O Batismo não é só um símbolo (parte 1)

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Reunidos no cenáculo, os seguidores de Cristo, o discípulos, com Maria e tantas outras pessoa, oravam pela vinda do Espírito Santo, e foi naquele primeiro Pentecostes depois da Ressurreição que o Espírito veio sobre a Igreja. Cristo rogou ao Pai e ele enviou o outro Consolador, o qual, na Igreja, continuaria a missão de Cristo.

Um vento impetuoso, línguas de fogo, línguas das nações, um sinal do fim dos tempos. Pedro, o líder dos apóstolos e de todos os cristãos, evoca as antigas profecias de Israel e, através delas, comunica aos judeus em Jerusalém a novidade de aquele que havia sido crucificado era, na verdade, o Messias de Deus, o Ungido.

Mas aquela nação não estava perdida: Pedro lhes prometeu que, se se arrependessem e fossem batizados, receberiam o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo (At 2:38). Aquela bênção recebida pelos discípulos não seria retida, seria passada adiante. Enquanto João batizava apenas com água, veio aquele que batiza com o Espírito Santo, e, através das mãos da Igreja, esse mesmo Espírito seria concedido. O que com João estava separado, em Cristo está unido.

O que Pedro viu no Batismo, para fazer essa promessa? Os pais da Igreja, pautados em textos como Rm 6:5 (homoiōma), viam nos sacramentos uma similitude entre a operação simbólica e o operação espiritual, entre o que vemos e o que não vemos, de modo que o visível revela o invisível, por meio de uma analogia sacramental. Por isso, para entender o propósito do Batismo e seu efeito espiritual, é preciso perguntar sobre seu simbolismo natural, pré-cristão, e relacioná-lo de alguma maneira ao mistério de Cristo, à narrativa do Batizador.

O Batismo é o Sacramento da Fonte, é o Sacramento da água. A água tem uma dualidade simbólica própria: significa tanto vida quanto morte, tanto origem quanto destruição. Não é preciso procurar muito, nas Escrituras, para perceber que as águas e os poderes destrutivos (humanos e espirituais) são representados por águas. Vemos os dois símbolos no Sl 46: em redor de Jerusalém, as águas da guerra rugem e se perturbam (v. 3), mas há um rio, no meio da cidade, que lhe traz alegria (v. 4). Tanto no Dilúvio quanto na travessia do Mar Vermelho, a mesma água foi destruição para os ímpios mas salvação para o povo de Deus. Nos dois casos, as águas destruidoras fazem uma separação e constituem uma nova comunidade. No segundo caso, o próprio Moisés foi, profeticamente, salvo através das águas, pelas quais foi protegido da fúria destruidora do Inimigo e adotado como príncipe (Êx 2:10).

Essa dualidade existe também no fogo, e é natural, portanto, que ambos sejam vistos em conjunto nas Escrituras, como a coluna de nuvem e a coluna de fogo que guardavam os israelitas na travessia. Também o fogo é destruidor, é perigoso, pode ser incontrolável, mas aquele, ilumina, molda, protege, serve ao homem na arte. Há nessas forças naturais o simbolismo do caos: destruição, mas também potencial, vida, criação. Assim, a destruição do Dilúvio levou a uma nova história humana. Embora, como cristãos, devamos reconhecer em Deus a origem de tudo, a narrativa da Criação em Gênesis 1 não mostra a água sendo criada em momento algum. Deus cria a terra, os astros, os animais, o homem, mas a água permanece como uma força prévia, anterior, do abismo caótico. Enquanto criar é separar das águas, destruir, no Dilúvio, é fazer que essas águas retornem ao mundo, para gerar um novo. É por isso que o vento/Espírito, que soprava na origem, é soprado também no Dilúvio (Gn 1:2; 8:1). Do caos, uma nova ordem emerge.

As águas do Dilúvio não apenas chovem das comportas celestes, mas também brotam do abismo (Gn 7:11). Essas são as águas acima do firmamento e as águas sob a terra, na narrativa da Criação (Gn 1:6-9). Mas essas águas não são apenas poder destrutivo, pois o mesmo livro de Gênesis pode dizer que Deus “te abençoará com bênçãos dos altos céus, com bênçãos do abismo que está embaixo” (49:25). De alguma maneira, o abismo que geralmente é fonte de morte e destruição, é também, nas mãos divinas, fonte de bênção. Assim, é natural que a purificação seja feita na água, seja nos casos de impureza (como a lepra), seja quando uma cidade se purifica de um homicídio (Dt 21:1-9). É devolver o mal à sua própria origem. Os demônios nos porcos precipitam-se no mar.

Vemos essa mesma narrativa de destruição e vida na história de Cristo, prefigurada na de personagens como José, Jeremias e Daniel, e Paulo pode vê-la mesmo como a história de Israel em sua queda e redenção última (Rm 11). É sempre uma mesma história sendo contada, tendo Cristo como epicentro. Por isso, é natural que, tendo em vista a concepção cristã de participação nos sofrimentos de Cristo, e diante dessa dualidade do batismo, nosso batismo passasse a significar a nossa morte com Cristo. O Batismo não é só um compromisso, mas também graça, a operação invisível do Espírito. Pois somos salvos através dessa participação nos sofrimentos de Cristo (Rm 8:14).

Assim como a água em geral, a chuva pode ser ira destrutiva (Is 4:6; Ez 13:11-13; 38:22), tanto qual é um símbolo de Deus e de bênção (Ez 34:26; Os 6:3). A chuva impetuosa provoca a fome (Pv 28:3). O Espírito divino e sua bênção aparecem, assim, como chuva, como um poder celestial derramado (Is 44:3-4).

Diante desse simbolismo das águas e da chuva, era natural que Pedro visse no Batismo esse derramamento do Espírito. Essa mesma promessa de At 2:38 aparece também em Gl 3: a promessa de Abraão é a promessa do Espírito, de modo que, aqueles que através do Batismo foram unidos a Cristo, tornam-se por isso filhos de Abraão e, portanto, herdeiros da promessa do Espírito, do Espírito prometido.

Paulo vê aí um vínculo de certeza: o “todos quantos” (hosoi) de Gl 3:27 é o mesmo “todos quantos” de Rm 6:3: todos os batizados foram revestidos de Cristo, todos os batizados foram inseridos na morte de Cristo. Num arrebatamento, Paulo sequer vislumbra aí a possibilidade de apostasia pós-batismal, de abandono da graça sacramental: “se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição” (Rm 6:5). O batizado certamente ressuscitará. O mais difícil, em Paulo, não é provar que o Batismo salva, mas provar que o batizado pode ser condenado.

Rev. Gyordano M. Brasilino

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