A Cruz é mesmo o pagamento do pecado?

Minha publicação (6)

Em alguns textos do Novo Testamento, aprendemos que os nossos pecados podem ser tratados e chamados como dívidas. Essa metáfora não existe no Antigo Testamento, que trata o pecado mais como fardo (a ser carregado) ou doença (a ser curada). Uma dívida pode ser perdoada ou paga, linguagem que acaba sendo transferida para o modo como lidamos com o próprio pecado.

As Escrituras falam diversas vezes sobre o perdão ou remissão do pecado, mas alguns cristãos acharam que poderiam explicar a obra da redenção como o pagamento de uma dívida, sob a suposição de que Deus só perdoa as dívidas através de algum pagamento. Cristo seria o pagador de uma dívida.

Essa suposição não é corroborada pelas Escrituras. Elas afirmam que o perdão divino se deu através da Cruz, mas não tratam, em nenhum lugar, o sacrifício do Senhor como um pagamento de dívida, como se Deus não pudesse perdoar dívidas livremente. Em diversos textos, aliás, vemos a obra do Redentor ser tratada como uma compra, como uma redenção, através do sangue precioso do cordeiro, mas nunca como o pagamento de uma dívida.

Embora com certa frequência se invoque a Cl 2:14 para mostrar que na cruz houve um pagamento de dívida — supondo-se que o cheirographon (manuscrito, quirógrafo) de que fala o texto deva ser traduzido ou entendido como “escrito de dívida” —, o texto não ensina absolutamente nada sobre pagamento. Há uma eliminação do escrito, mas o texto não indica que essa eliminação se deu porque houve pagamento. Na verdade, o “manuscrito” de que fala o texto é a Lei de Moisés em suas ordenanças, que perdeu sua autoridade sobre os que estão na cruz (Rm 7:1-6; Ef 2:14-16), não uma dívida particular com Deus por um pecado.

Não apenas as Escrituras não tratam a cruz como um pagamento de dívida, mas elas ensinam o contrário disso: ensinam que o perdão foi realmente gratuito, “segundo as riquezas da sua graça” (Ef 1:7). Seria um grande absurdo dizer que o perdão foi gratuito para nós mas foi comprado por Cristo, gratuito para um e pago por outro. Se eu tenho uma dívida e alguém a paga por mim, não há nenhum sentido em dizer que a dívida foi perdoada gratuitamente. Nessa hipótese, a dívida não foi perdoada, não houve gratuidade, mas apenas pagamento. Gratuidade envolve eliminar a dívida. A Escritura Sagrada mostra um perdão divino inteiramente gratuito, não apenas como o perdão do pecado, mas também como o perdão do próprio pecado cometido, lançando-o ao mar, esquecendo-o.

Assim, aprendemos através da Parábola do Servo Ingrato (Mt 18:21-35) que Deus perdoa nossa dívida imensa sem qualquer pagamento, exigindo apenas que nós repliquemos esse perdão. Quando não perdoamos, o perdão que recebemos é cancelado. Isso mostra que não houve pagamento, mas apenas perdão da dívida. No entanto, aqui encontramos uma condição para o perdão: para perdoarmos, devemos perdoar. Os misericordiosos encontram misericórdia: quem perdoa é perdoado, e quem não perdoa não é perdoado (Mt 6:14-15). A criatura deve estar apta para receber o perdão, em razão de que Cristo não nos dá um perdão automático para toda a vida, mas nos perdoa quando, arrependidos, confessamos os nossos pecados (1Jo 1:7,9). A aceitação do ensino dessa parábola exige de nós tanto a gratuidade do perdão (quanto à dívida) quanto a mudança da criatura (quanto à recepção do perdão).

Assim, se o perdão foi realmente gratuito, e não um pagamento, logicamente a obra de Cristo “para remissão de pecados” deve ser entendida não como pagamento, mas como um “tornar apto” da criatura para o perdão, como uma purificação do mal espiritual que o pecado nos provoca (Tg 1:14-15). Pois, mais uma vez, o perdão divino não é apenas a não punição da criatura, antes é a reconciliação da criatura com Deus, a restituição da comunhão divina. É aqui que o sangue de Cristo se mostra necessário para remissão, pois a remissão depende da possibilidade de comunhão, e a obra de Cristo torna essa comunhão possível através da purificação.

Além disso, o perdão de pecados propriamente dito é recebido por nós através da intercessão presente de Cristo (cf. Hb 7:25; 1Jo 2:1-2), que resulta do seu sacrifício de vida. Essa intercessão não é uma tentativa do Filho convencer o Pai a perdoar, pois foi o Pai mesmo que quis perdoar, mas para colocar o Filho como caminho único da salvação.

Diante disso, há ainda uma maneira válida de dizer que Cristo pagou o preço do nosso perdão, no sentido de que ele fez o necessário para que nós pudéssemos receber esse perdão divino, como quando alguém “paga o preço”, estudando, para alcançar determinado objetivo. Mas é uma linguagem figurada, o preço não é pago a ninguém, antes o esforço é tratado como “preço”. Sem dúvida, houve um esforço de vida de Cristo por nós. Se alguém quiser chamar esforço de pagamento, que chame. Mas, no fundo, esse perdão deve ser visto como realmente gratuito e sem pagamento. Afinal, não é possível pagar a Deus, pois a ele tudo pertence: nada perde com o pecado e nada ganha com o sacrifício. Nós é que ganhamos. Toda a mudança ocorre em nós.

É por isso que a Escritura nos ensina a perdoar como Cristo nos perdoou (Cl 3:13): gratuitamente. Se Deus só perdoa através de pagamento, ele não pode ser um modelo para perdoarmos sem pagamento. Podemos perdoar o imperdoável porque Cristo perdoou o imperdoável.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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