O que é o Concílio Divino?

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E se o Deus Altíssimo estiver cercado de deuses? O Concílio Divino é um traço fascinante da cosmologia das Escrituras Sagradas, presente nelas do primeiro livro até o último, e forma uma rede que conecta fatos aparentemente dispersos como a entrega da Lei de Moisés, a substância espiritual das religiões não reveladas, a realidade dos demônios, a vitória de Cristo sobre principados e potestades na cruz, o reino de Deus e a excomunhão. O título “Concílio Divino” deriva do Salmo 82, provavelmente o mais citado nessa discussão.

Salmo 82
1 Deus assiste na congregação divina;
no meio dos deuses ęlohîm], estabelece o seu julgamento.
2 Até quando julgareis injustamente
       e tomareis partido pela causa dos ímpios?
3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão,
       procedei retamente para com o aflito e o desamparado.
4 Socorrei o fraco e o necessitado;
       tirai-os das mãos dos ímpios.
5 Eles nada sabem, nem entendem;
       vagueiam em trevas;
       vacilam todos os fundamentos da terra.
6 Eu disse: sois deuses ęlohîm],
       sois todos filhos do Altíssimo [bnê ʿęlyôn].
7 Todavia, como homens, morrereis
       e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.
8 Levanta-te, ó Deus, julga a terra,
       pois a ti compete a herança de todas as nações.

Salmo 89:5-7
5 Celebram os céus as tuas maravilhas, ó SENHOR [Yhwh],
e, na assembléia dos santos, a tua fidelidade.
6 Pois quem nos céus é comparável ao SENHOR [Yhwh]?
Entre os seres celestiais [bnê ʾelîm = filhos de Deus], quem é semelhante ao SENHOR [Yhwh]?
7 Deus é sobremodo tremendo na assembléia dos santos
e temível sobre todos os que o rodeiam.

Esses salmos retratam do Deus de Israel cercado por seres chamados deuses, filhos do Altíssimo, filhos de Deus e santos, e às vezes como santos, vigilantes  ou exército do céu em outros textos do Antigo Testamento.  Essa imagem não é incomum, e os dois primeiros capítulos do livro de Jó são famosos por mostrar o diálogo (e desafio) entre Deus e Satanás, que compareceu à reunião dos filhos de Deus, que estavam presentes na Criação.

Jó 1:6-12
6 Num dia em que os filhos de Deus [bnê hāʾęlohîm] vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles.
7 Então, perguntou o SENHOR a Satanás: Donde vens? Satanás respondeu ao SENHOR e disse: De rodear a terra e passear por ela.
8 Perguntou ainda o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal.
9 Então, respondeu Satanás ao SENHOR: Porventura, Jó debalde teme a Deus?
10 Acaso, não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicaram na terra.
11 Estende, porém, a mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.
12 Disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder; somente contra ele não estendas a mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR.

Jó 2:1-7
1 Num dia em que os filhos de Deus [bnê hāʾęlohîm] vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles apresentar-se perante o SENHOR.
2 Então, o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? Respondeu Satanás ao SENHOR e disse: De rodear a terra e passear por ela.
3 Perguntou o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. Ele conserva a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa.
4 Então, Satanás respondeu ao SENHOR: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida.
5 Estende, porém, a mão, toca-lhe nos ossos e na carne e verás se não blasfema contra ti na tua face.
6 Disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele está em teu poder; mas poupa-lhe a vida.
7 Então, saiu Satanás da presença do SENHOR e feriu a Jó de tumores malignos, desde a planta do pé até ao alto da cabeça.

Jó 38:4-7
4 Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra?
       Dize-mo, se tens entendimento.
5 Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes?
       Ou quem estendeu sobre ela o cordel?
6 Sobre que estão fundadas as suas bases
       ou quem lhe assentou a pedra angular,
7 quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam,
       e rejubilavam todos os filhos de Deus [bnê ʾęlohîm]?

De fato, o livro de Jó ilustra bem a dinâmica entre o Concílio Divino e os acontecimentos do mundo. Aquilo que foi descrito pelos homens como “fogo de Deus” (Jó 1:16) era o resultado de uma aposta secreta entre Javé e Satanás. Os amigos de Jó, ignorantes dessa aposta, consideravam todos os males do mundo como castigos divinos, resultantes de algum pecado e realizados diretamente por Deus. Havia mais coisa em jogo, e o Concílio Divino serve, em parte, para explicar algo da confusão do mundo.

Em vários momentos, porém, os réus do Concílio Divino têm quem fale por eles, como é o caso do sacerdote Josué (Zc 3:1-7) e de Pedro e dos apóstolos (Lc 22:31-32). Jó também acreditava ou esperava ter quem falasse por ele no Concílio (16:19; cf. 33:23).

No livro do profeta Daniel, essa assembleia forma uma corte de grande poder. Note-se, entretanto, que o Deus Altíssimo têm sempre precedência sobre os “santos” ou “vigilantes”, que não podem agir independentemente dele; seu decreto é o decreto do Altíssimo. O próprio epíteto “Altíssimo” (ʿęlyôn) é comparativo entre o Deus Supremo e os seres que o cercam (cf. Sl 97:9), seres que de fato existem.

Daniel 4:17,24
17 Esta sentença é por decreto dos vigilantes,
e esta ordem, por mandado dos santos;
a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens;
e o dá a quem quer
e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles.
24 esta é a interpretação, ó rei, e este é o decreto do Altíssimo, que virá contra o rei, meu senhor:

Daniel 7:9-10
9 Continuei olhando, até que foram postos uns tronos,
e o Ancião de Dias se assentou;
sua veste era branca como a neve,
e os cabelos da cabeça, como a pura lã;
o seu trono eram chamas de fogo,
e suas rodas eram fogo ardente.
10 Um rio de fogo manava
e saía de diante dele;
milhares de milhares o serviam,
e miríades de miríades estavam diante dele;
assentou-se o tribunal,
e se abriram os livros.

No Antigo Testamento há um relativo desinteresse sobre a identidade dos membros do Concílio Divino. Isso contrasta fortemente com o modo como o Concílio era visto no universo religioso dos canaanitas, entre o quais os “filhos de El” eram nomeados e cultuados. Ainda assim, o livro de Daniel registra o nome de ao menos um dos membros: Miguel, identificado como “(grande) príncipe”, oposto ao “príncipe da Pérsia” (cf. Dn 10:13,21; 12:1). A Septuaginta, que verte “príncipe” como archōn, provavelmente serviu como base para a linguagem posterior (neotestamentária) sobre “principados e potestades”.

A visão do Concílio Divino, como a de Daniel, é relatada ou mencionada por vários profetas do Antigo Testamento, como Micaías (1Rs 22:19-22), Isaías (Is 6), Jeremias (Jr 23:18-22) e Zacarias (Zc 3:1-7). De fato, segundo Jeremias, o que distingue o verdadeiro profeta do falso é ter participado do Concílio Divino de Javé.

Isso não significa que os falsos profetas eram necessariamente profetas mentirosos, sem um poder sobrenatural agindo neles. Na verdade, eles estavam sendo enganados, e ter estado no Concílio Divino permitiria entender o que eles (e os amigos de Jó) não entendiam. O caso mais famoso, o de Micaías, envolveu uma autorização de Javé para que um espírito mau, como punição, enganasse o rei Acabe na boca dos seus (falsos) profetas.

I Reis 22:19-22
19 Micaías prosseguiu: Ouve, pois, a palavra do SENHOR: Vi o SENHOR assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua direita e à sua esquerda.
20 Perguntou o SENHOR: Quem enganará a Acabe, para que suba e caia em Ramote-Gileade? Um dizia desta maneira, e outro, de outra.
21 Então, saiu um espírito, e se apresentou diante do SENHOR, e disse: Eu o enganarei. Perguntou-lhe o SENHOR: Com quê?
22 Respondeu ele: Sairei e serei espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. Disse o SENHOR: Tu o enganarás e ainda prevalecerás; sai e faze-o assim.

Por trás dos profetas de Baal havia, naquele momento, um espírito mentiroso, e havia um “príncipe” responsável pela Pérsia, enquanto Miguel guardava Israel. Esses poderes espirituais interagiam com as nações. A Escritura Sagrada mostra de várias maneiras que os diversos povos do mundo tinham sobre eles “filhos de Deus” autorizados por Javé. É o caso do Cântico de Moisés:

Deuteronômio 32:8-9
8 Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações,
       quando separava os filhos dos homens uns dos outros,
       fixou os limites dos povos, segundo o número dos filhos de Deus.
9 Porque a porção do SENHOR é o seu povo;
       Jacó é a parte da sua herança.

Deuteronômio 4:19
Guarda-te não levantes os olhos para os céus e, vendo o sol, a lua e as estrelas, a saber, todo o exército dos céus, sejas seduzido a inclinar-te perante eles e dês culto àqueles, coisas que o SENHOR, teu Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus.

A versão massorética do v. 8 teria herdado uma leitura em que os “filhos de Deus” foram trocados por “filhos de Israel”, deixando o texto ininteligível. A citação acima está emendada conforme os testemunhos mais antigos (a LXX e os Manuscritos do Mar Morto), e o sentido é claro: Deus estabeleceu limites às nações em conformidade com o número dos “filhos de Deus”, isto é, dos membros do Concílio Divino, responsáveis por administrar as nações, enquanto o próprio Javé cuidaria de Israel (eventualmente através de Miguel).

Isso tudo significa que há forças espirituais reais por trás das diversas religiões, mesmo que incompetentes ou rebeldes contra a vontade de Javé, o que motivou a queixa do Salmo 82. Assim também, o Pequeno Apocalipse de Isaías (Is 24-27) fala, em termos mitológicos procedentes dos mitos canaanitas, de um castigo infligido por Javé contra as hostes do Céu e os poderes do Abismo:

Isaías 24:21
Naquele dia, o SENHOR castigará, no céu, as hostes celestes,
       e os reis da terra, na terra.

Isaías 27:1
Naquele dia, o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão [livyātān], serpente veloz,
       e o dragão [livyātān], serpente sinuosa,
       e matará o monstro [tannîn] que está no mar.

Esse juízo sobre principados e potestades é conhecido do Novo Testamento (cf. Cl 2:15), assim como o conflito espiritual presente que os envolve (Ef 6:12).

É claro que o título de “deuses”, aplicado aos membros do Concílio Divino, causa certa perplexidade diante da insistência de vários textos nas Escrituras, como Deuteronômio e o Segundo Isaías, de que há um só Deus (o monoteísmo). No entanto, as Escrituras chamam esses seres celestiais de “deuses” para indicar sua superioridade sobre os homens e sobre o mundo, e sua relação com os diversos cultos pagãos, mas jamais para dizer que eles são absolutos como o Deus Altíssimo é (o que seria absurdo) ou que devem ser adorados. Para evitar a confusão e afirmar o lugar único do Deus de Israel, eventualmente as Escrituras e a teologia preferiram chamá-los de anjos, demônios, principados ou potestades.

Mas essa narrativa nunca morreu. O apóstolo Paulo estava muito consciente dela quando falou de Satanás como “deus deste século” (2Co 4:4). Ele escreveu:

I Coríntios 8:5-6
Porque, ainda que há também alguns que se chamem deuses, quer no céu ou sobre a terra, como há muitos deuses e muitos senhores, todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele.

I Coríntios 10:19-20
Que digo, pois? Que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Ou que o próprio ídolo tem algum valor? Antes, digo que as coisas que eles sacrificam, é a demônios que as sacrificam e não a Deus; e eu não quero que vos torneis associados aos demônios.

Essa identificação entre os deuses das nações e os demônios era comum: o Baal Zebub dos filisteus era identificado pelos contemporâneos de Jesus como o príncipe dos demônios (cf. 2Rs 1:2; Mc 3:22). Nos confrontos com os demônios, eventualmente estes reconhecem a autoridade de Jesus (cf. Mc 1:24; At 19:15). Coerentemente com a linguagem do Concílio Divino, o Deus de Paulo é chamado “Deus Altíssimo” (At 16:17).

Na narrativa israelita, sempre houve uma diferença importante: Javé é tanto o Criador quanto o Rei do Concílio Divino. Nas mitologias dos povos semíticos, o rei do Concílio Divino não era sempre o “Deus Altíssimo”, mas algum de seus descendentes, como Baal Hadad (canaanita) ou Bel Marduk (mesopotâmico), que ascendiam ao trono após a vitória contra o Abismo e a serpente do caos (Yam/Litan, Tiamat). No caso hebreu, o Deus de Israel é rei desde a origem.

A Escritura Sagrada, de fato, se utiliza do um tema mitológico comum (mitema) da vitória primordial do deus-trovão contra a serpente marinha do caos. Nos salmos e nos profetas, a ação divina é manifesta em raios, trovões, tremores, fogo. Assim também, os inimigos de Deus e do seu povo são descritos como monstros marinhos ou como águas, às vezes identificados como Yam (o mar), Leviatã, Raabe ou Tannin. Por exemplo:

Salmo 29:3
Ouve-se a voz do SENHOR sobre as águas;
troveja o Deus da glória;
o SENHOR está sobre as muitas águas.

Salmo 77:16-18
16 Viram-te as águas, ó Deus;
as águas te viram e temeram,
até os abismos se abalaram.
17 Grossas nuvens se desfizeram em água;
houve trovões nos espaços;
também as suas setas cruzaram de uma parte para outra.
18 O ribombar do teu trovão ecoou na redondeza;
os relâmpagos alumiaram o mundo;
a terra se abalou e tremeu.

Salmo 89:8-10
8 Ó Senhor, Deus dos Exércitos, quem é poderoso como tu és,
       Senhor, com a tua fidelidade ao redor de ti?!
9 Dominas a fúria do mar [yām];
       quando as suas ondas se levantam, tu as amainas.
10 Calcaste a Raabe, como um ferido de morte;
       com o teu poderoso braço dispersaste os teus inimigos.”

(Nota: O trecho citado vem logo após a narrativa sobre o Concílio Divino (vv. 5-7).

Habacuque 3:3-4,8-11
3 Deus vem de Temã,
e do monte Parã vem o Santo.
A sua glória cobre os céus,
       e a terra se enche do seu louvor.
4 O seu resplendor é como a luz,
       raios brilham da sua mão;
       e ali está velado o seu poder.
8 Acaso, é contra os rios, SENHOR, que estás irado?
       É contra os ribeiros a tua ira ou contra o mar, o teu furor,
já que andas montado nos teus cavalos,
       nos teus carros de vitória?
9 Tiras a descoberto o teu arco,
       e farta está a tua aljava de flechas.
Tu fendes a terra com rios.
10 Os montes te vêem e se contorcem;
       passam torrentes de água;
as profundezas do mar fazem ouvir a sua voz
       e levantam bem alto as suas mãos.
11 O sol e a lua param nas suas moradas,
       ao resplandecer a luz das tuas flechas sibilantes,
       ao fulgor do relâmpago da tua lança.

O raio é um símbolo natural da divindade porque é um poder luminoso que é visto descer do céu, além de ser inevitável (o céu é onipresente) e estar acompanhado da voz terrível do trovão, enquanto o mar é profundo, tenebroso, monstruoso, mortal, mas evitável. Mas o monoteísmo subverte a narrativa, introduzindo uma diferença importante: relembra-se que Javé é o Deus Criador e mesmo seus inimigos têm origem nele (cf. Sl 74:12-17; 89:5-12; Jr 10:12-16). Não há um poder opositor independente, mas apenas rebelião a ser punida.

Como nos povos em redor, essas narrativas têm um sentido político claro. Raabe representa o Egito, e por trás dele está um poder sujeito ao Deus de Israel. A vitória de Javé contra Raabe no plano superior significa a libertação de Israel contra o opressor egípcio.

Os salmos e textos proféticos que falam do Concílio Divino e do mitema da vitória do trovão contra o abismo relembram duas coisas: Deus é o Criador, Deus é o Rei. Por isso, um conflito no Concílio Divino significa a contestação da realeza de Javé; afirmar o reino de Javé, ao contrário, é indicar seu poder sobre todos os opositores rebelados. Assim, é natural que o poder para batalha espiritual tenha sido tão importante para Jesus e seus discípulos como pregadores do reino de Deus. Satanás é o acusador no Concílio Divino (como na profecia de Zacarias) e o sedutor de todo o mundo, mas com a Guerra no Céu e a vinda do reino de Cristo, Satanás perde seu lugar (Ap 12:7-10).

Apocalipse 12:7-10
7 Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; 8 todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles.
9 E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos.
10 Então, ouvi grande voz do céu, proclamando:
       Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus
              e a autoridade do seu Cristo,
       pois foi expulso o acusador de nossos irmãos,
              o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus.

A Ascensão de Cristo é seu estabelecimento acima de todos os principados e potestades, inclusive daqueles que se lhe opõem; é a queda de Satanás. O Deus Encarnado se torna, de certo modo, o líder do Concílio Divino (Ef 1:20-21; Cl 2:10; Hb 1:3; 1Pe 3:22), e testemunhará em favor daqueles que confessam seu nome (Lc 12:8) assim como rogou por Pedro (Lc 22:31-32). Mas os poderes das trevas continuam atuantes, e é por isso que ser excomungado significa ser expulso do domínio real de Javé e ser entregue ao poder de Satanás (1Co 5:5; 1Tm 1:20), o império dos principados e potestades, os “cosmocratas” de Ef 6:12.

A primazia de Cristo no Concílio Divino inaugura um novo tempo, “nova criação”, distinto do tempo anterior em que o mundo era dominado por aqueles principados e potestades. Por isso, aqueles que queriam continuar vivendo sob a lei, que foi entregue por anjos (At 7:53; Gl 3:19; Hb 2:2; cf. Dt 33:2), se sujeitavam aos deuses do mundo passado, os “princípios elementares” (stoicheia) de que o apóstolo Paulo fala:

Gálatas 4:3-9
3 Assim, também nós, quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo [hypo ta stoicheia tou kosmou]; 4 vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, 5 para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. 6 E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai! 7 De sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus.
8 Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; 9 mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres [epi ta asthenē kai ptōcha stoicheia], aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos?

Colossenses 2:8-10,20-21
8 Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo [kata ta stoicheia tou kosmou] e não segundo Cristo; 9 porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade. 10 Também, nele, estais aperfeiçoados. Ele é o cabeça de todo principado e potestade.
20 Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo [apo tōn stoicheiōn tou kosmou], por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: 21 não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, 22 segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem.

Os gálatas, que eram pagãos no passado, agora se judaizavam, e havia semelhante perigo com os colossenses. Para o apóstolo, sujeitar-se à lei é voltar a participar de um mundo que finda, o retorno a um estado de coisas pior. Os cristãos precisam entender que agora pertencem a Cristo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

5 comentários em “O que é o Concílio Divino?

  1. Olá, Reverendo! John Wesley aqui (lembra de mim? rsrs). Ao ler seu texto lembrei imediatamente das afirmações do teólogo Michael S. Heiser e sua interpretação mais honesta, hebraica, mística, e portanto mais realista das entidades espirituais do AT. Muito bom!

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