Honrar os santos é idolatria?

Minha publicação (5)

Honra é um elemento muito importante da fé cristã. Não apenas aprendemos a honrar pai e mãe, mas também honrar as autoridades (Rm 13:7; 1Pe 2:17), honrar o cônjuge (1Pe 3:7), as viúvas (1Tm 5:3), os anciãos (Lv 19:32). Honrar os que temem o Senhor é uma virtude elogiada (Sl 15:4). Paulo disse que Epafrodito deveria ser recebido com honra em razão de sua fidelidade a Cristo (Fp 2:25-30); do mesmo modo, o rei Ezequias foi honrado em sua morte (2Cr 32:33). De fato, as Escrituras dão amplitude máxima à honra: “Honrai a todos.” (1Pe 2:17a). Se isso não significa que todos devem receber as mesmas honras — pois não podemos mentir enquanto honramos —, certamente significa que honrar é um dever. Não honrar é violar um mandamento, é pecar.

Naturalmente, essa honra não está limitada ao que nós fazemos em ambientes de culto, durante a liturgia. Honrar outras pessoas é um elemento essencial da vida cristã como um todo. Honrar outras pessoas é entender que tudo o que elas têm de bom jorra da fonte infinita da bondade divina. Só é possível para quem entende como todos somos parte da providência divina. Se, durante um sermão, falamos das qualidades de Paulo, seu zelo missionário e sua profundidade no mistério de Cristo, seu cuidado pastoral e sua fidelidade à vocação divina, devemos inserir tudo isso numa vida cristã de honra e reconhecimento. Honramos enquanto estamos juntos em celebração, mas a honra deve ser um hábito, e nesses momentos esse hábito deve apenas fluir naturalmente.

Essa honra é constitutiva da Igreja. Servimos uns aos outros e honramos uns aos outros. Uma das imagens proféticas da Igreja nas Escrituras, usada com muita sabedoria por Sto. Agostinho, é da cidade de Deus: a Igreja é a Jerusalém Celeste, a Cidade Eterna que desce dos céus. O Senhor usou essa imagem no Sermão da Montanha, quando disse sobre os discípulos:

Mateus 5:14-15
“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.”

Cristo é esse Monte sobre o qual está edificada a Cidade de Deus. Essa cidade é a luz do mundo, e é através das boas obras dos discípulos que o mundo é iluminado. É surpreendente que não sejam as obras de Cristo, mas as dos discípulos! Foi do desejo dele que os discípulos fossem elevados, colocados no velador, em posição alta, para que através deles o Pai fosse glorificado. Eles não podem ser escondidos. Poucos versículos depois, falando da obediência e ensino dos melhores discípulos, ele disse: aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.” (Mt 5:19b). Cristo não diz aí apenas que os santos (“cumprir”) e doutores (“ensinar”) seriam grandes, mas que seriam chamados grandes. Há um reconhecimento público no reino de que tais pessoas são grandes.

Assim, Paulo visualiza a Igreja como um corpo no qual, “se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1Co 12:26). A honra de um é alegria de todos. A elevação de um é ascensão de todos. Porque estamos unidos, não precisamos brigar por honras e títulos, podemos reconhecer em todos a mesma bondade de Cristo. Tudo nos beneficia, porque tudo é nosso. A Igreja é, de fato, gloriosa (Ef 5:27), e esse brilho divino nos faz lembrar das palavras de Daniel 12:3: “Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos ensinam a justiça, como as estrelas sempre e eternamente.”

Não apenas desonrar é um pecado, mas honrar é uma virtude recompensada por Deus. Pois Deus honra os que o honram (1Sm 2:30), e nós honramos a Deus quando honramos as suas obras. Para Cristo, honrar os seus discípulos era tão importante que ele faria com que outras pessoas reconhecessem isso: “eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.” (Ap 3:9). Que importância Cristo dá aos seus! É por isso que quem recebe um profeta é galardoado como profeta, e quem recebe um justo é galardoado como justo (Mt 10:41). Deus nos dá um galardão que nós nem mesmo merecemos, apenas porque honramos aqueles a quem ele honrou.

Parte dessa honra inclui o fato de que pregar o Evangelho não é apenas falar sobre Cristo. Ele é o centro, ele é o sentido de tudo, mas em torno desse centro giram miríades e constelações de santos, de homens e mulheres nos quais Cristo viveu, que sofreram os sofrimentos de Cristo. A essência da Igreja é essa união com ele: “Cristo vive em mim”. Por isso, quando pregamos o Evangelho, não pregamos apenas sobre a pessoa de Cristo abstratamente, mas sobre o Cristo concreto, com toda a sua história, com todas as pessoas ao seu redor, com todos os que vivem nele, com todos em quem ele vive, com toda a sua Igreja. Pregamos o Cristo inteiro. Falar de Paulo é falar de Cristo, porque o único Paulo que conhecemos agora é aquele que foi inteiramente tomado por Cristo, aquela cuja vida se tornou um sacrifício entregue aos pés de Cristo. Honrar Paulo é honrar Cristo, porque é honrar a oferta deixada aos pés do nosso Senhor.

É assim que nos livramos do perigo da idolatria, que muitos veem na honra aos santos, e que ocorre quando se honra e serve “mais a criatura do que o Criador” (Rm 1:25). Nunca cairemos na idolatria enquanto tratarmos os servos de Cristo como servos de Cristo, como ofertas aos seus pés, e aos pés daquele que é o único digno de receber nossos sacrifícios, nosso culto, nossa adoração. A idolatria é sempre uma honra mentirosa, desproporcional à criatura, uma falsa honra, muito perigosa e danosa. A verdadeira honra é o antídoto para a idolatria, porque é a honra que subordina os servos de Cristo a Cristo.

O próprio Cristo não tinha nenhum ciúme a esse respeito. É certo que devemos amá-lo mais do que a tudo e a todos, mas ele mesmo incluiu outras pessoas nesse amor, unindo-se a elas. Quando esteve em Betânia, Cristo foi ungido por uma mulher que, segundo o Quarto Evangelho, era Maria de Betânia. Acerca dessa mulher e de sua bondade para com Cristo, ele disse: “Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua.” (Mc 14:9). Cristo quis que Maria de Betânia fosse honrada. Ele honrou aquela que lhe honrou. Como ele o fez? Incluindo Maria de Betânia na pregação do Evangelho. Um Evangelho sem essa mulher não é um evangelho inteiro, assim como não é inteiro um evangelho sem os apóstolos.

Se foi assim com Maria de Betânia, que lhe ungiu uma vez, que dirá com sua própria mãe, que tanto cuidou dele, aquela que todas as gerações reconheceriam como bem-aventurada (Lc 1:48), aquela que é bendita entre as mulheres (Lc 1:42)! A Mãe do Senhor, assim como Maria de Betânia, assim como Paulo, assim como todos os servos de Cristo, devem ser vistos como parte de Cristo, como parte do Cristo crucificado que é a totalidade do Evangelho.

Nós honramos os santos quando reconhecemos, em pregação e em cântico, suas virtudes e seu sacrifício, e também quando os imitamos. Sim, nós cristãos imitamos outras pessoas. Não imitamos apenas os atos de Cristo que lemos nos evangelhos, mas imitamos os atos de Cristo em todos aqueles em que Cristo vive. Por isso, Paulo ensina a que os cristãos o imitem em tudo o que ele fez (Fp 4:8-9). Aliás, não só que o imitem; ele usa palavras mais fortes: que sejam seus imitadores (1Co 11:1; 1Ts 1:6-7; Hb 6:12). Ser cristão é ser imitador de Cristo e imitador daqueles em quem Cristo vive.

Rev. Gyordano M. Brasilino

3 comentários em “Honrar os santos é idolatria?

  1. Caramba…Minha concepção de Honra foi totalmente desconstruída e construída novamente agora. Aleluia e que honra é poder ler seus posts Pastor.

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