicionado está presente a Sabedoria Eterna. Quando lemos a Carta a Filemom, vemos apenas um retrato casual e histórico das difíceis relações entre a fé cristã e as relações sociais (religiosas, familiares, econômicas) no primeiro século, mas algo que Deus quer nos dizer e continuar nos dizendo sobre nós mesmos.

Mas isso ainda não é suficientemente cristão, não é suficientemente cristológico, não é suficientemente cristocêntrico. Para um cristão, o centro da Escritura Sagrada deve ser sempre Cristo, o oriente e sol da justiça em torno do qual todas as coisas se movem. Tudo que há na Escritura Sagrada deve fazer referência a Cristo de alguma maneira, e foi assim que os apóstolos e evangelistas leram o Antigo Testamento. Eles viam Cristo nos sofrimentos (e na vitória) nas orações em que os antigos salmistas falavam de suas próprias dores. A interpretação cristã é, desde sua origem, uma leitura que vê algo além da letra, em indicações oblíquas e nuances dos textos. Ler o Antigo Testamento de maneira cristã é lê-lo como testemunho de Cristo e sobre Cristo; é, assim, ver nele camadas de sentido que transcendem as intenções dos autores originais.

Assim, quando lemos as narrativas das Escrituras Sagradas, temos sempre algo além do seu sentido meramente literal e/ou histórico, algo além da mera narrativa. Temos Cristo, de algum modo, agindo naqueles personagens de algum modo, os quais, em suas vidas limitadas e frágeis, são símbolos do Cristo que depois viria. Por isso, esses textos também representam também padrões de vida que devemos seguir, e que um dia alcançaremos. Por isso, os pais da Igreja eventualmente falaram em quatro sentidos para a Escritura (quadriga):

  1. O sentido literal — Em termos gerais, conta a história sagrada contínua da Criação até Israel, cujo ápice são os eventos da vida de Cristo e a reconfiguração dessa comunidade em torno dele, como expectativa profética (Rm. 16:25-26).
  2. O sentido alegórico (a fé) — É a leitura espiritual e figurativa da Escritura, que vê Cristo representado em cada evento do Antigo Testamento, assim como em diferentes pessoas (Lc. 24:44-47; Jo. 5:39; 1Co. 10:1-4). Assim, na redenção do povo israelita no Egito, o cristão vê representada sua própria salvação eterna e vitória sobre os poderes das trevas, vê Cristo representado no cordeiro pascal judaico. Freqüentemente se procura fazer uma distinção artificial entre alegoriatipologia, mas a interpretação apostólica não dá qualquer evidência de conhecer uma distinção entre elas.
  3. O sentido anagógico (a esperança) — Procura ver em cada acontecimento do passado um indicação escatológica de Deus, um prenúncio dos eventos futuros (Mt. 16:13; Rm. 15:4).
  4. O sentido moral (o amor) — A moralidade da Escritura não se limita a mandamentos, mas tata muito mais de exemplos e de um conhecimento mais profundo e arquetípico do ser humano, sob o pecado e sob a graça (2Tm. 3:16; 1Co. 10:6).

Esses quatro sentidos estão entrelaçados na leitura cristã do Antigo Testamento; o sentido literal como que abre a porta para os demais. No sentido literal, o livro de Rute registra a história de como a bisavó de Davi foi incluída na nação de Israel. Mas esse belo livro também expressa a transcendência maravilhosa da compaixão de Deus quanto às limitações — pois a moabita Rute e seus descendentes estavam proibidos pela Lei de participar da congregação israelita (Dt. 23:3). O texto em si não menciona Deus nesse sentido, mas está implícita, na leitura e na presença do livro no cânon, a concordância de Deus não apenas com a narrativa, mas com sua moralidade; do contrário, Deus não poderia, depois, aprovar Davi e a linhagem real como representantes seus. Assim, existe uma ética implícita na narrativa, um tipo de crítica velada ao legalismo, uma forma de aprovação velada à compaixão, assim como uma aprovação explícita à virtude, à fidelidade e à humildade de Rute, primeiro diante de Noemi, depois diante de Boaz.

Mas onde essa compaixão divina se manifestou de maneira mais profunda e intensa, senão no próprio Cristo? O Espírito de Cristo é o que inspira a autoria do livro de Rute. A compaixão para a qual o livro sensibiliza o leitor é a mesma que redimiu os homens em Cristo, sua história é parte da história de Cristo, é o início da linhagem real à qual o próprio Cristo pertence, e a relevância dessa história é conhecida do evangelista Mateus (1:5). Mas se a Escritura mesma nos ensina que seu sentido é Cristo, vemos facilmente como, no livro de Rute, Cristo já é representado na figura de Boaz, que se torna o redentor e esposo de Rute assim como Cristo é redentor e esposo da Igreja, o homem rico que redime a mulher pobre. O matrimônio libertador de Rute representa o matrimônio libertador da Igreja. Assim como Noemi, como mãe, aponta para Boaz e coloca Rute sob suas ordens (Rt. 3:4), o mesmo faz Maria em relação a Cristo (Jo. 2:5; em um matrimônio!).

Como essa redenção, ainda hoje, aguarda sua conclusão eterna, o livro de Rute indica não só a realidade que vivenciamos hoje, mas também a realidade que vivenciaremos eternamente. Assim, o sentido alegórico (a redenção já consumada) e o sentido anagógico (a redenção aguardada) são duas partes da mesma graça, duas dimensões da mesma estrutura dual escatológica, o já e o ainda não, o inaugurado e o esperado. Eis os quatro sentidos da patrística.

Freqüentemente a intenção do autor humano diz respeito ao sentido literal, enquanto a intenção do Espírito trata do sentido alegórico ou tipológico. Nunca existe um rompimento total entre as duas intenções, mas a intenção do Espírito transcende a intenção do autor. É por isso que a interpretação alegórica foi chamada pelos pais da Igreja de interpretação “espiritual”. Um exemplo de como o Espírito se “sobrepõe” ao profeta humano é Jo. 11:49-53.

Talvez uma das alegorias mais belas da interpretação cristã seja a feita em torno do Cântico dos Cânticos de Salomão, embora os leitores modernos, especialmente os fundamentalistas, se recusem a ver Cristo no livro, merecendo o nome clássico de carnais. Que dificuldade de reconhecer uma parábola como vemos uma!

Na verdade, o Cântico dos Cânticos não é um Kama Sutra hebreu, nem um romance pornográfico inspirado. O livro tem representações sexuais explícitas e veladas muito fortes, mas toda a Escritura Sagrada tem uma finalidade: Cristo (Lc. 24:25-27; Jo. 5:39; 2Tm. 3:15-16). Nenhum livro poderia ser Escritura Sagrada sem referência a Cristo, e esse livro só está no cânon porque tanto judeus quanto cristãos desde cedo o interpretaram alegoricamente, sendo a interpretação cristã o cumprimento encarnacional da interpretação judaica: o Deus de Israel é Cristo, o povo de Israel é a Igreja. O Antigo Testamento trata o relacionamento entre Deus e Israel como uma aliança matrimonial, e essa imagem é reproduzida no NT como o casamento entre Cristo e a Igreja.

És fonte dos jardins,
poço das águas vivas,
torrentes que correm do Líbano!
Cântico dos Cânticos 4:15

No último dia, o grande dia da festa, levantou-se Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado.
João 7:37-39

Mas não se pode dizer que o propósito do livro, no cânon, seja expor o amor sexual para os leitores; se assim fosse, a Escritura Sagrada serviria de alimento à concupiscência, em vez de ser Palavra que vivifica. Pior: no livro, o amado oferece dos frutos do jardim para outros, para os seus amigos (5:1). Esse jardim fechado é a esposa, que produz de todo tipo de fruto e que ela mesma chama o noivo para desfrutar (4:12-16). Ora, se não houvesse uma interpretação alegórica, isso significaria que ele oferece sua amada como prostituta, para ser desfrutada por outros homens. Mas, lido corretamente, o livro representa Cristo a oferecer aos homens o Paraíso que lhe pertence.

A própria noção de um Messias, um continuador da linhagem monárquica de Israel, é cheia de evocações alegóricas/tipológicas. Não é difícil perceber como o próprio Novo Testamento utiliza imagens e alusões do livro de Cantares que claramente pressupõem uma interpretação alegórica, e, em todos os textos, Cristo é tomado como referência — pois Salomão, como antepassado glorioso, é um tipo natural de Cristo —, ao passo que a mulher às vezes significa a Igreja (que é também o Paraíso, a Cidade de Deus), às vezes uma mulher (Maria de Betânia, por exemplo), às vezes o cristão individual. O livro do Apocalipse (12:ff) aplica a mesma imagem do Cântico para a mulher profética (6:10; 8:5). Quando se pergunta pela identidade da mulher, o Cântico usa hipérboles que se abrem facilmente para leitura espiritual, descrevendo-a como ao povo de Israel no Êxodo (3:6), ou como próprio Paraíso (4:12-16; cf. Ap. ), ou como uma força cósmica (6:10).

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Viu-se grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, que, achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz.
Apocalipse 12:1-2

Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, pura como o sol, formidável como um exército com bandeiras?
Cântico dos Cânticos 6:10

Quem é esta que sobe do deserto e vem encostada ao seu amado? Debaixo da macieira te despertei, ali esteve tua mãe com dores; ali esteve com dores aquela que te deu à luz.
Cântico dos Cânticos 8:5

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Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, onde estava Lázaro, a quem ele ressuscitara dentre os mortos. Deram-lhe, pois, ali, uma ceia; Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam com ele à mesa. Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo.
João 12:1-3

Enquanto o rei está assentado à sua mesa, o meu nardo exala o seu perfume.
Cântico dos Cânticos 1:12

Respondeu-lhes João: Eu batizo com água; mas, no meio de vós, está quem vós não conheceis, o qual vem após mim, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias. Estas coisas se passaram em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando.
João 1:26-28

Sem dúvida, o autor humano não tinha intenção de falar de Cristo, e o uso da imagem sexual literal é importante, porque ressalta dois fatos: 1. mostra o quanto a Escritura aprova e usa a analogia entre as coisas humanas e as coisas divinas, contra qualquer transcendentalismo do tipo barthiano; 2. mostra como a prática sexual é aprovada por Deus, pois uma prática reprovada jamais seria o veículo de representação do amor divino.

O amor humano, na sua forma mais pura, é um símbolo do amor divino, é esse amor divino velado na face humana. É da tendência do amor apaixonado ser hiperbólico, exceder-se para além dos fatos, como se não tivesse limites. Mas somente o amor a Deus é sem limites. Assim é o Cântico dos Cânticos de Salomão; ele é uma alegoria porque todo amor é uma alegoria, uma história que aponta para além de si mesma. Na união entre homem e mulher, ele sinaliza a união entre Cristo e nós, pois toda a Escritura Sagrada se refere a Cristo.

Eu sou do meu amado,
e o meu amado é meu;
ele pastoreia entre os lírios.

Cântico dos Cânticos 6:3

Rev. Gyordano M. Brasilino

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