Paternidade espiritual é bíblica

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Chama-se paternidade espiritual a relação entre dois cristãos na qual existe um compartilhamento do evangelho e de vida, de maneira que Deus se utiliza de um para direcionar o outro. Diferentemente de uma amizade ou irmandade espiritual, a paternidade envolve posições desiguais: um é o papel do pai, outro é o filho. O pai ensina, orienta, corrige, até repreende, mas ama, cuida, fortalece e intercede. O filho honra, imita, serve, obedece. De que maneira o tema aparece nas Escrituras?

Os primeiros traços do que será a paternidade espiritual cristã aparecem já no Antigo Testamento. Ali já se vislumbra uma associação primitiva entre paternidade e sacerdócio (Jz 17:10; 18:19) e mesmo José foi enviado como pai para Faraó, indicando com isso uma orientação divina (Gn 45:8). O pai compartilha algo de divino com o filho.

Mas o caso mais claro de paternidade espiritual é o que envolve os profetas Elias e Eliseu. Eliseu não apenas chamava Elias “meu pai” (2Rs 2:12); quando foi escolhido por Elias como discípulo, ele se despediu dos seus pais biológicos para servir seu pai espiritual (1Rs 19:19-21; 2Rs 3:11). No entorno da história de Elias e Eliseu, os discípulos dos profetas eram chamados “filhos dos profetas” (1Rs 20:35; 2Rs 2:3 etc.). Posteriormente, o próprio Eliseu é chamado “pai” em razão de sua autoridade espiritual (2Rs 6:21).

Esses não são casos isolados ou restritos ao Antigo Testamento. No Novo Testamento, Jesus prometeu que aqueles que tivessem deixado família pelo evangelho seriam acolhidos em uma família espiritual e teriam “filhos”. É o que se lê, por exemplo, nas palavras de Jesus representadas no Evangelho de Marcos:

Marcos 10:29-30
“Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.”

Jesus visualiza os discípulos como acolhidos em uma família espiritual da qual ele faz parte (cf. Mc 3:34-35). Nesse sentido, para Jesus a filiação espiritual de um cristão para com outro é tão esperada quanto a irmandade espiritual. Note-se que o contexto é propriamente dos ministros do evangelho, que haviam deixado suas residências para acompanhar as peregrinações de Jesus na Galiléia (v. 28). Esses ministros teriam centenas de filhos espirituais!

O apóstolo Paulo carrega essa mesma noção primitiva, e por isso considera Timóteo (1Co 4:17; Fp 2:22; 1Tm 1:2,18; 2Tm 1:2; 2:1), Tito (Tt 1:4), Onésimo (Fm 10), os coríntios (1Co 4:14-16), os gálatas (Gl 4:19) e os tessalonicenses (1Ts 2:11) como seus filhos espirituais. Ele dá a entender que deve ter o mesmo comportamento que um pai tem para com os seus filhos (2Co 12:14). Paulo também visualiza uma paternidade dos hebreus do Êxodo para com os cristãos (1Co 10:1).

I Coríntios 4:14-17
“Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar; pelo contrário, para vos admoestar como a filhos meus amados. Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus. Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores. Por esta causa, vos mandei Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja.”

Seguindo a tendência vista nos textos anteriores, o apóstolo encara essa adoção espiritual como envolvendo imitação e serviço (Fp 2:22). Afinal, se aplica à paternidade espiritual aquilo que é próprio da paternidade natural, por analogia: os filhos devem honrar e reverenciar seus pais (cf. Hb 12:9). Timóteo era um filho amado que conhecia e imitava muito bem o seu pai, por isso poderia ensinar aos outros filhos, os coríntios. Algo semelhante ocorre entre o apóstolo Pedro e Marcos, seu filho espiritual (1Pe 5:13) e, possivelmente, secretário.

Essa linguagem de adoção espiritual aparece também na literatura joanina, na qual os cristãos são chamados de “filhinhos” (1Jo 2:1,12,18,28; 3:7,18; 4:4; 5:21), expressão que é usada por Jesus no Evangelho correspondente (Jo 13:33). A maior alegria é ver os filhos andando na verdade (2Jo 1,4; 3Jo 4). Espera-se que os filhos imitem os pais; por isso, Jesus recusa chamar de “filhos de Abraão” seus opositores (Jo 8:39; cf. Mt 23:31).

Diante de tudo isso, o que se pergunta que se faz é se isso não prejudica, de alguma maneira, a paternidade espiritual de Deus. A pergunta geralmente é feita em um apelo a Mateus 23:9. Jesus não ensinou que absolutamente ninguém deve ser chamado de pai, somente Deus? Não, Jesus não ensinou isso. Essas palavras devem ser entendidas em seu contexto:

Mateus 23:1-12
Então falou Jesus à multidão, e aos seus discípulos, dizendo: Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem; pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los; e fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes, e amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas, e as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens; Rabi, Rabi.
Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre [didaskalos], a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres [kathēgētēs], porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo.
O maior dentre vós será vosso servo. E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado.

O texto se utiliza do artifício hebreu da hipérbole antitética (absoluteness) para agravar a diferença entre o comportamento dos escribas e fariseus e o dos seus seguidores. Quando olhamos o modo como o ensino de Cristo é seguido pelas gerações posteriores, aparentemente nada disso foi encarado literalmente por quem poderia conhecer essas palavras. O que Cristo queria é que a hipocrisia e arrogância dos escribas e fariseus da época, que usavam de títulos e posições com propósitos maus, não fosse seguida pelos cristãos.

Nada disso impediu que em vários momentos os escritores do Novo Testamento se referissem a Abraão como “nosso pai” (Lc 1:73; At 7:2; Rm 4:12; Tg 2:21), ou que preservassem a prática judaica de chamar de pais os mais anciãos e veneráveis (At 7:2; 22:1), ou que professores cristãos fossem chamados de mestres, didaskaloi (At 13:1; 1Co 12:28-29; Ef 4:11; 1Tm 2:7). Com essas palavras hiperbólicas, Cristo não quis “proibir” uma palavra, mas aquilo que essa palavra significava para os fariseus. Podemos concordar que deveria ser privado desse título quem abusa dele, mas não quem o faz com humildade, honrando a Deus e servindo os filhos.

“Como, porém, não obstante ser ele [Deus] somente quem, por sua própria influência, gera as almas, e as regenera e vivifica, ele faz uso do ministério dos seus servos para esse propósito, não há mal em chamá-los de pais, quanto ao seu ministério, vez que isso não detrai de maneira alguma da honra a Deus.”

João Calvino, Comentário a Mateus 23:9

Paternidade espiritual é um tema delicado. Muitas pessoas já foram feridas profundamente através de abusos de autoridade espiritual e religiosa, e é compreensível que essa questão provoque vários temores e ansiedades. Mas a cura para a má paternidade é a boa paternidade, e tudo começa entendendo como a revelação divina nas Escrituras trata a questão.

Rev Gyordano M. Brasilino

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